Clarice Lispector XLI

Continuando a leitura das crônicas da escritora Clarice Lispector para o Jornal do Brasil…

Meu Natal
Quando os filhos de Clarice Lispector eram crianças  não comemoravam o Natal à meia noite, mas sim no almoço do dia seguinte. Eles cresceram, mas o hábito ficou.
A escritora ficava livre na noite de 24, mas logo criou um compromisso para essa noite. Ela passaria parte da noite com uma moça que se tornou amiga. Essa amiga tomava uma pílula que a fazia dormir 48 horas. O período de Natal era muito doloroso para esta amiga que perdeu os pais nesta época festiva. Iam a um restauro, e assim, Clarice livrava a amiga de um possível perigo de vida ao tomar tal pílula.
Cada uma pagava a sua parte no jantar e o presente era a presença de uma para a outra. Em um Natal, a amiga quebrou essa combinação e deu um missal à Clarice que se dizia não religiosa. Nele estava escrito: reze por mim.
Houve um incêndio grave no quarto da escritora, tudo se queimou e ela ficou muito ferida, mas o missal ficou intacto.

O nascimento do prazer (trecho)
“Deve-se deixar-se inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo.”

A perfeição 
Tudo existe com uma precisão absoluta.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão. 
A maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Assim é a verdade.

Não  entender
“Não entendo” é algo vasto, sem fronteiras.
“Entender” é sempre limitado.
O bom é ser inteligente e não entender. Ter loucura sem ser doida. É uma doçura de burrice.

Clarice Lispector VI

 

Monteiro_Lobato_Reinações_de_Narizinho
Publicado em 1931

Tortura e Glória

Clarice tinha uma colega de escola em Recife, que não estava enquadrada no padrão de beleza moderno, ao contrário de Clarice e suas amigas. Mas, esta colega possuía o que toda criança que gostasse de ler desejaria ter: “um pai dono de livraria.”

A colega era cruel e parecia odiar Clarice e suas amigas. Havia algum sadismo nas suas maldades para com Clarice. O gosto em ler era tanto que Clarice preferia suportar as humilhações e tentava com persistência que a tal garota emprestasse o livro da moda na época: As reinações de Narizinho.

A tal colega disse para Clarice passar em sua casa que o emprestaria. Clarice foi até a casa da garota a andar pulando, “que era o seu modo estranho de andar pelas ruas do Recife“.

Clarice batia à porta, e a garota a torturava com desculpas: “Volte amanhã. Você chegou tarde e emprestei a outra”. E, assim torturou por dias. Até que a mãe da garota fez o flagrante da maldade da filha. Desmascarou a própria filha com sua atitude vergonhosa e a fez emprestar o livro que nunca havia saído da casa, e por tempo indefinido.

Clarice retornou para casa em passos vagarosos, abraçando o livro contra o peito. Era o seu troféu, ou como Clarice disse: “Era uma mulher com o seu amante”.

 

Até ao próximo post! 😉