O sono

Era noite fechada quando regressei ao meu quarto. Lembrei-me, enquanto me estendia na cama, de uma frase chave do primeiro romance de Chico Buarque, Estorvo: “Sinto que, ao cruzar a cancela, não estarei entrando em nenhum lugar, mas saindo de todos os outros.” Não é isso o sono?

(Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa pág.52, versão Epub)

E por falar em Chico Buarque trago Tão bom que foi o Natal (1967), que foi uma espécie de jingle para uma imobiliária de São Paulo, mas não deveria ter fim comercial, nem tocar na rádio. No entanto, o acordo não foi respeitado.

Até ao próximo post!

Vida

“A natureza criou o esquecimento para que nos seja possível suportar o terrível tédio deste minúsculo aquário a que chamamos vida.”

(Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa, pág. 69 versão epub)

Para refletir, trago esse emocionante encontro entre Marisa Monte e Julieta Venegas, Ilusion.

Até ao próximo post!

Olhar Blasé

O seu olhar lembra-me uma canção de Adriana Calcanhoto. É um “olhar sem sonhos”, um “olhar blasé que não só já viu quase tudo, como acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver”.

Pág 89, versão Epub, Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa

Já que Agualusa lembrou de uma música de Adriana Calcanhoto, vamos ouvi-la, …

Até ao próximo post!

Mulheres, Luís de Camões

Luís de Camões não parece ter gostado das mulheres de Goa. Sobre as portuguesas que encontrou por aqui escreveu ele, em carta a um amigo: “todas caem de maduras, que não há cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quiserem lançar pedaço”. Sobre as indianas escreveu pior: “além de serem de ralé (…) respondem-vos numa linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da maior quentura do mundo”. Linguagem meada de ervilhaca? Sabendo-se que a ervilhaca é uma trepadeira de confusos e enredados caules compreende-se melhor o violento veneno desta metáfora. O poeta terminou, afinal, cativado por uma escrava negra,“de rosto singular, olhos sossegados, pretos e cansados”. Uma “Pretidão de Amor”, Bárbara de seu nome, cuja beleza inspirou um dos mais extraordinários poemas escritos em língua portuguesa: “Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não”.
(pág 99, Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa, versão epub)

Para este post trago a música Believe da banda portuguesa The Black Mamba com imagens do Norte de Moçambique.

Até ao próximo post!

Identidade

Inicio um espaço novo no Blog, “citações“. Serão curtos e interessantes trechos que vou lendo, para refletir, discutir, um pouco de tudo. Sempre acompanhado de uma música. No menu “citações” recoloquei outros posts anteriores no mesmo sentido.

Quando conseguirem que Portugal se transforme sinceramente numa nação europeia o país deixará de existir. Repare: os portugueses construíram a sua identidade por oposição à Europa, ao Reino de Castela, e como estavam encurralados lançaram-se ao mar e vieram ter aqui, fundaram o Brasil, colonizaram África. Ou seja, escolheram não ser europeus.
(Personagem Plácido Domingo no livro Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa)

Trago a música A velha Europa, do B. Fachada, que é o nome artístico de Bernardo Cruz Fachada. Deixo a letra da canção abaixo do vídeo. Uma doce música com um toque de pureza. E espero o seu comentário sobre a citação e/ou a música.

Quando chegares à velha europa, amor,
Tira umas fotos com um bom compositor
Se ele te piscar o olho, nem hesites em dizer “doutor,
O meu marido queria ser como o senhor”
Quando chegares à velha europa em flor
Quero que arranjes um amante sedutor
Se ele te pedir divórcio, nem hesites em dizer “amor,
O meu marido não tem culpa, não, senhor”
Quando chegares à velha europa atrás
De alguma coisa que afinal não satisfaz
Tenta lembrar-te dos carinhos que eu te dei se fores capaz
E não me troques por beijinhos de rapaz
Quando chegares da velha europa, amor,
Eu já terei pintado o quarto de outra cor
Para entreter durante a tua longa ausência o meu pavor
De me perder sem o teu fio condutor
Perguntei ao vento se trazia um cabelinho teu
E até ao momento o raio do vento não me respondeu

Até ao próximo post!

Agualusa em Um Estranho em Goa

“Escrevo porque quero saber o fim”. Começo uma história e depois continuo a escrever porque tenho de saber como termina. Foi também por isso que fiz esta viagem. Vim à procura de um personagem. Quero saber como termina a história dele.
(versão Epub, pág. 9)

E eu gosto do que Florbela Espanca escreveu e o cantor português Luís Represas, no Trovante, tão bem interpretou… “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior”. Ouçam…

Até ao próximo post!

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Um estranho em Goa, o livro

Meu último “mergulho” na literatura foi uma viagem exótica com o escritor angolano José Eduardo Agualusa até Goa, através do seu livro Um estranho em Goa. Da leitura extraí alguns trechos que me tocaram, e que passo a apresentar em alguns posts, que serão acompanhados de uma música.

” Alma parece-me uma palavra muito grande. Já toda a gente abusou dela, poetas medíocres, filósofos, guerreiros, conspiradores, mas ainda assim continua enorme. “
(pág 8, versão Epub)

A palavra “alma” continua enorme e alegre na voz da cantora brasileira Zélia Duncan…

Até ao próximo post!

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A vida no céu, o livro

Quando faço viagens de avião levo sempre um livro como companhia, e isso ajuda-me a passar o tempo de tensão. Para a viagem à Hong Kong, a escolha foi uma sugestão da Carina, do blog Condownloadtador D’Estórias. Mais do que uma blogueira, a Carina(portuguesa) é uma amiga virtual especial que mora na Bélgica, como eu, mas que ainda não nos conhecemos.

O livro foi: “A vida no céu”, de José Eduardo Agualusa. Este escritor angolano tem ascendência portuguesa e brasileira. Fiquei logo curiosa no que resultaria essa mistura do mundo lusófono.

Essa multiculturalidade revelou a estória de um novo mundo, ou melhor, numa nova forma de viver depois que a Terra sofreu um dilúvio, e assim o livro é como uma fábula, e torna-se de fácil leitura para qualquer geração. Aliás, o autor informa logo à entrada: Romance para jovens e outros sonhadores.

A estória conta a vida entre zepelins com nomes de cidades conhecidas de todos nós, por exemplo, sobre a cidade flutuante de Paris. E a estória é conduzida pelo personagem Carlos, e ao longo dos capítulos vão surgindo novas personagens. E é justo sobre os personagens que fica a minha única crítica. Na minha opinião faltou mais desenvolvimento das personagens, mas nada que desqualifica esta obra.

O objetivo de encontrar um pedaço de terra que só os habitantes mais velhos ainda conseguem recordar é o que motiva as personagens. As desigualdades continuam no céu apesar da nova vida. O dilúvio não foi capaz de fazer surgir alguma harmonia.

Em cada abertura de capítulo o Agualusa fazia uma citação. E eram como “cerejas sobre o bolo”. E, como o autor disse “é um brevíssimo dicionário filosófico do mundo flutuante para uso de nefelibatas amadores”. E assim, conheci a definição para céu, viagem, noite, terra, magia, mar, voar, identidade, sonhar, nuvens, esperança, vida, epifania, luz e liberdade.

A definição que mais tocou-me foi viagem: “todo movimento de aproximação de uma pessoa a outra. Movimentos de fuga não são viagens”.

Já quase no fim do livro encontrei minha frase preferida: “O homem é o seu próprio paraíso e o seu próprio inferno”.

E o livro termina com a seguinte frase: “O melhor da viagem é o sonho”.

Até o seguimento da viagem à Hong Kong! 😉

O miau