Dentro do segredo, o livro

Estava curiosa por ler algum livro do português José Luís Peixoto, e a impressão foi positiva. Ele conseguiu transformar uma viagem à fechada Coreia do Norte, que é repleta de limitações para um visitante, em um livro que você deseja pacientemente percorrer e saber sua conclusão final.

A ideia inicial do escritor era estar num local onde as pessoas não tivessem a sua aparência. Para ele, é um país que estimula a imaginação por ser um país que esconde muita coisa. Através do livro conhecemos também alguns detalhes do sofrimento que foi a ocupação colonial japonesa. Sendo este o único aspecto que tanto os coreanos do Norte e do Sul estão de acordo.

Segundo o escritor, as palavras de Confúcio explicavam tudo sobre a Coreia do Norte: “Ouço e esqueço. Vejo e lembro. Faço e compreendo.” 

E ele explica mais: “A Coreia do Norte é uma ditadura severa, provavelmente a mais severa do mundo, mas não é comunista. A Coreia do Norte é o último reduto de alguma coisa, muito provavelmente também é o primeiro e único reduto dessa mesma coisa, mas não é estalinista.”

Se viajar é interpretar, então José Luís Peixoto dá sua honesta visão e opinião sobre o que viu e viveu, que pode ser diferente de outra pessoa, e isso é especialmente verdadeiro em se tratando da Coreia do Norte.

Até ao próximo post!

Existência

A existência, toda e qualquer, é uma mera alternância entre a vida e a morte, entre crianças e velhos. Uma sucessão de nascimentos e enterros, os enterros para lembrar da finitude, e os nascimentos para garantir que a natureza se refaz. Onde o tempo obedece não à linha reta da aspiração humana, mas ao círculo de uma sabedoria mais antiga. Um álbum em círculos povoando a linha de uma, de várias vidas entrecruzadas. Casamentos, colheitas, batizados, copos-de-leite, enterros, gaitas, crismas, bicicletas, saudades, veraneios, casamentos, colheitas, batizados, copos-de-leite, enterros… Detalhes corriqueiros. Tão pouco, tudo.

(A vida que ninguém vê, Eliane Brum, versão Epub, pág. 93)

Noiserv é um projeto musical do português David Santos. Ele é a banda de um homem só. A música Today is the same as yesterday, but yesterday is not today ajuda a refletir um pouco mais sobre o que trata a citação deste post.

Até ao próximo post!

Gumbo com camarões

Fui para a cozinha e transportei-me até o Sul dos Estados Unidos, mais precisamente estive na Luisiana. Uma viagem rápida, segura e saborosa. 

Preparei o prato marcante da culinária cajun Louisiana, Gumbo (ou gombo) numa versão com camarões e salsicha polonesa (polaca), que aprendi no programa de culinária da tv belga chamado Dagelijkse Kost do chef Jeroen. O prato é um guisado com vários tipos de carne ou mariscos, que costuma ser acompanhado com arroz branco. A especiaria cajun é referente aos descendentes dos acadianos expulsos do Canadá e que se fixaram na Luisiana com sua própria cultura seja na música popular ou na culinária.

Gumbo com camarões (4 pessoas)

250 g arroz
Um pouco de azeite 
3 salsichas polonesas (polacas)
800 g camarões cinzentos 
2 grandes pitadas de especiaria cajun
Um pouco de óleo de amendoim 
1 cebola
2 dentes de alho esmagados
2 pimentões vermelhos (raspar as cascas)
4 hastes de salsão (aipo)
60 g manteiga
80 g farinha 
800 ml caldo de legumes 
1 pitada de chili 
1 pitada de sal
½ limão verde ou amarelo 
Algumas folhas de salsa

Fazer o arroz.
Leve ao fogo uma panela com azeite. Corte as salsichas em rodelas e frite no óleo bem quente. Em seguida, retire a linguiça frita da panela.
Frite o camarão na mesma panela e tempere com o cajun.
Coloque uma panela com óleo de amendoim no fogo. Pique a cebola e refogue no azeite bem quente.
Retire o camarão da panela e deixe a panela de lado por um tempo. 
Descasque e esmague os dentes de alho. Adicione o alho à cebola cozida.
Corte os pimentões em cubos e corte o salsão em pedaços.  Deixe ferver os legumes com a cebola e o alho. Tempere ainda mais com as especiarias de cajun.
Derreta a manteiga na panela onde o camarão fritou e polvilhe com a farinha.  Misture tudo até engrossar, virar um creme.
Dissolva o creme com o caldo de galinha e mexa até obter um molho espesso. Tempere o molho com mais especiarias cajun e pimenta em pó.
Adicione a linguiça, camarões e legumes cozidos. Tempere com sal e o suco de limão.
Sirva uma porção de arroz em um prato com o gumbo. Termine o prato com algumas folhas de salsa e um quarto de limão.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XLVI

Duas crônicas de Clarice Lispector para o Jornal do Brasil sobre ser um número. Tão atual discussão quando a pandemia ainda está presente e suas vítimas carecem de respeito quando não são apenas um “número”. 

Você é um número 

“Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo.”

Clarice Lispector escreveu que ao nascer a pessoa é classificada com um número, e segue a identidade, o registo civil, a carteira de motorista, a chapa do carro, o contribuinte, o prédio que mora, o telefone, o apartamento, o crediário, a propriedade, a carteira de sócio de um clube, a cadeira de imortal na Academia Brasileira de Letras, etc. Tudo recebe um número.
Então, Clarice disse que ia ter aulas de matemática ou física, saber alguma coisa de cálculo integral.
“É inútil protestar, pois também o protesto será um número”. Ao morrer também recebe um número, e até mesmo na guerra o combatente recebe um número.
Cada um é um, e Deus não é número.
“Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?”

Perdão, explicação e mansidão

Devido a crônica acima (Você é um número), Clarice Lispector recebeu uma crítica em forma de carta. Sentiu que desagradou alguém. Ela própria se ofendeu e sabia que havia ofendido outros.
Esclareceu que ninguém é um número porque há o inefável. O amor, a amizade, a simpatia, a esperança, não são números. A vida e a morte são inefáveis, assim como consideração e criatividade. 
Explicou que queria tomar aulas de matemática porque tudo é tão insolúvel. Precisava de soluções.
A carta crítica diz que a escritora vive de palavras e de pensamentos. A matemática não é o essencial, então não devia se preocupar com o número que nada traz para a escritora.

Até ao próximo post!

Vida

“A natureza criou o esquecimento para que nos seja possível suportar o terrível tédio deste minúsculo aquário a que chamamos vida.”

(Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa, pág. 69 versão epub)

Para refletir, trago esse emocionante encontro entre Marisa Monte e Julieta Venegas, Ilusion.

Até ao próximo post!

Rainha de Katwe, o livro e o filme

Eu já tinha visto o filme no passado e gostei muito, então resolvi ler o livro de Tim Crothers que inspirou o filme da Disney. “A emocionante história da garota que conquistou o mundo do xadrez”.

Ela é real. Essa jovem que enfrentou tantas dificuldades chama-se Phiona Mutesi, nasceu no Uganda e cresceu em um dos piores lugares do planeta, a favela Katwe, em Kampala.

A favela estava quase sempre inundada, e por isso, seus habitantes dormiam em redes suspensas próximas aos telhados. Phiona conheceu o xadrez seguindo seu irmão até perto de uma lixeira. Robert Katende, o professor queria dar um motivo para continuarem a lutar, pois enquanto se estiver vivo não há motivo para não ter esperança. Essa era a principal lição de todos os dias. Os jovens iam para suas aulas e recebiam aquela que muitas vezes era a única refeição do dia. O projeto cresceu graças a ajuda de Andrew Popp Memorial Scholarship

Phiona teve seu primeiro contato com o xadrez aos 9 anos. Aprendeu as movimentações das peças com uma menina de 4 anos. O xadrez é planejar e controlar, fugir dos ataques contra você, pensar na próxima jogada, e essas decisões são diárias na favela. O xadrez é a única coisa que Phiona pode controlar. Ela é uma das poucas heroínas no mundo do esporte ugandense.

Particularmente, gostei mais do filme do que do livro. No entanto, o livro traz mais detalhes sobre a vida difícil no Uganda, bem como surgiu a fundação americana na vida daqueles jovens. Você pode seguir Phiona Mutesi e seu mestre Robert Katende no Instagram, por exemplo.

Segue o trailer do filme.

Até ao próximo post!

Risoto Vegano de Feijão Branco


Navegando pela Internet à procura de algo novo para mim na culinária e que não tivesse carne como um dos ingredientes, cheguei até a esta proposta do site/canal Plantte. Eles chamaram essa proposta de Risoto, mas como não usam vinho, nem manteiga, então eles permitem que chamem de arroz cremoso ou algo do tipo.
Para mim, o que importa é que me surpreendeu pela aparência final e sabor. Você pode acompanhar com brócolis, mas como eu não os tinha, então decorei com folhas de basílico.

  • 2 xícaras de feijão branco cozido
  • 1 colher (sopa) de sumo de limão
  • 2 colheres (sopa) de azeite de oliva, divididas
  • 1/2–1 xícara de caldo de legumes ou de água
  • sal e pimenta do reino a gosto
  • 1 cebola grande, picada
  • 1 colher (sopa) de estragão seco
  • 1–2 xícara(s) de arroz cozido
  • Adicione em um liquidificador o feijão branco cozido, o sumo de limão, 1 colher (sopa) de azeite de oliva, 1/2 xícara de caldo de legumes (ou de água) e sal e pimenta do reino a gosto. Bata até obter um creme liso. Se for necessário, adicione mais caldo de legumes. Prove e ajuste o sal e a pimenta conforme seu paladar. Reserve.
  • Em uma panela, refogue a cebola picada em 1 colher (sopa) de azeite de oliva. Quando estivem translúcidas, adicione o estragão e refogue por mais 1 ou 2 minutos.
  • Adicione o creme de feijão branco na panela junto com a cebola e o estragão e misture bem, em fogo médio. Quando estiver quente, adicione o arroz cozido. Caso seja necessário, adicione mais caldo de legumes ou água para obter a consistência desejada. Corrija o sal e a pimenta conforme seu paladar.
  • Sirva com o acompanhamento de sua preferência. Sobras podem ser armazenadas em um pote fechado na geladeira por até 4 dias.

Até ao próximo post!

Olhar Blasé

O seu olhar lembra-me uma canção de Adriana Calcanhoto. É um “olhar sem sonhos”, um “olhar blasé que não só já viu quase tudo, como acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver”.

Pág 89, versão Epub, Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa

Já que Agualusa lembrou de uma música de Adriana Calcanhoto, vamos ouvi-la, …

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XLV

Alguém se atreve a responder as perguntas de Clarice Lispector?
Vem uma sensação de ansiedade, uma sensação de que vivemos e nada sabemos. Prefiro sentir, seguir adiante e viver o tempo que não sei quanto me cabe.
São estranhas as perguntas sobre Deus vindas de uma pessoa com ascendência judaica. Seria Clarice uma espécie de Spinosa(za) na versão feminina?  Dá o que pensar.

Uma pergunta 
“Gastar a vida é usá-la ou não usá-la? Que é que estou exatamente querendo saber?”

Sou uma pergunta 
“Quem fez a primeira pergunta?
  Quem fez o mundo?
  Se foi Deus, quem fez Deus?
  Por que dois e dois são quatro?
  Quem disse a primeira palavra?
  Quem chorou pela primeira vez?
  Por que o Sol é quente?
  Por que a Lua é fria?
  Por que o pulmão respira?
  Por que se morre?
  Por que se ama?
  Por que se odeia?
  Quem fez a primeira cadeira?
Por que se lava roupa?
  Por que se tem seios?
  Por que se tem leite?
  Por que há o som?
  Por que há o silêncio?
  Por que há o tempo?
  Por que há o espaço?
  Por que há o infinito?
  Por que eu existo?
  Por que você existe?
  Por que há o esperma?
  Por que há o óvulo?
  Por que a pantera tem olhos?
  Por que há o erro?
  Por que se lê?
  Por que há a raiz quadrada?
  Por que há flores?
Por que há o elemento terra?
  Por que a gente quer dormir?
  Por que acendi o cigarro?
  Por que há o elemento fogo?
  Por que há o rio?
  Por que há gravidade?
  Por que e quem inventou os óculos?
  Por que há doenças?
  Por que há saúde?
  Por que faço perguntas?
  Por que não há respostas?
  Por que quem me lê está perplexo?
  Por que a língua sueca é tão macia?
Por que há o elemento terra?
  Por que a gente quer dormir?
  Por que acendi o cigarro?
  Por que há o elemento fogo?
  Por que há o rio?
  Por que há gravidade?
  Por que e quem inventou os óculos?
  Por que há doenças?
  Por que há saúde?
  Por que faço perguntas?
  Por que não há respostas?
  Por que quem me lê está perplexo?
  Por que a língua sueca é tão macia?
Por que fui a um coquetel na casa do Embaixador da Suécia?
  Por que a adida cultural sueca tem como primeiro nome Si?
  Por que estou viva?
  Por que quem me lê está vivo?
  Por que estou com sono?
  Por que se dão prêmios aos homens?
  Por que a mulher quer o homem?
  Por que o homem tem força de querer a mulher?
  Por que há o cálculo integral?
  Por que escrevo?
Por que Cristo morreu na cruz?
  Por que minto?
  Por que digo a verdade?
  Por que existe a galinha?
  Por que existem editoras?
  Por que há o dinheiro?
  Por que pintei um jarro de vidro de preto opaco?
  Por que há o ato sexual?
  Por que procuro as coisas e não encontro?
  Por que existe o anonimato?
  Por que existem os santos?
  Por que se reza?
  Por que se envelhece?
  Por que existe câncer?
Por que as pessoas se reúnem para jantar?
  Por que a língua italiana é tão amorosa?
  Por que a pessoa canta?
  Por que existe a raça negra?
  Por que é que eu não sou negra?
  Por que um homem mata outro?
  Por que neste mesmo instante está nascendo uma criança?
  Por que o judeu é a raça eleita?
  Por que Cristo era judeu?
  Por que meu segundo nome parece duro como um diamante?
Por que hoje é sábado?
  Por que tenho dois filhos?
  Por que eu poderia perguntar indefinidamente por quê?
  Por que o fígado tem gosto de fígado?
  Por que a minha empregada tem um namorado?
  Por que a Parapsicologia é ciência?
  Por que vou estudar Matemática?
  Por que há coisas moles e há coisas duras?
  Por que tenho fome?
  Por que no Nordeste há fome?
Por que uma palavra puxa a outra?
  Por que os políticos fazem discurso?
  Por que a máquina está ficando tão importante?
  Por que tenho de parar de fazer perguntas?
  Por que existe a cor verde-escura?
  Por quê?
  É porquê.
  Mas por que não me disseram antes?
  Por que adeus?
  Por que até o outro sábado?
  Por quê?”

Até ao próximo post!

A vida que ninguém vê, o livro

Este é o segundo livro escrito por Eliane Brum. A jornalista e escritora foi em busca do que não é notícia, e acabou por revelar vidas de personagens encantadores.

A sua sensibilidade alerta que o mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. E é isso que sentimos nas vinte e quatro histórias que ela capturou em cenas corriqueiras. Histórias de vidas reais que vale muito a pena conhecê-las.

Quem consegue olhar para a própria vida com generosidade torna-se capaz de alcançar a vida do outro. Olhar é um exercício cotidiano de resistência.

pág 113, versão Epub

Até ao próximo post!