Clarice Lispector LIII

Trago 4 trechos de 4 diferentres crônicas da escritora Clarice Lispector. A escritora escrevia sobre ela mesma. São pistas para entendê-la. Será que conseguimos compreendê-la?

Perdoando Deus

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.”

Morte de uma baleia

“Não, não fui vê-la: detesto a morte. Deus, o que nos prometeis em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos – cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio apocalipse. E a própria morte.”

Nossa truculência

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência.”

Uma experiência

“Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.”

Agradeço a leitura e até ao próximo post.

Lagartixa na Bélgica

Eu já escrevi um post sobre as casas na Bélgica flamenga (aqui). Não é o caso desta casa. O que chama atenção nesta casa é a escultura de uma grande lagartixa. Ainda não encontrei nenhuma real por aqui. Ao vê-la lembrei logo das lagartixas do Nordeste do Brasil. Saudades!

Ainda falando sobre a Bélgica, os efeitos da invasão russa à Ucrânia já se faz sentir aqui. Os preços dos combustíveis a subirem, o preço da energia e gás já tinham subido consideravelmente, e recentemente, a ausência de farinha de trigo, farinhas para o fabrico do pão e uma quantidade limitada de pão nos supermercados são os novos sinais de uma crise que atingirá a todos.

Agradeço sua leitura e até ao próximo post!

Formas de voltar para casa, o livro

Mais um livro em minha vida. Mais uma vez, ler o chileno Alejandro Zambra foi uma confirmação do seu talento como escritor e de sua sensibilidade em nos levar sobre os caminhos tortuosos das relações humanas.

Formas de Voltar Para Casa começa sua história na noite do terremoto em 3 de Março de 1985 no Chile sob a ditadura de Pinochet. São as memórias de um menino na época com 9 anos. Um menino que tinha medo, mas também  lhe agradava o que estava acontecendo com barracas sendo montadas nos jardins dos vizinhos.

Alejandro Zambra escreve com um humor sutil, daqueles que nos faz sorrir como a pureza de uma criança. Pinochet para esse menino era um personalidade da televisão que interrompia a programação nas melhores partes com enfadonhos pronunciamentos. E para esse menino comunista era alguém que lia o jornal e recebia em silêncio a zombaria. Esse menino cresce, torna-se um adolescente, e depois um adulto escritor, em que “ler é cobrir a cara e escrever é mostrá-la.”

A leitura de um livro é sempre um momento de viver outras vidas, de viajar, de conhecer aspectos de outras culturas e tanto mais. Com este livro fiquei a saber que o escritor Alejandro Zambra foi eleito pela revista britânica Granta como um dos 22 melhores jovens escritores hispano-americanos. Esta mesma revista que foi criada por estudantes de Cambridge também existe com o mesmo nome e com publicação  simultânea em Portugal e no Brasil. Penso que vale a pena uma visita ao site desta revista: http://granta.tintadachina.pt/

Agradeço sua leitura, e até ao próximo post!