Clarice Lispector XXXVIII

Sábado
Clarice dizia: “o sábado é a rosa da semana, e o sábado de manhã  é quintal. Domingo de manhã  também é a rosa da semana, embora  sábado seja muito mais. Nunca vou saber por quê.”

Sábado, com sua luz
Trabalhar?  O que interessa no Sábado é puro ar.

Domingo 
Que perfume, é domingo de manhã. Terraço varrido. Liga o rádio. Almoçar tarde. Domingo ninguém tem sede. Começa a beber vinho sem a ânsia da sede.

Os perfumes da terra
A terra é perfumada. E Clarice se perfumava para intensificar o que ela era. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. É bom perfumar-se em segredo.

Teu segredo 
Flores envenenadas na jarra. Roxas, azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXVII

Três resumos de crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”.

A escritora com integrantes da FAB na Itália

Tomando para mim o que era meu

Clarice relembra uma Primavera específica: comeu uma pera, desperdiçou metade. Beberam água na fonte, caminharam calados, insolentes. Ficou horas na borda da piscina. Não tinha piedade na Primavera e tomava para si o que era dela.


Doçura na terra

Descobrir a terra. Isso aconteceu numa viagem à Itália, a doçura da terra italiana. Início da Primavera, março.
A terra que está sob os pés. Estranho sentir-se a viver sobre uma coisa viva. E que retornaremos, avisados sobre isso antes de descobrir. Isso não era triste para ela. Era excitante.
A terra é um material precioso mesmo que haja em abundância. E tudo é feito de terra. Somos imortais.


O milagre das folhas

Nunca aconteceram milagres. Ela ouvia sobre milagres, e bastava para ter esperança.
Milagre, não. Coincidências. Vivia  delas. Mas havia um milagre, o das folhas. 
Andava pela rua e caía uma folha nos cabelos. Ela era a escolhida das folhas. Guardava-a na bolsa como um diamante. Até que um dia encontra-a morta e a deita fora. Não lhe era de interesse ter um fetiche morto como lembrança. Até que um dia, uma folha bateu em seus cílios. Ela achou Deus de uma grande delicadeza.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXVI

O mar de manhã 
O cheiro do mar deixava-a tonta. Gostava de ir ao mar às 6 horas da manhã, a hora da grande solidão do mar e quando as espumas são mais brancas. O mar era a fusão perfeita do masculino com o feminino, disse a escritora.


Jasmim
Jasmim é da noite e a matava lentamente. Um perfume mais forte que Clarice. Quando acordava estava iniciada.


Precisa-se
Precisa-se e oferece-se: homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria e precisa-se reparti-la. Paga-se bem, minuto por minuto, com a própria alegria.
A alegria é fugaz.
Folga: depois que passa o horror do domingo.
Pode ser uma pessoa triste, porque a alegria é tão grande, que se tem que repartir antes que se transforme em drama.
Em troca também oferece-se uma casa com todas as luzes acesas, direito de dispor da copa e da cozinha.


Amor a ele
“A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida.”


Eu sei o que é primavera
Clarice tinha humildade feita de gratidão. Sabia que estava reformulando a vida, porque estava viva. Viver é inevitável. A Primavera era uma perturbação de sentidos.


Primavera se abrindo

Clarice pressentia as mudanças de estação numa Primavera, ela ganhou uma planta de uma amiga. A planta prímula, misteriosa, continha o segredo dos cosmos. Ela era o segredo da natureza.


Até ao próximo post !

P.S.: Acabou de vez para mim a possibilidade de usar o antigo editor do WordPress. Sofri para fazer este post. Prefiro o antigo editor do WordPress. E não vejo aqui a possibilidade de se programar em html como era possível no anterior.

 

Clarice Lispector XXXV

clarContinuando o resumo de crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”. Encontrarás todos os resumos anteriores na categoria “Clarice Lispector” neste blog.


Trechos

  • O mais difícil é não fazer nada. Trabalhar é um atordoamento. Ficar sem fazer nada é a nudez final. Os que não aguentam, vão se divertir.

  • Clarice estava escrevendo de madrugada. Não queria estar só diante do mundo. De algum modo estava acompanhada. E era bom. Estava escrevendo com facilidade e fluência. Desconfiava disso.

  • Recordou de um tempo de refinamento em que pedia ao garçom da casa para servir lavandas com uma pétala de rosa no líquido para os convidados. Um ritual talvez. Uma recordação  de alguém ter lhe contado sobre uma novela com um homem que não  sabia para que serviam as lavandas em taças com água morna e gotas de limão.

  • Ler Clarice é conhecer um humor refinado (?). Ela escreveu sobre a visita de uma embaixatriz que gostava de dar ordens brutas, mas para a escritora nunca fez isso. Confidenciou-lhe que não gostava de certo tipo de pessoa. Clarice ficou surpreendida e ficou calada, pois ela era exatamente esse tipo de pessoa.  A embaixatriz não a conhecia realmente. Noutra oportunidade convidou Clarice para lhe visitar e esta não foi. Era preciso proteger quem lhe ofende e tem sido obrigada a perdoar muito.

  • Escreveu que nunca esquecerá um domingo que estava sozinha e sentiu uma forte dor, viu que a menina que havia dentro de si estava morrendo. Levou dias para cicatrizar, mas passou.

  • Gostava de ir à praia, deixar o sal na pele, pois dizia-lhe o pai que era bom para a saúde. Estava saudável,  mas ela sabia que doença  é algo imprevisível. A morte do pai a deixou perplexa, pois ele encontrava-se em plena maturidade. Clarice disse: “Mas de algum modo as pessoas são eternas. Quem me lê também.”

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXIV

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Resumos de três crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice Lispector.

 


Horas para gastar

Clarice Lispector surpreendia-se com o número de horas que se tem para gastar.  “A vida é mais longa do que a fazemos. Cada instante conta.” Já descontadas as horas de sono, de fins de semana,  férias,  feriados, tempo gasto em condução para o trabalho, ela chegou ao número de mil novecentos e trintas horas por ano.

Prazer no trabalho 

“Não gosto das pessoas que se gabam de trabalhar penosamente. Se o seu trabalho fosse assim tão penoso mais valia que fizessem outra coisa. A satisfação que o nosso trabalho nos proporciona é sinal de que soubemos escolhê-lo.”

Um instante fugaz 

Esse instante na vida da escritora foi um encontro sem palavras, apenas um sorriso entre ela e um hippie. Enquanto  ela caminhava por uma rua movimentada, em direção oposta a sua, percebeu um olhar, não pararam. Um encontro muito profundo, como disse. Riram da tolice do mundo. A escritora  nunca mais esqueceu-o, e passou a imaginá-lo com o nome John, um irmão, que tinha a capacidade de êxtase como ela. Deixou-a plena e útil.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXIII

Sete crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice Lispector.
Sabe mais sobre essa sequência de crônicas (aqui).

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O processo

– Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou aguentando viver.
     – Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor.
 – E depois?
     – Depois vem a Natureza.
– Você está chamando a morte de natureza?
     – Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
 – Será que todas as vidas foram isso?
     – Acho que sim.”


Desencontro

Eu te dou pão e preferes ouro. Eu te dou ouro mas tua fome legítima é de pão.”


Submissão ao processo

O processo de viver é feito de erros: de coragem e preguiça, desespero e esperança de vegetativa atenção, de sentimento constante.” Vem a revelação que não conduz a nada, mas o nada era a própria organização do viver. Paciência, que enerva, uma impaciente paciência.”


O presente

…Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão ? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.


Ao que leva o amor

– Eu te amo)
    – (É isso então o que sou?)
    – (Você é o amor que tenho por você)
    – (Sinto que vou me reconhecer… estou quase vendo… falta tão pouco)
    – (Eu te amo)
    – (Ah, agora sim. Estou me vendo. Esta sou eu, então. Que retrato de corpo inteiro.)


Homem se ajoelhar

É bom para o homem se ajoelhar diante da mulher. Fica com a cabeça perto dos joelhos e das mãos da mulher, a sua parte mais quente. “A mulher pode pegar aquela cabeça cansada que é fruto entre seu e dela“.


Dar-se enfim

Abrir as mãos e o coração, e não perder nada. O prazer de ser, o perigo do coração estar livre. Não ter avareza com o vazio pleno, gastá-lo !

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXII

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Seis crônicas escritas por Clarice Lispector para conhecer a mesma.

 

Viver
A sensação de ser. A sensação de ser o próprio representante da vida e da morte.

Mentir, pensar
O modo certo de dizer as coisas e pensar irritavam a escritora: “o pior de mentir é que cria falsa verdade, se a mentira fosse apenas a negação da verdade, o pior é a mentira criadora.”

O erro dos inteligentes
O erro dos inteligentes é que eles têm os argumentos que provam.

As negociatas
“Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, fazendo comigo mesma negociatas, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros.”

Por discrição
“Deus lhe deu inúmeros pequenos dons que ele não usou nem desenvolveu por receio de ser um homem completo e sem pudor.”

Diálogo do desconhecido
Quando se compreende pouco tem-se um campo virgem, livre de preconceitos. Tudo o que não se sabe é a parte maior e melhor, com ela se compreenderia tudo. Ou seja, tudo o que não se sabe é a verdade.
Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXI

claAs maravilhas de cada mundo

Clarice Lispector tinha uma amiga chamada Azaleia. Sua vida era difícil, mesmo assim gostava de viver.
Essa amiga dizia que cada pessoa tinha suas setes maravilhas. As da amiga eram: ter nascido, seus cinco sentidos, sua capacidade de amar, sua intuição, sua inteligência, a harmonia, a morte.


O livro desconhecido

Clarice sonhava com um livro especial, um livro que ela mesma escreveria. Ela fazia fantasias sobre este livro. Um livro que se pode tudo.


Do modo como não se quer a bondade

Ser humana também é ter violências e defeitos. Dedica-se, portanto, a não ser humana. Compreendendo e perdoando. “A consoladora oficial”. A procurada. “Minha grande altivez: preciso ser achada na rua.”


O que é o que é ?

E a escritora “brinca” fazendo perguntas…

“Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto?
Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente – como se chama essa mágoa e esse rancor?
Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota – como se chama o que se sentiu? 
Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXX

O ritual

Clarice Lispector achava que enfeitar-se era um ritual “grave”. Perguntava-se como um tecido podia ganhar vida.
Não usava brincos. Uma pequena parte “modestamente nua”.
Seu segredo ignorado por todos: mulher.


Conversa puxa conversa à toa

Clarice observava a cozinheira cantarolar. Uma melodia linda e harmoniosa, criação da própria. Foi motivo para refletir que o mundo será muito criativo e como será o mundo no futuro, daqui a milhares de anos. Sentiu vertigem ao pensar. Voltou a observar a moça estendendo roupa e concluiu que ela era um “eu” da escritora.


A vida é sobrenatural

Refletiu e concluiu que os pensamentos são tão sobrenaturais como uma história passada depois da morte. E que a vida é sobrenatural.


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Que viva hoje

… Sem nenhum acontecimento me provocando, sem nenhuma expectativa, de tarde, esta tarde, eu, aplicando-me na caligrafia como uma criança de escola, eu, também uma das freiras que costuram, em labor de abelha bordo a fio de ouro: Viva Hoje.”

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXIX

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Gostos arcaicos

Clarice pediu ao seu cabeleireiro Luís Carlos que lhe deixasse de cabelos curtos. Ao ver os cabelos cortados no chão, ficou assustada com a decisão. Clarice devaneou: “será que como Sansão perdi minha força? Não, não a força geral, mas talvez minha força de mulher.”


O suéter

Clarice ganhou o suéter mais bonito do mundo. Oferecido por uma leitora que era amiga de um amigo e a pedido deste. Era vermelho-luz. A cor era a alma do suéter. Uma carícia de amizade.


O vestido branco

Clarice desejava ter um vestido branco de gaze. Se tinha perigo, também tinha pureza. Também queria um vestido preto para lhe deixar mais clara. “É mesmo pureza? O que é primitivo é pureza. O que é espontâneo é pureza. O que é ruim é pureza? Não sei, sei que às vezes a raiz do que é ruim é uma pureza que não pôde ser.”

 

Até ao próximo post! 😉