Clarice Lispector XXXIV

clarice
Resumos de três crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice Lispector.

 


Horas para gastar

Clarice Lispector surpreendia-se com o número de horas que se tem para gastar.  “A vida é mais longa do que a fazemos. Cada instante conta.” Já descontadas as horas de sono, de fins de semana,  férias,  feriados, tempo gasto em condução para o trabalho, ela chegou ao número de mil novecentos e trintas horas por ano.

Prazer no trabalho 

“Não gosto das pessoas que se gabam de trabalhar penosamente. Se o seu trabalho fosse assim tão penoso mais valia que fizessem outra coisa. A satisfação que o nosso trabalho nos proporciona é sinal de que soubemos escolhê-lo.”

Um instante fugaz 

Esse instante na vida da escritora foi um encontro sem palavras, apenas um sorriso entre ela e um hippie. Enquanto  ela caminhava por uma rua movimentada, em direção oposta a sua, percebeu um olhar, não pararam. Um encontro muito profundo, como disse. Riram da tolice do mundo. A escritora  nunca mais esqueceu-o, e passou a imaginá-lo com o nome John, um irmão, que tinha a capacidade de êxtase como ela. Deixou-a plena e útil.

Até ao próximo post!

A beleza da severidade

Durante a leitura de Cruze Esta Linha surge um nome familiar e respeitado, possivelmente mais conhecido e valorizado fora de seu país, Sebastião Salgado. O seu talento brinda-nos com uma imagem que fala por si. E é sobre ela, a reflexão do escritor Salman Rushdie:

Há uma foto de Sebastião Salgado que mostra o muro entre os Estados Unidos e o México serpenteando pela crista dos montes, sumindo na distância, até onde o olho pode enxergar, parte Grande Muralha da China, parte Gulag. Há uma espécie de beleza brutal ali, a beleza da severidade. Em intervalos há torres de vigia no muro, e nelas, chamadas de “torres do céu”, há guardas armados. Na foto, vemos a minúscula silhueta de um homem correndo, um imigrante ilegal, perseguido por outros homens em carros. O estranho na foto é que, embora o homem correndo esteja claramente do lado americano, ele está correndo para o muro, e não se afastando dele. Ele foi visto, e tem mais medo dos homens que o perseguem em carros do que da vida pobre que pensava ter deixado para trás. Estava tentando voltar, tentando desfazer seu lance de liberdade. Então a liberdade agora tem de ser protegida, contra aqueles que são pobres demais para merecer seus benefícios, pelos edifícios e procedimentos do totalitarismo.” – Salman Rushdie

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foto retirada do Google

Até ao próximo post !

 

Bonsai, o livro

zambraO primeiro livro do chileno Alejandro Zambra possui poucas páginas, quase a sinopse de um roteiro. E que, realmente, veio a se tornar um filme. Um livro premiado e traduzido para vários idiomas.

Julio e Emilia, dois jovens estudantes, que se conhecem numa noite que era para ser de estudos, começam um relacionamento com diversão, sofrimento, mentira, revelações íntimas, cumplicidades, sexo, e que liam muito juntos, comentavam sobre a leitura antes de trançarem as pernas, por isso há no livro muitas citações de livros e autores.

bonsaiParece uma história de relacionamento amoroso como outras, a diferença é que Zambra deixa logo claro que Emilia morrerá. Mesmo com essa revelação, Zo escritor consegue provar que um livro mesmo sendo curto pode ser capaz de surpreender e cativar o leitor. Sobre o livro se chamar ‘Bonsai‘ deixo em aberto, mas segue a dica retirada de uma das páginas do livro.

Um bonsai nunca é chamado de árvore bonsai. A palavra já inclui o elemento vivo, a árvore deixa de ser um bonsai.” 

P.S.: Segue trailer do filme Bonsái do realizador chileno Christián Jiménez baseado no livro. Uma co-produção entre Portugal, Argentina, Chile e França.

Até ao próximo post!

 

O que é amor

Paul Éluard (1895-1952), poeta francês surrealista, escreveu sobre a liberdade, sobre a guerra, … e sobre o amor.

 Anna Karina recita poema de Paul Éluard no filme Alphaville (1965) de Jean Paul Godard.

E o amor era o mais puro sentimento, apesar de uma vida marcada pela doença, pela infidelidade,  pela traição,  pela depressão, era o amor que brotava da boca do coração de Paul Éluard, capaz de revelar “o que é amor“, publicado no livro “A capital da dor” (1926).

Sua voz, seus olhos,
Suas mãos, seus lábios.
Nosso silêncio, nossas palavras.
A luz que vai embora, a luz que volta.
Um único sorriso entre nós.
Por necessidade de saber,
Vi a noite criar o dia,
Sem que mudássemos de aparência.
Oh, bem-amado de todos,
E bem-amado de um só!
Em silêncio, sua boca prometeu ser feliz.
Cada vez mais longe, diz o ódio.
Cada vez mais perto, diz o amor.
Uma carícia leva-nos da nossa infância
Cada vez que vejo a forma humana
Como um diálogo de amantes.
O coração tem uma única boca.
Tudo por acaso.
Todas as palavras ditas inesperadamente.
Os sentimentos à deriva.
Os homens vagueiam pela cidade.
Um olhar, uma palavra
Porque eu te amo
Tudo está em movimento
Basta avançar, para viver,
Seguir adiante em direção aqueles que você ama.
Fui em sua direção, sem parar na direção da luz
Se você sorrir, é para melhor me envolver
Os raios dos seus braços entreabriram a névoa.

Segue este bela homenagem à Anna Karina, com imagens do filme Vivre Sa Vie (1962), de Jean-Luc Godard, e o amor na belíssima música de HanteQue Reste​-​t​-​il de notre amour ?.

Até ao próximo post!

 

“A pressão no muro irá aumentar”

Durante a leitura de Cruze esta linha, de Salman Rushdie, encontro esse aviso real e iminente…

Como disse o prêmio Nobel professor Amartya Sen, o problema não é a globalização. O problema é uma justa distribuição de recursos em um mundo globalizado. E à medida que aumenta o abismo entre os possuidores e os despossuídos do mundo (e ele aumenta o tempo todo), e à medida que até o suprimento de coisas essenciais, como água potável, se torna mais escasso (e escasseia o tempo todo), a pressão no muro irá aumentar.
Salman Rushdie, em Cruze esta linha

O saudoso pernambucano Chico Science (Francisco de Assis França) e a sua Nação Zumbi, no álbum da Lama ao Caos (1994) cantou: ” A cidade não pára. A cidade só cresce. O de cima sobe. E o de baixo desce”.

Até ao próximo post!