Mulheres, Luís de Camões

Luís de Camões não parece ter gostado das mulheres de Goa. Sobre as portuguesas que encontrou por aqui escreveu ele, em carta a um amigo: “todas caem de maduras, que não há cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quiserem lançar pedaço”. Sobre as indianas escreveu pior: “além de serem de ralé (…) respondem-vos numa linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da maior quentura do mundo”. Linguagem meada de ervilhaca? Sabendo-se que a ervilhaca é uma trepadeira de confusos e enredados caules compreende-se melhor o violento veneno desta metáfora. O poeta terminou, afinal, cativado por uma escrava negra,“de rosto singular, olhos sossegados, pretos e cansados”. Uma “Pretidão de Amor”, Bárbara de seu nome, cuja beleza inspirou um dos mais extraordinários poemas escritos em língua portuguesa: “Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não”.
(pág 99, Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa, versão epub)

Para este post trago a música Believe da banda portuguesa The Black Mamba com imagens do Norte de Moçambique.

Até ao próximo post!

7 comentários sobre “Mulheres, Luís de Camões

      • His observation, seen through the framework of his belief system, borders on unkind. It is as though he looks but sees only his own bias. I wonder what those women thought of him.

        I realize it is my opinion but his words are self centered and dismissive. People do that. Say hateful things, sometimes encased in astute use of language, then count themselves clever. They wonder if people are smart enough to notice the insults. I did it too occasionally as a young person.

        Sometimes such hateful words are merely a reflection of the writers zeitgeist. So many laud Hemingway’s writing but the hateful things he writes about people he perceives as below him are breath taking. Not in a good way.

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  1. Camões muito ácido. Chego a me questionar o quão rude ele pode ter sido em seu cotidiano. Talvez a poesia tenha sido um lampejo de sensibilidade, algo que o redimia, que o reescrevia como ser humano. Se não for isso, triste Camões-não-poeta, um homem como qualquer outro.

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