Habilidades das Palavras II

Em Dezembro de 2015, eu escrevi aqui no blog sobre a habilidade que tem as palavras. Uma inspiração que surgiu depois de ler uma crónica de um dos meus autores prediletos José Saramago. A partir daí quando vou a outro país procuro pelas tais habilidades das palavras. Tudo começou na ilha da Sardenha (Itália). Vejam aqui. A que trago hoje vem da Holanda.
E vocês já se depararam com alguma outra habilidade das palavras? 🙂

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Tot ziens!

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100 dias para as Olimpíadas no Rio

Já falta pouco menos de 100 dias para as Olimpíadas no Rio, apesar de todas as dificuldades que o Brasil enfrenta. E, agora pergunto-me: … e será que houve algum período sem dificuldade na história do Brasil ? Bem, a festa vai acontecer ! Tanto que desejei viver esta festa no Brasil quando criança, mas era um sonho distante. Afinal, deixou de ser sonho, mas hoje estou tão longe e com uma vida que não me permitirá nem ver a tocha olímpica a passar por minha cidade natal. Vou continuar a ver por uma televisão, mas torcendo como sempre.

Li uma notícia hoje que diz “A 100 dias dos Jogos o mundo se pinta com as cores do Brasil”. 100 e o mundo! O 100 é muito especial em algumas partes do mundo. Aqui, na região flamenga da Bélgica, os estudantes, fantasiados, fazem uma grande festa quando faltam 100 dias para o início das férias, em especial, os que vão seguir para a universidade, ou não.

Mais o que me traz aqui nesse dia 100 é uma crónica do José Saramago, “Só para gente de paz”, do livro A Bagagem do Viajante, que fala dos Jogos Olímpicos. Uma crónica que pareceu ter sido fruto das circunstâncias de quem é cronista de jornal, e então ele opta por falar nas “banais convenções humanas” presentes na história dos Jogos. Daí, surge um texto que é o espelho da ironia com sabedoria do autor. Ler Saramago não é tarefa fácil. Antes, respiro fundo para concentrar-me apenas nas palavras, na escrita. Desprendo-me da pessoa e dos rótulos atribuídos. Assim, consigo apreciar os seus jogos de palavras que combinam em frases de ironia, em tom de provocatória brincadeira.

Finalizando o texto, ele dá uma proposta que diz ser um momento raro de ingenuidade pessoal, mas que não deixo de pensar: “… que nenhum país seja autorizado a participar se diretamente estiver, ou mesmo indiretamente alimentar uma guerra em qualquer parte do mundo.”

Não tenho medalhas para oferecer a você que me acompanha, mas deixo a imagem das minhas tulipas a 100 dias dos Jogos. Viva os Jogos Olímpicos, Rio, Brasil!

tulipasTot ziens! 🙂

 

De Gedichtendag 2016

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É o dia das poesias comemorado na região flamenga da Bélgica desde o ano 2000, e sempre na última quinta-feira do mês de Janeiro. A partir do ano 2013 passou a ser o primeiro dia da semana da poesia. Assim, em 2016, o dia da poesia foi no passado dia 28 de Janeiro.
Eventos e atividades são organizadas por toda a região para que todos possam ter contato com a poesia, bem como ter a oportunidade de elaborá-la e fazê-la ser divulgada. Participam escolas, bibliotecas, livrarias e até mesmo empresas são convidadas a espalhar o amor pela poesia.
E mais sobre a semana da poesia pode ser conhecida no web-site www.poezieweek.com E, informações sobre as edições anteriores em www.poeziecentrum.be
Com pouco tempo a viver na Flandres, ainda tenho muito a conhecer sobre a poesia flamenga e seus poetas. No entanto, o importante é participar ! E assim, no grupo Babilonië, também colaborei para viver o dia da poesia. Não foi fácil escolher uma poesia da literatura brasileira e portuguesa e tentar traduzi-la. Não apenas porque ainda sou uma aprendiz do nível básico do neerlandês, mas porque é difícil expressar o original do sentimento de uma poesia em outro idioma, e ainda tentar conservar a musicalidade da rima.
Tentei ousar, desafiei-me e criei uma singela poesia em neerlandês em homenagem aos meus filhos. Com o pensamento em português, o dicionário e a gramática ao lado, lá foram surgindo os versinhos.
Li todas as poesias com falhas de pronúncia, mas com muito gosto. No próximo ano espero fazer melhor. Também ouvi, no grupo Babilonië, e com muito gosto, poesias de outros colegas participantes. O resultado desta manhã de poesia mostro-vos a seguir.
Fiquei sensibilizada com a importância que os flamengos dão a poesia, uma verdadeira paixão com muito respeito, que resolvi embarcar neste mundo poético e com este post darei início a divulgação de poesias flamengas.

E viva a poesia !

Tot ziens! 😉

No meio do caminho In het midden van de weg
(Carlos Drummond de Andrade)

No meio do caminho tinha uma pedra In het midden van de weg was er een steen
Tinha uma pedra no meio do caminho Er was een steen in het midden van de weg
Tinha uma pedra Er was een steen
No meio do caminho tinha uma pedra. In het midden van de weg was er een steen.

Nunca me esquecerei desse acontecimento Ik zal nooit vergeten dit evenement
Na vida de minhas retinas tão fatigadas. In het leven van veel moe netvliezen.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho Ik zal nooit vergeten dit evenement
Tinha uma pedra Er was een steen
Tinha uma pedra no meio do caminho Er was een steen in het midden van de weg
No meio do caminho tinha uma pedra. In het midden van de weg was er een steen.

Arte de amar Kunst van houden van
(José Saramago)

Metidos nesta pele que nos refuta Op de huid dat ons tegenspreken
Dois somos, o mesmo que inimigos Wij zijn twee, gelijk aan vijanden
Grande coisa, afinal é o suor Grote ding, zo het is het zweet
(Assim já o diziam os antigos): (Zo al zeiden hun de ouden):
Sem ele, a vida não seria luta, Zonder hem, het leven zou niet een strijd zijn,
Nem o amor amor. En de liefde ook niet de liefde.

Mijn zoontjes (Meus filhinhos)

Ik ben een moeder Eu sou uma mãe
ik heb twee vogeltjes Eu tenho dois passarinhos
zij eten graag chocoladepoeder Eles gostam de comer chocolate em pó
zij zijn ook uiltjes. Eles são também corujinhas.

Zij openen zijn oogjes Eles abrem seus olhinhos
het is nog donker en koud É ainda escuro e frio
maar het lijkt als regenboogies Mais parece como arco-íris
zij kosten meer dan goud. Eles valem mais que ouro.

Zij zijn kampioenen Eles são campeões
zij schaken Jogam xadrez
met veel visioenen Com muitas visões
hun spel maken. O jogo deles fazem.

Zij hebben enkele bekers Eles têm algumas taças
zijn leus is melden Seu lema é participar
wij zullen proberen Nós vamos tentar
zij zijn mijn helden. Eles são meus hérois.

Kat en Hond
(Eric van Britsom)

Ik hou niet van honden, Eu não gosto de cães,
en ook niet van paarden. e também não de cavalos.

Honden en paarden doen teveel Cães e cavalos fazem muito
wat mensen zeggen. o que as pessoas dizem.

Poezen niet, Gatinhos não,
zij doen hun eigen ding. Eles fazem as coisas próprias deles.

Alleen, altijd onvoorspelbaar, Apenas, sempre imprevisível,
en af en toe: poeslief. e ocasionalmente: amável.

E agora, José ?

Este ano já está quase a terminar a sua viagem em nossas vidas, mas ainda é tempo para descobrir, ou redescobrir, algumas preciosidades desta vida.

Foi assim, que surgiu aos meus olhos a crónica “E agora, José ?”, escrita por outro José, o Saramago. E, muito adequada para os momentos de reflexão tão característicos desta época do ano.

José Saramago reverencia o nosso querido e saudoso poetinha, Carlos Drummond de Andrade, que com os seus versos de “E agora, José?” atravessa gerações, em que muitos já viveram este momento de auto piedade ao tocar o fundo do poço, e que só resta dizer: “E agora ?”

E Saramago diz: “Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas.

Para todos que neste meu cantinho curtiram os meus posts, para os que comentaram, para os que apenas passaram, para os que passaram a me seguir e que também passei a segui-los… Enfim, para todos nósUm bom 2016 e sem momentos de “E agora, José ?”. 🙂

Tot ziens ! 🙂

Para ler a crónica:
http://www.josesaramago.org/cronica-partir-de-um-poema-de-carlos-drummond-de-andrade/

Download-A-Bagagem-do-Viajante-Jose-Saramago-em-epub-mobi-e-pdf

Habilidades das palavras

Já dizia o José Saramago, que as palavras têm habilidades, como, por exemplo, a origem da palavra marquise, que vem de marquesa, mas que não seria de bom grado referir que a marquesa está suja, então tudo foi resolvido com o francês disfarçado. Aquele canto da casa ficou definido como marquise.

Aqui na Bélgica já me deparei com outra habilidade das palavras, que é quando traduzimos, por exemplo, um sobrenome (nome de família) do neerlandês para o português, como Drogenbroek, que traduzindo seria algo como “calça seca”, o sr(a). Calçaseca.

Mais em visita à Sardenha também deparei-me com uma habilidade das palavras, no caso do idioma italiano para o português. Vejam a foto abaixo.

E vocês já depararam com alguma outra habilidade das palavras? 🙂

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Tot ziens! 😉