Clarice Lispector XXXIII

Sete crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice Lispector.
Sabe mais sobre essa sequência de crônicas (aqui).

clarice

O processo

– Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou aguentando viver.
     – Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor.
 – E depois?
     – Depois vem a Natureza.
– Você está chamando a morte de natureza?
     – Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
 – Será que todas as vidas foram isso?
     – Acho que sim.”


Desencontro

Eu te dou pão e preferes ouro. Eu te dou ouro mas tua fome legítima é de pão.”


Submissão ao processo

O processo de viver é feito de erros: de coragem e preguiça, desespero e esperança de vegetativa atenção, de sentimento constante.” Vem a revelação que não conduz a nada, mas o nada era a própria organização do viver. Paciência, que enerva, uma impaciente paciência.”


O presente

…Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão ? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.


Ao que leva o amor

– Eu te amo)
    – (É isso então o que sou?)
    – (Você é o amor que tenho por você)
    – (Sinto que vou me reconhecer… estou quase vendo… falta tão pouco)
    – (Eu te amo)
    – (Ah, agora sim. Estou me vendo. Esta sou eu, então. Que retrato de corpo inteiro.)


Homem se ajoelhar

É bom para o homem se ajoelhar diante da mulher. Fica com a cabeça perto dos joelhos e das mãos da mulher, a sua parte mais quente. “A mulher pode pegar aquela cabeça cansada que é fruto entre seu e dela“.


Dar-se enfim

Abrir as mãos e o coração, e não perder nada. O prazer de ser, o perigo do coração estar livre. Não ter avareza com o vazio pleno, gastá-lo !

Até ao próximo post!

A Fronteira e The Terminal

A fronteira é um chamado para acordar. Na fronteira, não podemos evitar a verdade; as reconfortantes camadas do cotidiano, que nos isolam das realidades mais ásperas do mundo, são removidas e, de olhos arregalados, à luz fluorescente dos salões sem janelas da fronteira, vemos as coisas como são. A fronteira é a prova física do eu dividido da espécie humana, a prova de que a utópica visão aérea de Merlin é uma mentira. Eis a verdade: essa linha, diante da qual temos de parar até nos ser permitido ultrapassar e apresentar nossos documentos para serem examinados por um funcionário que tem o direito de nos perguntar mais ou menos qualquer coisa. Na fronteira, somos despidos de nossa liberdade — esperamos que temporariamente — e entramos no universo do controle. Mesmo a mais livre das sociedades livres não é livre no limite, onde coisas e pessoas saem e outras pessoas e coisas entram, onde apenas as coisas e pessoas certas devem entrar e sair. Aqui, no limite, nos submetemos ao escrutínio, à inspeção, ao julgamento. As pessoas que guardam essas linhas têm de nos dizer quem somos nós. Temos de ser passivos, dóceis. Agir de outra forma é ser suspeito, e na fronteira ser alvo de suspeita é o pior de todos os crimes possíveis.” – Salman Rushdie

Ao ler esse trecho do livro “Cruze esta linha” veio à memória o filme do Steven Spielberg, “The Terminal”, com a excelente interpretação do Tom Hanks. Segue o trailer…

Até ao próximo post!

O Último Voo do Flamingo, o livro

download (1)
Esse é o terceiro livro de Mia Couto (António Emílio Leite Couto) que leio. Tem sido agradável enveredar pela África que fala português através da escrita desse escritor moçambicano, que usa a palavra “contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos”, um papel que ele diz que também cabe aos escritores.

 

download (2)
O Último Vôo do Flamingo
foi uma leitura carregada de fatos estranhos do início ao fim do livro. Começando com a cena de um sexo masculino avultado e avulso encontrado numa estrada, consequência de uma das várias explosões de capacetes azuis da ONU, que Mia Couto desenvolve uma estória que se passa na fictícia Tizangara. Cada capítulo é aberto com um dito ou provérbio africano.

As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão.” (provérbio africano)

Os flamingos, cuja voz orienta os pescadores, são os anunciadores da esperança, que foi raptada pela ganância dos poderosos, e que buscam manter a ordem que lhes mantém patrões. A ordem que é uma doença em Tizangara, mas que parece se encaixar bem na história de Moçambique, ex-colônia portuguesa. 

Foi uma pena de flamingo encontrada pelo escritor enquanto caminhava numa praia de Moçambique que inspirou Mia Couto por 2 anos na construção dessa obra.

O livro acabou por ter uma adaptação para o cinema em 2010.

Até ao próximo post!

Em nome de Deus, Salman Rushdie

Mas eu não sou um homem religioso. Eu não me ajoelhei. Fui dar uma entrevista em uma televisão e disse que eu queria ter escrito um livro mais crítico. Por quê? Porque, quando o líder de um Estado terrorista acaba de anunciar sua intenção de matar você em nome de Deus, você só pode vociferar ou resmungar. Eu não quis resmungar. E porque, quando o assassinato é ordenado em nome de Deus, você começa a ter menos consideração pelo nome de Deus.

    Depois, pensei: se existe um Deus, não acho que ele vá se importar com Os versos satânicos, porque ele não seria um grande deus se se abalasse de seu trono por causa de um livro. Por outro lado, se não existe um deus, ele certamente não se importa. Então o problema não é entre mim e Deus, mas entre mim e aqueles que pensam — como Bob Dylan um dia nos lembrou — que podem fazer o que quiserem porque têm Deus do seu lado.” – Salman Rushdie, pág.222 versão Epub de Cruze Esta Linha.

  • O tradutor italiano de “Os versos satânicos” quase foi morto, o tradutor japonês foi morto.
  • Um esquadrão de ataque assassinou o ex-primeiro-ministro Shapour Bakhtiar em Paris.
  • Outro esquadrão matou um cantor iraniano dissidente na Alemanha. Cortaram-no em pedaços e colocaram em um saco.
  • Um esquadrão de ataque treinado no Irã/Irão assassinou o jornalista secular Ugur Mumçu. 
  • No Egito, assassinos fundamentalistas mataram Farag Fouda, um dos mais importantes pensadores seculares do país.

Só resta ouvir o Prêmio Nobel de Literatura 2017…

Até ao próximo post!

 

 

Camino a La Paz, o filme

O título do filme Camino a La Paz (2015) saltou-me logo aos olhos, uma oportunidade de viajar sem sair de casa. Acabei por conhecer não só um pouco da paisagem entre Buenos Aires e La Paz, como também um filme sensível com dois atores dedicados na sua interpretação (Rodrigo De La Serna e Ernesto Suárez), uma trilha sonora com um bom rock da banda argentina Vox Dei, e um enredo com uma rara amizade que acontecerá entre um jovem e um senhor de “mundos” completamente diferentes.

Apesar de um filme pouco pretensioso e com algumas cenas lentas, pareceu-me um bom exemplar de filme no gênero Road Movie. Se for o seu estilo de película, deixo a seguir um trailer. O filme completo está no YouTube com áudio e legenda em espanhol.

Até ao próximo post! 😉

O Xará, o livro

O leitor deve perceber por conta própria que não poderia ter acontecido de outro modo, e que dar-lhe qualquer outro nome estava totalmente fora de questão.”
Nikolai Gógol, “O Capote”.

jhumpaFoi ao ler “Cruze esta linha”, de Salman Rushdie, que conheci a escritora Jhumpa Lahiri. Ele escreveu que a escritora é muito talentosa, e participou da sensação geral de orgulho por sua conquista ao prêmio Pulitzer por seu primeiro livro de contos “Intérprete dos males” (2000). Jhumpa Lahiri já venceu outros prêmios de literatura e participou da FLIP 2014 (Festa Literária Internacional de Paraty). Logo a curiosidade despertou e fui em busca de uma obra dessa escritora.

 

downloadO primeiro romance que li de Jhumpa Lahiri foi “O xará”. A sua prosa é suave, levando-nos a acompanhar a vida do principal personagem Gógol Ganguli de uma maneira tal que o desejo é de devorar o livro o mais rapidamente possível.

Gógol Ganguli, com seu nome russo e sobrenome indiano, vagueia sobre as duas culturas, a americana e a indiana, sobre tradições e costumes diferentes. O cenário do livro situa-se em Boston, Nova Iorque e Índia.

Os pais de Gógol são indianos, imigrantes em busca de oportunidades nos Estados Unidos. Se conheceram na Índia, através de um casamento arranjado por seus pais. Foi só após o noivado que a mãe de Gógol, Ashima Bhaduri, soube o nome do futuro marido, Ashoke Ganguli. Torna-se Ashima Ganguli. Isso porque na tradição bengali, o nome do marido é algo íntimo.

Para Ashima, ser estrangeira é um sentimento contínuo de indisposição, mas que também desperta. Eu conheço bem esse sentimento. Ashima estranhava que uma criança nasce num lugar onde as pessoas geralmente entram para sofrer ou para morrer. É num hospital americano que inicia a vida de Gógol. Ele entra para o mundo.

A vida de Gógol inicia-se com um obstáculo, entre uma tradição bengali e o protocolo para ser liberado do hospital, uma certidão de nascimento. É preciso um nome. Na tradição de sua família, os nomes são escolhidos pela avó de Ashima. Uma carta enviada de Calcutá constaria um nome para menino e outro para menina, mas a carta nunca chegou ao destino.

Gógol Ganguli recebe esse nome, uma ideia do pai Ashoke em homenagem ao escritor russo Nikolai Gógol, para que possa ser liberado da maternidade do hospital, na verdade era apenas um “nome de criação”, uma solução provisória. Em bengali, esse nome de criação é o “daknam”, que significa o nome pelo qual se é chamado por amigos, parentes e pessoas próximas íntimas. O “nome de criação” é acompanhado de um “nome bom”, um “bhalonam”, que é uma identificação no mundo externo.

Gógol é um deshi (indiano), aliás ele é um ABCD – American-born confused deshis. E ele cresce em dificuldades em aceitar o seu nome de criação que passou a ser utilizado no mundo externo devido ao extravio da carta da avó de Ashima, seguido da doença da avó. Completada a maioridade americana, Gógol troca o nome para “Nikhil” que já tinha sido uma sugestão do pai no passado, quando Gógol entrou para a escola nos Estados Unidos.

Nikhil tem uma conexão com o nome anterior. Era um bom nome bengali que significa “aquele que é inteiro, que abrange tudo”. Gógol descobre, durante a sua trajetória de vida, que os nomes perecem assim como as pessoas, e que famosos também tiveram segundos batismos.

Foi nesse romance que também é um passeio sobre culinária que mergulhei, e gostei imenso da escrita de Nilanjana Sudeshna Lahiri, a Jhumpa Lahiri. Eu que sou “a que vive na floresta’.

Até ao próximo post!

Sobre ser fotografado, Salman Rushdie

… a câmera é uma arma: uma fotografia é um shot [um tiro] e uma sessão de fotos é uma shoot [uma sessão de tiro], e o retrato pode ser portanto o troféu que o caçador leva de sua shikar [caçada] para casa. Uma cabeça empalhada na parede.– Salman Rushdie


A BARCA é um grupo paulista que pesquisa gêneros tradicionais brasileiros, cria arranjos e composições inéditas inspiradas nas manifestações populares. Essa música do grupo ouvi pela primeira vez numa rádio portuguesa há 10 anos atrás.  Fui descobri-los em Portugal! “Tirei um retrato de Cleusa…”.

Até ao próximo post!

Na trilha alegre, Bruxelas

Ainda no caminho da “Street Art”, e desta vez, na trilha do “vive e deixa viver”, é a vez das cores alegres nas proximidades da Rainbow House, na Rue du Marché au Charbon (Kolenmarkt) e Rue de la Chaufferette (Lollepotstraat), em Bruxelas.

IMG_20200312_111149686_HDR

IMG_20200312_111833804_HDR

FB_IMG_1584116571174

IMG_20200312_111929548_HDR

IMG_20200312_111955589_HDR

IMG_20200312_112033472_HDR

IMG_20200312_112130495
Esse mural causou muita polêmica devido aos esteriótipos

IMG_20200312_112245530

IMG_20200312_112923221_HDR

Até ao próximo post!