Clarice Lispector XXXV

clarContinuando o resumo de crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”. Encontrarás todos os resumos anteriores na categoria “Clarice Lispector” neste blog.


Trechos

  • O mais difícil é não fazer nada. Trabalhar é um atordoamento. Ficar sem fazer nada é a nudez final. Os que não aguentam, vão se divertir.

  • Clarice estava escrevendo de madrugada. Não queria estar só diante do mundo. De algum modo estava acompanhada. E era bom. Estava escrevendo com facilidade e fluência. Desconfiava disso.

  • Recordou de um tempo de refinamento em que pedia ao garçom da casa para servir lavandas com uma pétala de rosa no líquido para os convidados. Um ritual talvez. Uma recordação  de alguém ter lhe contado sobre uma novela com um homem que não  sabia para que serviam as lavandas em taças com água morna e gotas de limão.

  • Ler Clarice é conhecer um humor refinado (?). Ela escreveu sobre a visita de uma embaixatriz que gostava de dar ordens brutas, mas para a escritora nunca fez isso. Confidenciou-lhe que não gostava de certo tipo de pessoa. Clarice ficou surpreendida e ficou calada, pois ela era exatamente esse tipo de pessoa.  A embaixatriz não a conhecia realmente. Noutra oportunidade convidou Clarice para lhe visitar e esta não foi. Era preciso proteger quem lhe ofende e tem sido obrigada a perdoar muito.

  • Escreveu que nunca esquecerá um domingo que estava sozinha e sentiu uma forte dor, viu que a menina que havia dentro de si estava morrendo. Levou dias para cicatrizar, mas passou.

  • Gostava de ir à praia, deixar o sal na pele, pois dizia-lhe o pai que era bom para a saúde. Estava saudável,  mas ela sabia que doença  é algo imprevisível. A morte do pai a deixou perplexa, pois ele encontrava-se em plena maturidade. Clarice disse: “Mas de algum modo as pessoas são eternas. Quem me lê também.”

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXIV

clarice
Resumos de três crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice Lispector.

 


Horas para gastar

Clarice Lispector surpreendia-se com o número de horas que se tem para gastar.  “A vida é mais longa do que a fazemos. Cada instante conta.” Já descontadas as horas de sono, de fins de semana,  férias,  feriados, tempo gasto em condução para o trabalho, ela chegou ao número de mil novecentos e trintas horas por ano.

Prazer no trabalho 

“Não gosto das pessoas que se gabam de trabalhar penosamente. Se o seu trabalho fosse assim tão penoso mais valia que fizessem outra coisa. A satisfação que o nosso trabalho nos proporciona é sinal de que soubemos escolhê-lo.”

Um instante fugaz 

Esse instante na vida da escritora foi um encontro sem palavras, apenas um sorriso entre ela e um hippie. Enquanto  ela caminhava por uma rua movimentada, em direção oposta a sua, percebeu um olhar, não pararam. Um encontro muito profundo, como disse. Riram da tolice do mundo. A escritora  nunca mais esqueceu-o, e passou a imaginá-lo com o nome John, um irmão, que tinha a capacidade de êxtase como ela. Deixou-a plena e útil.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXIII

Sete crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice Lispector.
Sabe mais sobre essa sequência de crônicas (aqui).

clarice

O processo

– Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou aguentando viver.
     – Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor.
 – E depois?
     – Depois vem a Natureza.
– Você está chamando a morte de natureza?
     – Não. Estou chamando a natureza de Natureza.
 – Será que todas as vidas foram isso?
     – Acho que sim.”


Desencontro

Eu te dou pão e preferes ouro. Eu te dou ouro mas tua fome legítima é de pão.”


Submissão ao processo

O processo de viver é feito de erros: de coragem e preguiça, desespero e esperança de vegetativa atenção, de sentimento constante.” Vem a revelação que não conduz a nada, mas o nada era a própria organização do viver. Paciência, que enerva, uma impaciente paciência.”


O presente

…Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão ? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.


Ao que leva o amor

– Eu te amo)
    – (É isso então o que sou?)
    – (Você é o amor que tenho por você)
    – (Sinto que vou me reconhecer… estou quase vendo… falta tão pouco)
    – (Eu te amo)
    – (Ah, agora sim. Estou me vendo. Esta sou eu, então. Que retrato de corpo inteiro.)


Homem se ajoelhar

É bom para o homem se ajoelhar diante da mulher. Fica com a cabeça perto dos joelhos e das mãos da mulher, a sua parte mais quente. “A mulher pode pegar aquela cabeça cansada que é fruto entre seu e dela“.


Dar-se enfim

Abrir as mãos e o coração, e não perder nada. O prazer de ser, o perigo do coração estar livre. Não ter avareza com o vazio pleno, gastá-lo !

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXII

download

 

Seis crônicas escritas por Clarice Lispector para conhecer a mesma.

 

Viver
A sensação de ser. A sensação de ser o próprio representante da vida e da morte.

Mentir, pensar
O modo certo de dizer as coisas e pensar irritavam a escritora: “o pior de mentir é que cria falsa verdade, se a mentira fosse apenas a negação da verdade, o pior é a mentira criadora.”

O erro dos inteligentes
O erro dos inteligentes é que eles têm os argumentos que provam.

As negociatas
“Depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, fazendo comigo mesma negociatas, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros.”

Por discrição
“Deus lhe deu inúmeros pequenos dons que ele não usou nem desenvolveu por receio de ser um homem completo e sem pudor.”

Diálogo do desconhecido
Quando se compreende pouco tem-se um campo virgem, livre de preconceitos. Tudo o que não se sabe é a parte maior e melhor, com ela se compreenderia tudo. Ou seja, tudo o que não se sabe é a verdade.
Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXI

claAs maravilhas de cada mundo

Clarice Lispector tinha uma amiga chamada Azaleia. Sua vida era difícil, mesmo assim gostava de viver.
Essa amiga dizia que cada pessoa tinha suas setes maravilhas. As da amiga eram: ter nascido, seus cinco sentidos, sua capacidade de amar, sua intuição, sua inteligência, a harmonia, a morte.


O livro desconhecido

Clarice sonhava com um livro especial, um livro que ela mesma escreveria. Ela fazia fantasias sobre este livro. Um livro que se pode tudo.


Do modo como não se quer a bondade

Ser humana também é ter violências e defeitos. Dedica-se, portanto, a não ser humana. Compreendendo e perdoando. “A consoladora oficial”. A procurada. “Minha grande altivez: preciso ser achada na rua.”


O que é o que é ?

E a escritora “brinca” fazendo perguntas…

“Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto?
Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente – como se chama essa mágoa e esse rancor?
Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota – como se chama o que se sentiu? 
Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXX

O ritual

Clarice Lispector achava que enfeitar-se era um ritual “grave”. Perguntava-se como um tecido podia ganhar vida.
Não usava brincos. Uma pequena parte “modestamente nua”.
Seu segredo ignorado por todos: mulher.


Conversa puxa conversa à toa

Clarice observava a cozinheira cantarolar. Uma melodia linda e harmoniosa, criação da própria. Foi motivo para refletir que o mundo será muito criativo e como será o mundo no futuro, daqui a milhares de anos. Sentiu vertigem ao pensar. Voltou a observar a moça estendendo roupa e concluiu que ela era um “eu” da escritora.


A vida é sobrenatural

Refletiu e concluiu que os pensamentos são tão sobrenaturais como uma história passada depois da morte. E que a vida é sobrenatural.


clarice

Que viva hoje

… Sem nenhum acontecimento me provocando, sem nenhuma expectativa, de tarde, esta tarde, eu, aplicando-me na caligrafia como uma criança de escola, eu, também uma das freiras que costuram, em labor de abelha bordo a fio de ouro: Viva Hoje.”

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXIX

clarice


Gostos arcaicos

Clarice pediu ao seu cabeleireiro Luís Carlos que lhe deixasse de cabelos curtos. Ao ver os cabelos cortados no chão, ficou assustada com a decisão. Clarice devaneou: “será que como Sansão perdi minha força? Não, não a força geral, mas talvez minha força de mulher.”


O suéter

Clarice ganhou o suéter mais bonito do mundo. Oferecido por uma leitora que era amiga de um amigo e a pedido deste. Era vermelho-luz. A cor era a alma do suéter. Uma carícia de amizade.


O vestido branco

Clarice desejava ter um vestido branco de gaze. Se tinha perigo, também tinha pureza. Também queria um vestido preto para lhe deixar mais clara. “É mesmo pureza? O que é primitivo é pureza. O que é espontâneo é pureza. O que é ruim é pureza? Não sei, sei que às vezes a raiz do que é ruim é uma pureza que não pôde ser.”

 

Até ao próximo post! 😉

 

Clarice Lispector XXVIII

Facilidade repentina

O bem estar é algo estranho. Clarice relata sobre situações simples de bem estar. Bem estar com a comida, com o menino na rua, com a amiga, com os filhos, com o taxista, …

livro
A opinião de um analista sobre mim

Clarice Lispector tinha amigas que foram analisadas pelo Dr. Lourival Coimbra, psicanalista do grupo de Melanie Klein. Em suas visitas ao consultório falavam da amiga escritora, então Clarice resolveu enviar um dos seus livros com dedicatória através de uma das amigas, o livro de contos Laços de Família. Ela ficou curiosa por saber a impressão do psicanalista, e este disse: “Clarice dá tanto aos outros, e no entanto pede licença para existir.”
Clarice concordou.


O meu próprio mistério

“Sou tão misteriosa que não me entendo.”


Sim e não

Clarice era sim e não. Esperava a harmonia do contrário. Eu que também era Vós.


Em busca do outro

Clarice buscava o caminho. Não encontrou atalhos, mas sabia que o caminho era sentir os outros, e assim estaria salva, o seu porto de chegada.

Clarice Lispector XXVII

clar


Saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.”

 


Conversa telefônica

Uma amiga de Clarice transcreveu uma conversa telefônica que tiveram. A escritora leu a transcrição, achou-a estranha, mas se reconheceu.

 

Humildade e Técnica

Clarice não tinha problemas de expressão, mas de concepção.
Humildade é técnica que vem da plena consciência de ser realmente incapaz.
Orgulho não é pecado, é um erro grave, é coisa infantil como a gulodice. E todo erro grave atrasa a vida, faz perder tempo.

 

Se eu fosse eu

Clarice Lispector propõe a experiência: se você fosse você, como seria e o que faria ?
Ela achava que se fosse mesmo ela, nem os amigos a cumprimentariam na rua, porque até a fisionomia mudaria. Metade do que mudaria nem podia contar, poderia terminar presa. E daria tudo o que tinha, confiando o futuro ao futuro.

 

Até ao próximo post! 😉

 

Clarice Lispector XXVI

download

Liberdade I e II

Clarice (I) fala sobre a liberdade que se tem ao falar com uma amiga.
Clarice (II) fala sobre a difícil fala com um filho que lhe tentava cortar a liberdade.


Lição de filho

Um dos seus filhos, com 14 anos, a fez reconhecer a diferença entre emoção e nervosismo, e assim ela desistiu de tomar um calmante a uma certa situação.


O caso da caneta de ouro

Certa vez, Clarice Lispector recebeu de presente uma caneta de ouro. Até esse momento sempre tinha escrito com lápis-tinta ou à máquina. Refletia se isso mudaria o seu modo de escrever. Era um probleminha frente a um problema maior: ela tinha dois filhos e apenas uma caneta de ouro.


Comer, comer

Clarice Lispector descreve o quanto em sua casa se falava em comer e em comida. Gostavam de comer. Também falavam sobre a atualidade no mundo e no Brasil.
Clarice escreveu: somos um lar.

 

Até ao próximo post! 😉