Clarice Lispector XLIII

Tenho tido o prazer de conhecer quem foi Clarice Lispector através de suas crônicas escritas para o Jornal do Brasil.
Desde então, tenho feito resumo dessas crônicas, na tentativa de fazer com que outras pessoas  também a conheçam.
Neste post não há resumo de uma crônica. Simplesmente, porque achei “conversas” uma crônica tão “deliciosa”, que mais vale apresentá-la sem cortes, e imaginar como foram essas conversas de Clarice com um compositor baiano de música popular, com Guimarães Rosa,  com Pedro Bloch, com Ivo Pitanguy e com um oficial de marinha.

Conversas

“Um dia acordei às quatro da madrugada. Minutos depois tocou o telefone. Era um compositor de música popular que faz as letras também.

Conversamos até as seis horas da manhã. Ele sabia tudo a meu respeito. Baiano é assim? E ouviu dizer coisas erradas também. Nem sequer corrigi. Ele estava numa festa e disse que a namorada dele – com quem meses depois se casou – sabendo a quem ele telefonava, só faltava puxar os cabelos de tanto ciúme. Na reunião tinha uma Ana e ele disse que ela era ferina comigo. Convidou-me para uma festa porque todos queriam nos conhecer. Não fui.

  Em compensação estive uma vez numa festa na casa de Pedro e Míriam Bloch. Foi poucos meses antes da morte de Guimarães Rosa. Guimarães Rosa e Pedro foram comigo para outra sala, na qual pouco depois entrou Ivo Pitanguy. Guimarães Rosa disse que, quando não estava se sentindo bem em matéria de depressão, relia trechos do que já havia escrito. Espantaram-se quando eu disse que detesto reler minhas coisas. Ivo observou que o engraçado é que parece que eu não quero ser escritora. De algum modo é verdade, e não sei explicar por quê. Mas até ser chamada de escritora me encabula. Nessa mesma festa Sérgio Bernardes disse que há anos tinha uma conversa para ter comigo. Mas não tivemos. Pedi uma Coca-Cola, em vez. Ele estava falando com o nosso grupo coisas que eu não entendia e não sei repetir. Então eu disse: adoro ouvir coisas que dão a medida de minha ignorância. E tomei mais um gole de Coca-Cola. Não, não estou fazendo propaganda de Coca-Cola, e nem fui paga para isso.

  Guimarães Rosa então me disse uma coisa que jamais esquecerei, tão feliz me senti na hora: disse que me lia, “não para a literatura, mas para a vida”. Citou de cor frases e frases minhas e eu não reconheci nenhuma.

  Outra pessoa que me telefonava de madrugada explicara que passava pela minha rua, via a luz acesa, e então me telefonava. No terceiro ou no quarto telefonema disse-me que eu não merecia mentiras: na verdade o fundo da casa dele dava para a frente da minha e ele me via todas as noites. Como se tratava de oficial de marinha, perguntei-lhe se tinha binóculo. Ficou em silêncio. Depois me confessou que me via de binóculo. Não gostei. Nem ele se sentiu bem de ter dito a verdade, tanto que me avisou que “perdera o jeito” e não me telefonaria mais. Aceitei. Fui então à cozinha esquentar um café. Depois sentei-me no meu canto de tomar café, e tomei-o com toda a solenidade: parecia-me que havia um almirante sentado à minha frente. Felizmente terminei esquecendo que alguém pode estar me observando de binóculo e continuo a viver com naturalidade. Como vocês veem isto não é coluna, é conversa apenas. Como vão vocês? Estão na carência ou na fartura?”

Até ao próximo post!

P.S. Podes também seguir o blog no Instagram, YouTuBe, Facebook e Twitter com conteúdo nem sempre igual.

7 comentários sobre “Clarice Lispector XLIII

  1. Bom dia Silvana..adoro amo Clarice ….sempre que posso leio crônicas dela…aqui acompanho tuas publicações adorando sempre…e sempre que posso vejo materiais,entrevistas a respeito de Clarice no YouTube!!
    Parabens pelo texto…crônica
    Abençoado fim de semana a vc w aos teus.abraço fraterno

    Curtir

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