Clarice Lispector XLVI

Duas crônicas de Clarice Lispector para o Jornal do Brasil sobre ser um número. Tão atual discussão quando a pandemia ainda está presente e suas vítimas carecem de respeito quando não são apenas um “número”. 

Você é um número 

“Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo.”

Clarice Lispector escreveu que ao nascer a pessoa é classificada com um número, e segue a identidade, o registo civil, a carteira de motorista, a chapa do carro, o contribuinte, o prédio que mora, o telefone, o apartamento, o crediário, a propriedade, a carteira de sócio de um clube, a cadeira de imortal na Academia Brasileira de Letras, etc. Tudo recebe um número.
Então, Clarice disse que ia ter aulas de matemática ou física, saber alguma coisa de cálculo integral.
“É inútil protestar, pois também o protesto será um número”. Ao morrer também recebe um número, e até mesmo na guerra o combatente recebe um número.
Cada um é um, e Deus não é número.
“Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?”

Perdão, explicação e mansidão

Devido a crônica acima (Você é um número), Clarice Lispector recebeu uma crítica em forma de carta. Sentiu que desagradou alguém. Ela própria se ofendeu e sabia que havia ofendido outros.
Esclareceu que ninguém é um número porque há o inefável. O amor, a amizade, a simpatia, a esperança, não são números. A vida e a morte são inefáveis, assim como consideração e criatividade. 
Explicou que queria tomar aulas de matemática porque tudo é tão insolúvel. Precisava de soluções.
A carta crítica diz que a escritora vive de palavras e de pensamentos. A matemática não é o essencial, então não devia se preocupar com o número que nada traz para a escritora.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XLV

Alguém se atreve a responder as perguntas de Clarice Lispector?
Vem uma sensação de ansiedade, uma sensação de que vivemos e nada sabemos. Prefiro sentir, seguir adiante e viver o tempo que não sei quanto me cabe.
São estranhas as perguntas sobre Deus vindas de uma pessoa com ascendência judaica. Seria Clarice uma espécie de Spinosa(za) na versão feminina?  Dá o que pensar.

Uma pergunta 
“Gastar a vida é usá-la ou não usá-la? Que é que estou exatamente querendo saber?”

Sou uma pergunta 
“Quem fez a primeira pergunta?
  Quem fez o mundo?
  Se foi Deus, quem fez Deus?
  Por que dois e dois são quatro?
  Quem disse a primeira palavra?
  Quem chorou pela primeira vez?
  Por que o Sol é quente?
  Por que a Lua é fria?
  Por que o pulmão respira?
  Por que se morre?
  Por que se ama?
  Por que se odeia?
  Quem fez a primeira cadeira?
Por que se lava roupa?
  Por que se tem seios?
  Por que se tem leite?
  Por que há o som?
  Por que há o silêncio?
  Por que há o tempo?
  Por que há o espaço?
  Por que há o infinito?
  Por que eu existo?
  Por que você existe?
  Por que há o esperma?
  Por que há o óvulo?
  Por que a pantera tem olhos?
  Por que há o erro?
  Por que se lê?
  Por que há a raiz quadrada?
  Por que há flores?
Por que há o elemento terra?
  Por que a gente quer dormir?
  Por que acendi o cigarro?
  Por que há o elemento fogo?
  Por que há o rio?
  Por que há gravidade?
  Por que e quem inventou os óculos?
  Por que há doenças?
  Por que há saúde?
  Por que faço perguntas?
  Por que não há respostas?
  Por que quem me lê está perplexo?
  Por que a língua sueca é tão macia?
Por que há o elemento terra?
  Por que a gente quer dormir?
  Por que acendi o cigarro?
  Por que há o elemento fogo?
  Por que há o rio?
  Por que há gravidade?
  Por que e quem inventou os óculos?
  Por que há doenças?
  Por que há saúde?
  Por que faço perguntas?
  Por que não há respostas?
  Por que quem me lê está perplexo?
  Por que a língua sueca é tão macia?
Por que fui a um coquetel na casa do Embaixador da Suécia?
  Por que a adida cultural sueca tem como primeiro nome Si?
  Por que estou viva?
  Por que quem me lê está vivo?
  Por que estou com sono?
  Por que se dão prêmios aos homens?
  Por que a mulher quer o homem?
  Por que o homem tem força de querer a mulher?
  Por que há o cálculo integral?
  Por que escrevo?
Por que Cristo morreu na cruz?
  Por que minto?
  Por que digo a verdade?
  Por que existe a galinha?
  Por que existem editoras?
  Por que há o dinheiro?
  Por que pintei um jarro de vidro de preto opaco?
  Por que há o ato sexual?
  Por que procuro as coisas e não encontro?
  Por que existe o anonimato?
  Por que existem os santos?
  Por que se reza?
  Por que se envelhece?
  Por que existe câncer?
Por que as pessoas se reúnem para jantar?
  Por que a língua italiana é tão amorosa?
  Por que a pessoa canta?
  Por que existe a raça negra?
  Por que é que eu não sou negra?
  Por que um homem mata outro?
  Por que neste mesmo instante está nascendo uma criança?
  Por que o judeu é a raça eleita?
  Por que Cristo era judeu?
  Por que meu segundo nome parece duro como um diamante?
Por que hoje é sábado?
  Por que tenho dois filhos?
  Por que eu poderia perguntar indefinidamente por quê?
  Por que o fígado tem gosto de fígado?
  Por que a minha empregada tem um namorado?
  Por que a Parapsicologia é ciência?
  Por que vou estudar Matemática?
  Por que há coisas moles e há coisas duras?
  Por que tenho fome?
  Por que no Nordeste há fome?
Por que uma palavra puxa a outra?
  Por que os políticos fazem discurso?
  Por que a máquina está ficando tão importante?
  Por que tenho de parar de fazer perguntas?
  Por que existe a cor verde-escura?
  Por quê?
  É porquê.
  Mas por que não me disseram antes?
  Por que adeus?
  Por que até o outro sábado?
  Por quê?”

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XLIV

Nada melhor do que voltar a escrever num dia especial no país que nasci (Brasil) e no país que vivo (Bélgica), o Dia das Mães.
A vida continua, e devemos enaltecer quem nos dá o real valor.
Eu amo ser mãe de dois maravilhosos rapazes amigos, eu que sou filha de uma mãe amiga e forte, e eu que venho de uma família de mulheres guerreiras da vida… Trago de volta ela que também foi uma mãe especial, a escritora Clarice Lispector.

Os prazeres de uma vida normal 

Clarice Lispector que sofria de insónia, conseguiu dormir dez horas. E se perguntou se seria isso vida normal.
Ela também experimentou a vida anormal para comer quando fez dieta para perder uns quilos. Comer bem dá até vergonha.

Que nome dar à esperança 

Onde a esperança corre, a coisa é atingida.
Precisa-se dar outro nome a certo tipo de esperança, pois esperança significa espera. E a esperança é já.

Apenas um cisco no olho

Clarice teve quatro vezes em menos de um ano o olho esquerdo agredido por objetos estranhos: ciscos não identificados, grão de areia e um cílio. Precisou ir ao oftalmologista de plantão. Na última ida perguntou: por que sempre o olho esquerdo? É simples coincidência? 
O médico respondeu que não. Este era o seu olho diretor, o que vê mais, e o mais sensível, prende o corpo estranho, não o expulsa.
Ela ficou pensativa. Será a pessoa que mais vê, a que mais sente e sofre?

Caderno de notas

Nota que estava num caderno de notas antigo e escrita em francês por alguém: “Todos aqueles que fizeram grandes coisas fizeram-nas para sair de uma dificuldade, de um beco sem saída.” Clarice considerou uma verdade.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XLIII

Tenho tido o prazer de conhecer quem foi Clarice Lispector através de suas crônicas escritas para o Jornal do Brasil.
Desde então, tenho feito resumo dessas crônicas, na tentativa de fazer com que outras pessoas  também a conheçam.
Neste post não há resumo de uma crônica. Simplesmente, porque achei “conversas” uma crônica tão “deliciosa”, que mais vale apresentá-la sem cortes, e imaginar como foram essas conversas de Clarice com um compositor baiano de música popular, com Guimarães Rosa,  com Pedro Bloch, com Ivo Pitanguy e com um oficial de marinha.

Conversas

“Um dia acordei às quatro da madrugada. Minutos depois tocou o telefone. Era um compositor de música popular que faz as letras também.

Conversamos até as seis horas da manhã. Ele sabia tudo a meu respeito. Baiano é assim? E ouviu dizer coisas erradas também. Nem sequer corrigi. Ele estava numa festa e disse que a namorada dele – com quem meses depois se casou – sabendo a quem ele telefonava, só faltava puxar os cabelos de tanto ciúme. Na reunião tinha uma Ana e ele disse que ela era ferina comigo. Convidou-me para uma festa porque todos queriam nos conhecer. Não fui.

  Em compensação estive uma vez numa festa na casa de Pedro e Míriam Bloch. Foi poucos meses antes da morte de Guimarães Rosa. Guimarães Rosa e Pedro foram comigo para outra sala, na qual pouco depois entrou Ivo Pitanguy. Guimarães Rosa disse que, quando não estava se sentindo bem em matéria de depressão, relia trechos do que já havia escrito. Espantaram-se quando eu disse que detesto reler minhas coisas. Ivo observou que o engraçado é que parece que eu não quero ser escritora. De algum modo é verdade, e não sei explicar por quê. Mas até ser chamada de escritora me encabula. Nessa mesma festa Sérgio Bernardes disse que há anos tinha uma conversa para ter comigo. Mas não tivemos. Pedi uma Coca-Cola, em vez. Ele estava falando com o nosso grupo coisas que eu não entendia e não sei repetir. Então eu disse: adoro ouvir coisas que dão a medida de minha ignorância. E tomei mais um gole de Coca-Cola. Não, não estou fazendo propaganda de Coca-Cola, e nem fui paga para isso.

  Guimarães Rosa então me disse uma coisa que jamais esquecerei, tão feliz me senti na hora: disse que me lia, “não para a literatura, mas para a vida”. Citou de cor frases e frases minhas e eu não reconheci nenhuma.

  Outra pessoa que me telefonava de madrugada explicara que passava pela minha rua, via a luz acesa, e então me telefonava. No terceiro ou no quarto telefonema disse-me que eu não merecia mentiras: na verdade o fundo da casa dele dava para a frente da minha e ele me via todas as noites. Como se tratava de oficial de marinha, perguntei-lhe se tinha binóculo. Ficou em silêncio. Depois me confessou que me via de binóculo. Não gostei. Nem ele se sentiu bem de ter dito a verdade, tanto que me avisou que “perdera o jeito” e não me telefonaria mais. Aceitei. Fui então à cozinha esquentar um café. Depois sentei-me no meu canto de tomar café, e tomei-o com toda a solenidade: parecia-me que havia um almirante sentado à minha frente. Felizmente terminei esquecendo que alguém pode estar me observando de binóculo e continuo a viver com naturalidade. Como vocês veem isto não é coluna, é conversa apenas. Como vão vocês? Estão na carência ou na fartura?”

Até ao próximo post!

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Clarice Lispector XLII

Sentir-se útil
Houve uma fase que Clarice meditava sobre a sua inutilidade quando recebeu uma carta que citava a beleza das contribuições literárias da escritora na vida desta pessoa. Para Clarice, a palavra “beleza” soava como enfeite. Ela também não gostou da expressão “contribuições literárias”, porque ela andava numa fase que a palavra “literatura” eriçava o pelo. Clarice agradeceu a carta escrita por uma senhora, pois a fez se sentir útil.

Insônia infeliz e feliz
Duas horas da noite, olhos bem abertos, acende a luz da cabeceira, lúcida. Insônia. Clarice gostaria de ter encontrado alguém que sofresse de insônia para poder telefonar. Sai da cama, toma um café, sente solidão. As horas parecem não passar. Não queria tomar uma pílula para dormir. Temia o vício. Ninguém perdoaria o vício. Nenhum ruído, só o das ondas do mar. Um momento vazio e rico. Sente-se feliz por nada, por tudo.




“Guimarães Rosa então me disse uma coisa que jamais esquecerei, feliz me senti na hora: disse que me lia, “não para a literatura, mas para a vida”. Citou de cor frases e frases minhas e eu não reconheci nenhuma.
Jornal do Brasil, 1968.

Charlatões
Sinto em mim a charlatã me espreitando. Não é verdade, sua honestidade básica a enjoava.
Estudou Direito, enganava a si mesma e aos outros. Mais a ela que aos outros, no entanto foi sincera. Estudou porque tinha o desejo de reformar as penitenciárias do Brasil. 
O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Disseram-lhe que um crítico escreveu que ela e Guimarães Rosa eram dois embustes, ou seja, o mesmo que charlatões.
Outra coisa que lhe espreitava e a fazia sorrir: o mau gosto. Mau gosto em usar a palavra errada, no vestir, em matéria de escrever, que é certo tipo horrível de bom gosto.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XLI

Continuando a leitura das crônicas da escritora Clarice Lispector para o Jornal do Brasil…

Meu Natal
Quando os filhos de Clarice Lispector eram crianças  não comemoravam o Natal à meia noite, mas sim no almoço do dia seguinte. Eles cresceram, mas o hábito ficou.
A escritora ficava livre na noite de 24, mas logo criou um compromisso para essa noite. Ela passaria parte da noite com uma moça que se tornou amiga. Essa amiga tomava uma pílula que a fazia dormir 48 horas. O período de Natal era muito doloroso para esta amiga que perdeu os pais nesta época festiva. Iam a um restauro, e assim, Clarice livrava a amiga de um possível perigo de vida ao tomar tal pílula.
Cada uma pagava a sua parte no jantar e o presente era a presença de uma para a outra. Em um Natal, a amiga quebrou essa combinação e deu um missal à Clarice que se dizia não religiosa. Nele estava escrito: reze por mim.
Houve um incêndio grave no quarto da escritora, tudo se queimou e ela ficou muito ferida, mas o missal ficou intacto.

O nascimento do prazer (trecho)
“Deve-se deixar-se inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo.”

A perfeição 
Tudo existe com uma precisão absoluta.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão. 
A maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Assim é a verdade.

Não  entender
“Não entendo” é algo vasto, sem fronteiras.
“Entender” é sempre limitado.
O bom é ser inteligente e não entender. Ter loucura sem ser doida. É uma doçura de burrice.

Clarice Lispector XL

Para conhecer a escritora Clarice Lispector seguem sínteses de 4 crônicas da escritora para o Jornal do Brasil.

A tempestade de 28 de Março, domingo

Clarice Lispector relembra um domingo, 28 de Março. Jogo Botafogo e Vasco, no Maracanã. Calor. Praia. Ela rezou por chuva.
Combinou com uma amiga de ir no Açude da Solidão, na Floresta da Tijuca*, mas previu que algo ruim estava para acontecer. Não quis ir à Floresta da Tijuca. Decidiram dar uma volta de carro e ir até ao Leblon visitar a igreja da Lagoa. O céu escureceu. A natureza respondeu a sua reza por chuva com fúria. O carro ficou cercado de água e lama. Com dificuldade chegou em casa. Preocupou-se por seus familiares como um filho que estava no jogo de futebol. Seu telefone não funcionava. Finalmente alguém da família telefonou e estavam todos bem. Voltou a rezar pelo filho, e de repente, sentiu uma grande calma. Disse à amiga que podia ir para a casa dela, pois ia dormir. Deixou mensagem ao filho e foi dormir confiando em Deus.


A prof. Teresa Monteiro, autora do livro O Rio de Clarice, indica 5 lugares na cidade do Rio de Janeiro que Clarice adorava ir:
Jardim Botânico,
Floresta da Tijuca,
Praia do Leme,
Largo do Boticário,
Parque Lage.

Só como processo 

Não apenas uma receita ou processo, a verdade que não tem bem nem mal: “Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver.”

Seguir a força maior

Este é o nosso livre-arbítrio:
Ser livre: Seguir o próprio determinismo.
Prisão: Seguir um destino que não fosse o próprio.

Uma revolta

Clarice Lispector: “Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.


Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXVIII

Sábado
Clarice dizia: “o sábado é a rosa da semana, e o sábado de manhã  é quintal. Domingo de manhã  também é a rosa da semana, embora  sábado seja muito mais. Nunca vou saber por quê.”

Sábado, com sua luz
Trabalhar?  O que interessa no Sábado é puro ar.

Domingo 
Que perfume, é domingo de manhã. Terraço varrido. Liga o rádio. Almoçar tarde. Domingo ninguém tem sede. Começa a beber vinho sem a ânsia da sede.

Os perfumes da terra
A terra é perfumada. E Clarice se perfumava para intensificar o que ela era. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. É bom perfumar-se em segredo.

Teu segredo 
Flores envenenadas na jarra. Roxas, azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXVII

Três resumos de crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”.

A escritora com integrantes da FAB na Itália

Tomando para mim o que era meu

Clarice relembra uma Primavera específica: comeu uma pera, desperdiçou metade. Beberam água na fonte, caminharam calados, insolentes. Ficou horas na borda da piscina. Não tinha piedade na Primavera e tomava para si o que era dela.


Doçura na terra

Descobrir a terra. Isso aconteceu numa viagem à Itália, a doçura da terra italiana. Início da Primavera, março.
A terra que está sob os pés. Estranho sentir-se a viver sobre uma coisa viva. E que retornaremos, avisados sobre isso antes de descobrir. Isso não era triste para ela. Era excitante.
A terra é um material precioso mesmo que haja em abundância. E tudo é feito de terra. Somos imortais.


O milagre das folhas

Nunca aconteceram milagres. Ela ouvia sobre milagres, e bastava para ter esperança.
Milagre, não. Coincidências. Vivia  delas. Mas havia um milagre, o das folhas. 
Andava pela rua e caía uma folha nos cabelos. Ela era a escolhida das folhas. Guardava-a na bolsa como um diamante. Até que um dia encontra-a morta e a deita fora. Não lhe era de interesse ter um fetiche morto como lembrança. Até que um dia, uma folha bateu em seus cílios. Ela achou Deus de uma grande delicadeza.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXV

clarContinuando o resumo de crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”. Encontrarás todos os resumos anteriores na categoria “Clarice Lispector” neste blog.


Trechos

  • O mais difícil é não fazer nada. Trabalhar é um atordoamento. Ficar sem fazer nada é a nudez final. Os que não aguentam, vão se divertir.

  • Clarice estava escrevendo de madrugada. Não queria estar só diante do mundo. De algum modo estava acompanhada. E era bom. Estava escrevendo com facilidade e fluência. Desconfiava disso.

  • Recordou de um tempo de refinamento em que pedia ao garçom da casa para servir lavandas com uma pétala de rosa no líquido para os convidados. Um ritual talvez. Uma recordação  de alguém ter lhe contado sobre uma novela com um homem que não  sabia para que serviam as lavandas em taças com água morna e gotas de limão.

  • Ler Clarice é conhecer um humor refinado (?). Ela escreveu sobre a visita de uma embaixatriz que gostava de dar ordens brutas, mas para a escritora nunca fez isso. Confidenciou-lhe que não gostava de certo tipo de pessoa. Clarice ficou surpreendida e ficou calada, pois ela era exatamente esse tipo de pessoa.  A embaixatriz não a conhecia realmente. Noutra oportunidade convidou Clarice para lhe visitar e esta não foi. Era preciso proteger quem lhe ofende e tem sido obrigada a perdoar muito.

  • Escreveu que nunca esquecerá um domingo que estava sozinha e sentiu uma forte dor, viu que a menina que havia dentro de si estava morrendo. Levou dias para cicatrizar, mas passou.

  • Gostava de ir à praia, deixar o sal na pele, pois dizia-lhe o pai que era bom para a saúde. Estava saudável,  mas ela sabia que doença  é algo imprevisível. A morte do pai a deixou perplexa, pois ele encontrava-se em plena maturidade. Clarice disse: “Mas de algum modo as pessoas são eternas. Quem me lê também.”

Até ao próximo post!