Clarice Lispector LVI

Com esses dois trechos de duas crônicas de Clarice Lispector para o Jornal do Brasil termino a leitura de Aprendendo A Viver. A escritora durante essas crônicas mostrou um pouco de si própria para quem a queira conhecer. Ela que buscava sempre conhecer a natureza humana, e a sua própria natureza. Com este post encerro esse ‘canto’ do blog.

Exercício

  “É curiosa esta experiência de escrever mais leve e para muitos, eu que escrevia “minhas coisas” para poucos. Está sendo agradável a sensação. Aliás, tenho me convivido muito ultimamente e descobri com surpresa que sou suportável, às vezes até agradável de ser. Bem. Nem sempre.”

As três experiências 

“Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
  O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.”

Agradeço sua leitura e até ao próximo post.

Clarice Lispector LV

Aos pedacinhos vamos conhecendo e tentando entender a escritora Clarice Lispector. Ela que se definia como um mistérido para ela mesma. “Simpleslente asim, eu sou eu e você é você. É lindo é vasto.”

Mas há a vida
  “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”

Um caderno escolar
“Desabrocho em coragem, embora na vida diária continue tímida. Aliás sou tímida em determinados momentos, pois fora destes tenho apenas o recato que também faz parte de mim.”

“Como brasileira seria de estranhar se eu não sentisse e não participasse da vida do meu país. Não escrevo sobre problemas sociais mas eu os vivo intensamente e, já em criança, me abalava inteira com os problemas que via ao vivo.”

Doar a si próprio 
“No amor felizmente a riqueza está na doação mútua. O que não significa que não haja luta: é preciso se doar o direito de receber amor. Mas lutar é bom. Há dificuldades que só por serem dificuldades já esquentam o nosso sangue, que este felizmente pode ser doado.”

Loucura diferente 
“A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura.”

O “verdadeiro” romance
… “E eu, que já viajei bastante e não quero mais viajar, como é que nunca me ocorreu nem ocorrerá jamais escrever um livro de viagens? Com perdão da palavra, sou um mistério para mim. E, ainda fazendo parte deste mistério, por que leio tão pouco? O que era de se esperar é que eu tivesse verdadeira fome de leituras. Também para ver o que os outros fazem. No entanto só consigo ler coisas que, se possível, caminhem direto ao que querem dizer. Não, positivamente não me entendo.”

Até ao próximo post!

Clarice Lispector LIV

Trechos das crônicas escritas pela escritora brasileira Clarice Lispector para o Jornal do Brasil, que são como ‘dicas’ para a conhecer.

Bichos

Às vezes me arrepio toda ao entrar em contato físico com bichos ou com a simples visão deles. Pareço ter certo medo e horror daquele ser vivo que não é humano e que tem os nossos mesmos instintos, embora mais livres e mais indomáveis. Um animal jamais substitui uma coisa por outra, jamais sublima como nós somos forçados a fazer. E move-se, essa coisa viva! Move-se independente, por força mesmo dessa coisa sem nome que é a Vida.”

Ao correr da máquina 

Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida instintiva e intuitiva, enquanto que a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim. Não a apressarei, viverei até a última gota de fel.

Preguiça 

Num dia de chuva dá muita preguiça. Quase não posso escrever.. Num dia de chuva dá muita preguiça. Quase não posso escrever.”
“Tenho vergonha de ser escritora – não dá pé. Parece demais com coisa mental e não intuitiva.”

O cetro

Mas se nós, que somos os reis da natureza, havemos de ter medo, quem há de não tê-lo?

Agradeço a sua leitura e até ao próximo post!

Clarice Lispector LIII

Trago 4 trechos de 4 diferentres crônicas da escritora Clarice Lispector. A escritora escrevia sobre ela mesma. São pistas para entendê-la. Será que conseguimos compreendê-la?

Perdoando Deus

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.”

Morte de uma baleia

“Não, não fui vê-la: detesto a morte. Deus, o que nos prometeis em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos – cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio apocalipse. E a própria morte.”

Nossa truculência

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência.”

Uma experiência

“Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.”

Agradeço a leitura e até ao próximo post.

Clarice Lispector LII

Conhecer a escritora brasileira Clarice Lispector através de suas crônicas…

Um Reino Cheio de Mistério 

Nessa crônica Clarice escreve sobre o dia 21 de Setembro, o Dia da Árvore. Mas, ela considera que importante seria comemorar o dia da planta, ou melhor, da plantação. Plantar é criar na Natureza.
A escritora escreveu sobre quando plantou um pé de milho numa granja, e mais tarde, na Suíça, plantou um pé de tomates numa grande lata bonita. Clarice entrava no mistério da Natureza. Quando acordava ia examinar a planta. Esperar o amadurecer é como na criação artística em que o trabalho inconsciente é vagaroso. Foi com emoção  que viu os tomates num prato da mesa. Eram mais que os seus livros. Só que não teve coragem de comê-los seria um sacrilégio, uma desobediência à lei natural. Um tomateiro é arte pela arte.

Rosas Silvestres

Clarice tinha uma amiga que lhe enviava rosas silvestres. O perfume delas dava-lhe ânimo para respirar e viver. O mistério era que ao envelhecer perfumam ainda mais, e lembram as perfumadas noites de lua de Recife.
Quando mortas, feias, em vez de brancas ficam amarronzadas. Quando mortas têm a alma viva.
Era assim que Clarice queria morrer: perfumando de amor.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector LI

Três pequenos trechos de crônicas para conhecer a escritora brasileira Clarice Lispector.

Conversa descontraída: 1972

“A gradual escuridão me amedronta um pouco, bico que sou e que toma cautela. Escuridâo? Medo e espanto. O dia morrendo em noite é um grande mistério da Natureza.
O que é Natureza?” …

Divagando sobre tolices
“O óbvio é muito importante: garante certa veracidade.”
“Há o infinito, o infinito não é uma abstração matemática, mas algo que existe.”
Clarice Lispector chegou à conclusão de que Deus é infinito. Nosso inconsciente é infinito. …

Mistério: Céu
“O céu no campo é de um azul-marinho profundo e veem-se como cristais milhares de estrelas. O céu é coisa de louco ou de gênio.
Se nós não nos amarmos estamos perdidos. É melhor nós nos encontrarmos em Deus.”

Agradeço a sua leitura e até ao próximo post!

Clarice Lispector L

Em meu primeiro post do ano de 2022 continuo a trazer a escritora brasileira Clarice Lispector.
Numa série de 6 crônicas, ela conta-nos sobre algumas de suas viagens e planos.

Falando em viagens
Na viagem ao Texas, ela foi participar de oito conferências seguidas de debates. O cônsul brasileiro convidou-a para jantar num restaurante de terceira classe com toalhas quadriculadas de vermelho e preto. Nos Estados Unidos comer carne é caro, o peixe é barato. E o cônsul disse ao garçom para trazer um bife grosso bem sangrento e para ela peixe sendo o restaurante não especialista em peixe. O peixe estava péssimo. 
Ela aproveitou a viagem para comprar muitos brinquedos para o Natal dos filhos.
Foi no Texas que a escritora previu a morte do presidente John Kennedy. Ela disse aos seus familiares qual era a atmosfera omnipotente e sangrenta do Verão no Texas.
Foi lá que conheceu Gregory Rabassa, que traduziu seu livro “A maçã no escuro”. Ele disse-lhe que ela era mais difícil de traduzir do que Guimarães Rosa por causa de sua “sintaxe”. Clarice nunca entendeu porque achava que não tinha sintaxe nenhuma. Clarice esteve também em Argel, Lisboa, Paris e na Polónia.

Estive na Groenlândia…
Em viagem com a amiga Alzira Vargas do Amaral Peixoto à Holanda, que foi batizar o petroleiro Getúlio Vargas, também foram a Paris. E numa viagem de ambas aos Estados Unidos, durante um severo inverno, o avião fez um desvio à meia-noite indo parar na Groenlândia, mas apenas no aeroporto. O frio era imenso. Os groenlandeses eram altos, esguios, loiríssimos.

Já andei de camelo, a esfinge, a dança do ventre
Numa das viagens à Europa, o avião mudou de rota, e a escritora foi inesperadamente passar três dias no Egito. Ela achou as pirâmides menos perigosas de dia. De dia viu o deserto do Saara com suas areias cor de creme. Andou de camelo que achou um bicho estranho que remoía a comida sem parar. Viu a esfinge, mas não  a decifrou, nem a esfinge a ela. Cada uma com seu mistério, disse a escritora.Em Marrocos viu a dança do ventre. A dançarina mexia-se ao dom de “Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”.

Estive em Boloma, África
Aconteceu por desvio de rota e Clarice esteve numa região da Guiné-Bissay chamada Boloma. A escritora viu os portugueses tratarem os nativos a chicote. Estes falavam português de Portugal engraçaďíssimo.

As pontes de Londres
Quando a escritora pensava em Londres, revia as suas pontes emocionantes, algumas sólidas e ameaçadoras. Outras puro esqueleto.

Minha próxima e excitante viagem pelo mundo
Quando Clarice partiu para Londres planejou várias viagens. Ir a Paris para ver de novo a Mona Lisa, comprar perfumes e para reclamar com a Maison Carven por não mais fabricar o seu perfume preferido Vert et Blanc. Ir ao teatro. E a Rive Gauche. Voltaria para Londres e de lá seguiria para a amada Roma, depois Florença. Iria à Grécia. Voltar a ver as pirâmides e a Esfinge. A Esfinge que a intrigou. Ver quem devora quem. Tomar banhos de mar em Biarritz.
Voltar a Toledo e a Córdoba. Ir a Israel. Voltar a Lisboa e Cascais. Em Lisboa encontrar sua amiga e poeta, Natércia Freire.
Voltar a Londres, seus teatros e pubs. De lá dar um pulo na Libéria, em Monróvia. Voltar a Nova Iorque de onde retornará ao Brasil. Voltar ao Rio, mas antes ir à Belém do Pará, cidade que a escritora é grata. Já no Rio, ir a Cabo Frio. Ela não via meio de fazer essa viagem sem dinheiro.
Na verdade, esse plano era tudo uma brincadeira como o 1° de abril.

Agradeço a sua leitura e até ao proximo post!


Clarice Lispector XLIX

A alegria mansa
“Em pleno dia era noite, e essa coisa que não quero ainda tentar definir é uma luz tranquila dentro de mim, e a ela chamariam de alegria, alegria mansa.”

Estado de graça 
“Há dias que são tão áridos e desérticos que eu daria anos de minha vida em troca de uns minutos de graça.”

Encarnação involuntária 
Quando Clarice via uma pessoa que nunca tinha visto, ficava algum tempo a observá-la, encarnava nela para conhecê-la. Compreendia-lhe os motivos e perdoava.
Ela prestava atenção para não encarnar numa vida perigosa e atraente, e assim, não querer retornar para si mesma.

Viagem de trem
Sua viagem memorável foi aos 11 anos de idade, uma viagem de trem de Recife a Maceió com seu pai.

Viajando por mar
Não gostava das viagens por mar. Ela adorava viajar de avião. 

Agradeço a sua leitura e até ao próximo post!

Clarice Lispector XLVIII

Voltei a ler Clarice Lispector. Não é fácil sua leitura. Por vezes, penso que  nunca saberemos o que se passava em sua mente. Será que ela “brincava” conosco através de suas palavras escritas ? Será que se pode acrescentar o título de filósofa para Clarice ? Não sei responder.
Recomecei a leitura e esbarrei nestas duas crônicas. Não consegui resumir. Seria até um ‘pecado’ não as mostrar por inteiro. Segue…

Sem nosso sentido humano

“Como seriam as coisas e as pessoas antes que lhes tivéssemos dado o sentido de nossa esperança e visão humanas? Devia ser terrível. Chovia, as coisas se ensopavam sozinhas e secavam, e depois ardiam ao sol e se crestavam em poeira. Sem dar ao mundo o nosso sentido humano, como me assusto. Tenho medo da chuva, quando a separo da cidade e dos guarda-chuvas abertos, e dos campos se embebendo de água.”

Trecho

“Agora eu conheço esse grande susto de estar viva, tendo como único amparo exatamente o desamparo de estar viva. De estar viva – senti – terei que fazer o meu motivo e tema. Com delicada curiosidade, atenta à fome e à própria atenção, passei então a comer delicadamente viva os pedaços de pão.”

Agradeço sua leitura, e até ao próximo post!

Clarice Lispector XLVII

Dificuldade de expressão 
A dificuldade de expressar dá uma impressão de cegueira. Então, pede-se um café, que é um ato histérico-libertador.

Ir contra uma maré
Clarice lutou contra a tendência ao devaneio, mas o esforço tirou parte de sua força vital.

Aprender a viver
Ela gostaria de ter escrito um tratado sobre a culpa. A culpa? O erro, o pecado. O mundo passa a não ter refúgio. Se falar não será compreendida. Se entenderem também abaixarão a cabeça culpada. Gostaria de ser como os que entram na igreja, aceitam a penitência e saem mais livres. Melhor é aprender a viver com ela.

Aprendendo a viver
Nesta crônica, Clarice fala do filósofo americano Thoreau que tinha como mensagem: melhore o momento presente.
O filósofo desolava-se ao ver pessoas pouparem em “demasiado” para o futuro. E dizia: Não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você está infeliz agora, tome alguma providência agora. “Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.”
Thoreau também não tinha paciência com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. “É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.”
E o medo é a causa da ruína dos nossos momentos presentes, e também  as opiniões que temos de nós mesmos. É isso que revela seu destino. Então, menos dureza consigo próprio. Podemos confiar em nós muito mais do que confiamos.
Clarice termina a crônica para o Jornal do Brasil desejando feliz ano novo e diz que a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena.

Até ao próximo post!