Clarice Lispector XLII

Sentir-se útil
Houve uma fase que Clarice meditava sobre a sua inutilidade quando recebeu uma carta que citava a beleza das contribuições literárias da escritora na vida desta pessoa. Para Clarice, a palavra “beleza” soava como enfeite. Ela também não gostou da expressão “contribuições literárias”, porque ela andava numa fase que a palavra “literatura” eriçava o pelo. Clarice agradeceu a carta escrita por uma senhora, pois a fez se sentir útil.

Insônia infeliz e feliz
Duas horas da noite, olhos bem abertos, acende a luz da cabeceira, lúcida. Insônia. Clarice gostaria de ter encontrado alguém que sofresse de insônia para poder telefonar. Sai da cama, toma um café, sente solidão. As horas parecem não passar. Não queria tomar uma pílula para dormir. Temia o vício. Ninguém perdoaria o vício. Nenhum ruído, só o das ondas do mar. Um momento vazio e rico. Sente-se feliz por nada, por tudo.




“Guimarães Rosa então me disse uma coisa que jamais esquecerei, feliz me senti na hora: disse que me lia, “não para a literatura, mas para a vida”. Citou de cor frases e frases minhas e eu não reconheci nenhuma.
Jornal do Brasil, 1968.

Charlatões
Sinto em mim a charlatã me espreitando. Não é verdade, sua honestidade básica a enjoava.
Estudou Direito, enganava a si mesma e aos outros. Mais a ela que aos outros, no entanto foi sincera. Estudou porque tinha o desejo de reformar as penitenciárias do Brasil. 
O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Disseram-lhe que um crítico escreveu que ela e Guimarães Rosa eram dois embustes, ou seja, o mesmo que charlatões.
Outra coisa que lhe espreitava e a fazia sorrir: o mau gosto. Mau gosto em usar a palavra errada, no vestir, em matéria de escrever, que é certo tipo horrível de bom gosto.

Até ao próximo post!

11 comentários sobre “Clarice Lispector XLII

    • Comecei a ler Clarice Lispector há pouco tempo. Fiquei curiosa por conhecer suas impressões sobre Recife, a minha cidade de origem.
      Gosto do mistério, do oculto que está em suas mensagens, da honestidade e naturalidade em suas palavras.
      Estou a conhecendo agora, não sou especialista no assunto.

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  1. Hoje coincidentemente li dois posts diferentes com a mesma referência á Clarice. A novidade deste é Guimarães Rosa… Quem foi o charlatão que atribuiu à Clarice e Rosa, este adjetivo? Fiquei a pensar como a falta de espelho pode fazer falta a muita gente. Ou seria, excesso de espelho? Rsrrrrrrsrs

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    • Devia ser alguém da época que queria aparecer. Rsrs Uma estratégia utilizada pelos medíocres. Talvez, um escritor frustrado pelo não sucesso (Fausto Cunha).
      Falando à sério…. trouxe isso aqui para você:
      “A entrevista começou com bom humor. Rimos várias
      vezes. Uma das vezes foi quando ela perguntou o que
      eu achava do que o crítico Fausto Cunha escrevera.
      Escrevera – e eu não sabia – que Guimarães Rosa e
      eu não passávamos de dois embustes. Dei uma gargalhada até feliz. Respondi: não li isso, mas uma coisa
      é certa: embustes é que não somos. Podiam nos chamar de qualquer coisa, mas de embustes não. Ora
      essa, Fausto Cunha. Você, que conheci no casamento
      de Marly de Oliveira, é até simpático, mas que idéia.
      Veja se pensa um pouco mais no assunto. Acho que
      Guimarães Rosa também riria. (LISPECTOR, 1992a,
      p. 55-56).”

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  2. Curioso, selecionei na semana passada para os meus alunos de escrita em transe (curso que ministro para meia dúzia de doidos, rs) a crônica sobre a insônia e gerou bastante diálogo a respeito. Gostei do resultado. Gosto da maneira como Clarice alcança os leitores. E gosto quando a encontro aqui.

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