Agualusa em Um Estranho em Goa

“Escrevo porque quero saber o fim”. Começo uma história e depois continuo a escrever porque tenho de saber como termina. Foi também por isso que fiz esta viagem. Vim à procura de um personagem. Quero saber como termina a história dele.
(versão Epub, pág. 9)

E eu gosto do que Florbela Espanca escreveu e o cantor português Luís Represas, no Trovante, tão bem interpretou… “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior”. Ouçam…

Até ao próximo post!

P.S. Segue o blog também no Instagram, YouTuBe, Facebook e Twitter.

Caril de feijão frade


Eu gosto muito de feijão frade. Na Bélgica encontro-o apenas em lojas de produtos portugueses. Eu conhecia receitas de feijão frade em salada com atum e vinagrete, ou em cebolada, então fui à procura de alguma receita diferente de tudo que até então eu conhecia com feijão frade. Foi assim que cheguei a este caril de feijão frade.

Ingredientes (4 pessoas):
3 colheres de sopa de manteiga
1 cebola grande picada
2 dentes de alho finamente picados
1 colher de chá de gengibre em pó
1 tomate grande picado
1/2 colher de chá de açafrão-da-Índia
1 pitada de pimenta preta acabada de moer
1/2 colher de chá de sal
1 colher de pimentão em pó (páprica doce)
1 colher de chá de caril (curry)
175 ml de natas (creme de leite)
250 ml de caldo de legumes
250 g de feijão-frade seco, deixado de molho durante a noite (usei o feijão frade em lata)
1 colher de sopa de salsa fresca picada

Aquece-se a manteiga numa caçarola grande em lume médio. Junta-se a cebola, que vai alourar durante 5 minutos. Acrescenta-se o alho e o gengibre, que fritam durante 30 segundos.
Adiciona-se o tomate, que frita durante 2 minutos.
Junta-se o açafrão-da-Índia, pimenta preta, o sal, o pimentão e o caril, deixa-se fritar 30 segundos.
Adicionam-se então as natas, o caldo de legumes e o feijão frade. Reduz-se o lume e deixa-se apurar durante 5 minutos, mexendo de vez em quando.
Serve-se imediatamente com arroz basmati e pão nan.

Até ao próximo post!
P.S.: O blog também está no Instagram, YouTuBe, Facebook e Twitter.

Clarice Lispector XLIII

Tenho tido o prazer de conhecer quem foi Clarice Lispector através de suas crônicas escritas para o Jornal do Brasil.
Desde então, tenho feito resumo dessas crônicas, na tentativa de fazer com que outras pessoas  também a conheçam.
Neste post não há resumo de uma crônica. Simplesmente, porque achei “conversas” uma crônica tão “deliciosa”, que mais vale apresentá-la sem cortes, e imaginar como foram essas conversas de Clarice com um compositor baiano de música popular, com Guimarães Rosa,  com Pedro Bloch, com Ivo Pitanguy e com um oficial de marinha.

Conversas

“Um dia acordei às quatro da madrugada. Minutos depois tocou o telefone. Era um compositor de música popular que faz as letras também.

Conversamos até as seis horas da manhã. Ele sabia tudo a meu respeito. Baiano é assim? E ouviu dizer coisas erradas também. Nem sequer corrigi. Ele estava numa festa e disse que a namorada dele – com quem meses depois se casou – sabendo a quem ele telefonava, só faltava puxar os cabelos de tanto ciúme. Na reunião tinha uma Ana e ele disse que ela era ferina comigo. Convidou-me para uma festa porque todos queriam nos conhecer. Não fui.

  Em compensação estive uma vez numa festa na casa de Pedro e Míriam Bloch. Foi poucos meses antes da morte de Guimarães Rosa. Guimarães Rosa e Pedro foram comigo para outra sala, na qual pouco depois entrou Ivo Pitanguy. Guimarães Rosa disse que, quando não estava se sentindo bem em matéria de depressão, relia trechos do que já havia escrito. Espantaram-se quando eu disse que detesto reler minhas coisas. Ivo observou que o engraçado é que parece que eu não quero ser escritora. De algum modo é verdade, e não sei explicar por quê. Mas até ser chamada de escritora me encabula. Nessa mesma festa Sérgio Bernardes disse que há anos tinha uma conversa para ter comigo. Mas não tivemos. Pedi uma Coca-Cola, em vez. Ele estava falando com o nosso grupo coisas que eu não entendia e não sei repetir. Então eu disse: adoro ouvir coisas que dão a medida de minha ignorância. E tomei mais um gole de Coca-Cola. Não, não estou fazendo propaganda de Coca-Cola, e nem fui paga para isso.

  Guimarães Rosa então me disse uma coisa que jamais esquecerei, tão feliz me senti na hora: disse que me lia, “não para a literatura, mas para a vida”. Citou de cor frases e frases minhas e eu não reconheci nenhuma.

  Outra pessoa que me telefonava de madrugada explicara que passava pela minha rua, via a luz acesa, e então me telefonava. No terceiro ou no quarto telefonema disse-me que eu não merecia mentiras: na verdade o fundo da casa dele dava para a frente da minha e ele me via todas as noites. Como se tratava de oficial de marinha, perguntei-lhe se tinha binóculo. Ficou em silêncio. Depois me confessou que me via de binóculo. Não gostei. Nem ele se sentiu bem de ter dito a verdade, tanto que me avisou que “perdera o jeito” e não me telefonaria mais. Aceitei. Fui então à cozinha esquentar um café. Depois sentei-me no meu canto de tomar café, e tomei-o com toda a solenidade: parecia-me que havia um almirante sentado à minha frente. Felizmente terminei esquecendo que alguém pode estar me observando de binóculo e continuo a viver com naturalidade. Como vocês veem isto não é coluna, é conversa apenas. Como vão vocês? Estão na carência ou na fartura?”

Até ao próximo post!

P.S. Podes também seguir o blog no Instagram, YouTuBe, Facebook e Twitter com conteúdo nem sempre igual.

Um estranho em Goa, o livro

Meu último “mergulho” na literatura foi uma viagem exótica com o escritor angolano José Eduardo Agualusa até Goa, através do seu livro Um estranho em Goa. Da leitura extraí alguns trechos que me tocaram, e que passo a apresentar em alguns posts, que serão acompanhados de uma música.

” Alma parece-me uma palavra muito grande. Já toda a gente abusou dela, poetas medíocres, filósofos, guerreiros, conspiradores, mas ainda assim continua enorme. “
(pág 8, versão Epub)

A palavra “alma” continua enorme e alegre na voz da cantora brasileira Zélia Duncan…

Até ao próximo post!

P.S.: Segue o blog também no Instagram, YouTuBe, Facebook e Twitter.

Pílula de choque III

Mark Manson escreve também sobre o sofrimento, e afirma:
A vida em si já é uma forma de sofrimento!

Calma, não é preciso encarar a afirmação como negativa, mas como realista no sentido de pelo menos atenuar o sofrimento. A evolução nos fez viver constantemente com certo grau de insatisfação, diz o autor. O sofrimento é a inspiração para mudanças, e o que nos leva a evitar os mesmos erros no futuro. No entanto, quanto mais profunda é a dor, mais impotentes nos sentimos diante dos problemas, e mais arrogantes ficamos.

Por isso, diz Mark Manson, não devemos encarar a nossa existência sob valores como o sucesso material e “prazeres-escrotos”. Devemos pautar nossa existência sob valores bons e saudáveis, e cita: “honestidade, auto aprimoramento, humildade, auto consciência, auto defesa, defesa dos outros, auto respeito, interesse pelo novo, altruísmo, criatividade “.

Numa lista que poderá surpreender alguns leitores, quais seriam os valores ruins e não saudáveis? E cita: “alcançar o poder através de manipulação ou violência, fazer sexo indisciminado, sentir-se bem o tempo todo, ser sempre o centro das atenções, não ficar sozinho, ser amado por todos, ser rico só pela riqueza, sacrificar pequenos animais aos deuses pagãos. Os valores ruins geralmente dependem de eventos externos, mesmo que venham a ser divertidos e prazerosos, que muitas vezes são alcançados por meios socialmente nocivos ou supersticiosos.

De bônus deixo a música do belga Stromae, Alors On Danse (Então, vamos dançar), que faz também refletir sobre o conteúdo do post…

Até ao próximo post!

Pílula de choque I
Pílula de choque II
Segue o blog no Instagram, YouTuBe, Facebook e Twitter. Espero por você lá!

Os espigueiros de Soajo, Portugal

A vila de Soajo, na região do Minho, não é só natureza. Por lá, também podemos admirar uma estrutura característica desta região, os espigueiros. Semelhante estrutura é encontrada também na região da Galiza (Espanha), e há relatos de sua presença também na Noruega e Suécia.

Espigueiros em Soajo próximos a uma escola primária

Os espigueiros são estruturas em pedra e madeira com a função de secar o milho. Possuem alguma elevação como forma de se proteger dos roedores. Costumam se localizar em zonas onde o terreno é mais elevado para permitir uma melhor secagem das espigas, principalmente no inverno, através das fendas laterais. 

Os espigueiros são além de tudo verdadeiras obras de arte popular com uma forte simbologia religiosa observada pela existência de uma cruz para proteção do elemento que constituirá o pão que alimentará a mesa de muitas famílias.

Segue o blog no Instagram (o_miau_do_leao), Twitter(@omiaudoleao) e Facebook.
Até ao próximo post!

Nhoque com abóbora e espinafre


Eu sou fã de nhoque, mas sempre o tenho feito na forma tradicional do acompanhamento com molhos. Então, quando vi essa sugestão do Recipe Tin Eats com abóbora e espinafre, e em que essas bolinhas após cozidas passam pela frigideira com manteiga, não resisti. O resultado foi um prato saboroso e alegre aos olhos.

Pan fried gnocchi with pumpkin & spinach (nome original da receita)
500g abóbora 
350g nhoque
45g manteiga 
1 colher sopa de azeite
80g espinafre
1 dente de alho esmigalhado 
½ colher de sopa de sálvia picada
Sal e pimenta a gosto
Queijo parmesão a gosto

  • Cortar a abóbora em cubos, colocar sal e pimenta.  Levar a 200°C por 35 min no forno, aproximadamente.
  • Cozinhar o nhoque.
  • Retirar uma chávena de água do cozimento. 
  • Passar os nhoques na frigideira com manteiga até dourarem.
  • Adicionar alho e sálvia. Adicionar a água reservada do cozimento.
  • Juntar na frigideira a abóbora, espinafre, colocando um pouco de água.  
  • Sal e pimenta a gosto.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XLII

Sentir-se útil
Houve uma fase que Clarice meditava sobre a sua inutilidade quando recebeu uma carta que citava a beleza das contribuições literárias da escritora na vida desta pessoa. Para Clarice, a palavra “beleza” soava como enfeite. Ela também não gostou da expressão “contribuições literárias”, porque ela andava numa fase que a palavra “literatura” eriçava o pelo. Clarice agradeceu a carta escrita por uma senhora, pois a fez se sentir útil.

Insônia infeliz e feliz
Duas horas da noite, olhos bem abertos, acende a luz da cabeceira, lúcida. Insônia. Clarice gostaria de ter encontrado alguém que sofresse de insônia para poder telefonar. Sai da cama, toma um café, sente solidão. As horas parecem não passar. Não queria tomar uma pílula para dormir. Temia o vício. Ninguém perdoaria o vício. Nenhum ruído, só o das ondas do mar. Um momento vazio e rico. Sente-se feliz por nada, por tudo.




“Guimarães Rosa então me disse uma coisa que jamais esquecerei, feliz me senti na hora: disse que me lia, “não para a literatura, mas para a vida”. Citou de cor frases e frases minhas e eu não reconheci nenhuma.
Jornal do Brasil, 1968.

Charlatões
Sinto em mim a charlatã me espreitando. Não é verdade, sua honestidade básica a enjoava.
Estudou Direito, enganava a si mesma e aos outros. Mais a ela que aos outros, no entanto foi sincera. Estudou porque tinha o desejo de reformar as penitenciárias do Brasil. 
O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Disseram-lhe que um crítico escreveu que ela e Guimarães Rosa eram dois embustes, ou seja, o mesmo que charlatões.
Outra coisa que lhe espreitava e a fazia sorrir: o mau gosto. Mau gosto em usar a palavra errada, no vestir, em matéria de escrever, que é certo tipo horrível de bom gosto.

Até ao próximo post!