A elegância do ouriço, o livro

Hoje faz um mês que terminei a leitura do livro A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery. Um livro memorável com personagens raras e interessantes. Ao ler as suas últimas folhas eu chorava sem parar. Não era um choro de tristeza, mas de emoção. Nunca tinha acontecido comigo isso antes. Chorava por sentir o que se passava com os quatro personagens principais nas últimas linhas do livro. O livro cativou-me para sempre.
Vai aqui algumas das linhas que mexeu intensamente comigo.

Como já sinto saudade de você… Esta manhã, compreendo o que quer dizer morrer: na hora de desaparecer, são os outros que morrem para nós, pois estou aqui deitada no asfalto meio frio e pouco ligando para falecer; algo tão sem sentido hoje de manhã como ontem. Mas não tornarei a ver os que amo, e, se morrer é isso, é de fato a tragédia que dizem ser.

O ritual do chá

Tenho feito uma leitura curiosa sobre o livro de Muriel Barbery, A elegância do ouriço. Além de escritora, ela também é professora de filosofia na França. Esse “detalhe” talvez explique juntar uma zeladora culta, um personagem japonês que desperta curiosidade, um crítico de gastronomia, uma adolescente observadora, todos convivem num prédio de um bairro elegante em Paris. A filosofia e suas reflexões sobre o tempo, a vida e a morte, vem em forma de romance com um elegante humor.

“O ritual do chá, essa recondução exata dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa licença dada a cada um, a baixo custo, de se tornar um aristocrata do gosto, porque o chá é a bebida tanto dos ricos como dos pobres, o ritual do chá, portanto, tem essa virtude extraordinária de introduzir no absurdo de nossas vidas uma brecha de harmonia serena. Sim, o universo conspira para a vacuidade, as almas perdidas choram a beleza, a insignificância nos cerca.”
(A elegância do ouriço, Muriel Barbery, pág. 83 da versão Epub)

Eu trago neste post um trecho do romance. De sobra vem o vídeo do escoceses Belle and Sebastian.

Agradeço a leitura e até ao próximo post!

Clarice Lispector LVI

Com esses dois trechos de duas crônicas de Clarice Lispector para o Jornal do Brasil termino a leitura de Aprendendo A Viver. A escritora durante essas crônicas mostrou um pouco de si própria para quem a queira conhecer. Ela que buscava sempre conhecer a natureza humana, e a sua própria natureza. Com este post encerro esse ‘canto’ do blog.

Exercício

  “É curiosa esta experiência de escrever mais leve e para muitos, eu que escrevia “minhas coisas” para poucos. Está sendo agradável a sensação. Aliás, tenho me convivido muito ultimamente e descobri com surpresa que sou suportável, às vezes até agradável de ser. Bem. Nem sempre.”

As três experiências 

“Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
  O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.”

Agradeço sua leitura e até ao próximo post.

Clarice Lispector LV

Aos pedacinhos vamos conhecendo e tentando entender a escritora Clarice Lispector. Ela que se definia como um mistérido para ela mesma. “Simpleslente asim, eu sou eu e você é você. É lindo é vasto.”

Mas há a vida
  “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”

Um caderno escolar
“Desabrocho em coragem, embora na vida diária continue tímida. Aliás sou tímida em determinados momentos, pois fora destes tenho apenas o recato que também faz parte de mim.”

“Como brasileira seria de estranhar se eu não sentisse e não participasse da vida do meu país. Não escrevo sobre problemas sociais mas eu os vivo intensamente e, já em criança, me abalava inteira com os problemas que via ao vivo.”

Doar a si próprio 
“No amor felizmente a riqueza está na doação mútua. O que não significa que não haja luta: é preciso se doar o direito de receber amor. Mas lutar é bom. Há dificuldades que só por serem dificuldades já esquentam o nosso sangue, que este felizmente pode ser doado.”

Loucura diferente 
“A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura.”

O “verdadeiro” romance
… “E eu, que já viajei bastante e não quero mais viajar, como é que nunca me ocorreu nem ocorrerá jamais escrever um livro de viagens? Com perdão da palavra, sou um mistério para mim. E, ainda fazendo parte deste mistério, por que leio tão pouco? O que era de se esperar é que eu tivesse verdadeira fome de leituras. Também para ver o que os outros fazem. No entanto só consigo ler coisas que, se possível, caminhem direto ao que querem dizer. Não, positivamente não me entendo.”

Até ao próximo post!

Clarice Lispector LIV

Trechos das crônicas escritas pela escritora brasileira Clarice Lispector para o Jornal do Brasil, que são como ‘dicas’ para a conhecer.

Bichos

Às vezes me arrepio toda ao entrar em contato físico com bichos ou com a simples visão deles. Pareço ter certo medo e horror daquele ser vivo que não é humano e que tem os nossos mesmos instintos, embora mais livres e mais indomáveis. Um animal jamais substitui uma coisa por outra, jamais sublima como nós somos forçados a fazer. E move-se, essa coisa viva! Move-se independente, por força mesmo dessa coisa sem nome que é a Vida.”

Ao correr da máquina 

Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida instintiva e intuitiva, enquanto que a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim. Não a apressarei, viverei até a última gota de fel.

Preguiça 

Num dia de chuva dá muita preguiça. Quase não posso escrever.. Num dia de chuva dá muita preguiça. Quase não posso escrever.”
“Tenho vergonha de ser escritora – não dá pé. Parece demais com coisa mental e não intuitiva.”

O cetro

Mas se nós, que somos os reis da natureza, havemos de ter medo, quem há de não tê-lo?

Agradeço a sua leitura e até ao próximo post!

Clarice Lispector LIII

Trago 4 trechos de 4 diferentres crônicas da escritora Clarice Lispector. A escritora escrevia sobre ela mesma. São pistas para entendê-la. Será que conseguimos compreendê-la?

Perdoando Deus

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.”

Morte de uma baleia

“Não, não fui vê-la: detesto a morte. Deus, o que nos prometeis em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos – cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio apocalipse. E a própria morte.”

Nossa truculência

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência.”

Uma experiência

“Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.”

Agradeço a leitura e até ao próximo post.

Formas de voltar para casa, o livro

Mais um livro em minha vida. Mais uma vez, ler o chileno Alejandro Zambra foi uma confirmação do seu talento como escritor e de sua sensibilidade em nos levar sobre os caminhos tortuosos das relações humanas.

Formas de Voltar Para Casa começa sua história na noite do terremoto em 3 de Março de 1985 no Chile sob a ditadura de Pinochet. São as memórias de um menino na época com 9 anos. Um menino que tinha medo, mas também  lhe agradava o que estava acontecendo com barracas sendo montadas nos jardins dos vizinhos.

Alejandro Zambra escreve com um humor sutil, daqueles que nos faz sorrir como a pureza de uma criança. Pinochet para esse menino era um personalidade da televisão que interrompia a programação nas melhores partes com enfadonhos pronunciamentos. E para esse menino comunista era alguém que lia o jornal e recebia em silêncio a zombaria. Esse menino cresce, torna-se um adolescente, e depois um adulto escritor, em que “ler é cobrir a cara e escrever é mostrá-la.”

A leitura de um livro é sempre um momento de viver outras vidas, de viajar, de conhecer aspectos de outras culturas e tanto mais. Com este livro fiquei a saber que o escritor Alejandro Zambra foi eleito pela revista britânica Granta como um dos 22 melhores jovens escritores hispano-americanos. Esta mesma revista que foi criada por estudantes de Cambridge também existe com o mesmo nome e com publicação  simultânea em Portugal e no Brasil. Penso que vale a pena uma visita ao site desta revista: http://granta.tintadachina.pt/

Agradeço sua leitura, e até ao próximo post!

Clarice Lispector LII

Conhecer a escritora brasileira Clarice Lispector através de suas crônicas…

Um Reino Cheio de Mistério 

Nessa crônica Clarice escreve sobre o dia 21 de Setembro, o Dia da Árvore. Mas, ela considera que importante seria comemorar o dia da planta, ou melhor, da plantação. Plantar é criar na Natureza.
A escritora escreveu sobre quando plantou um pé de milho numa granja, e mais tarde, na Suíça, plantou um pé de tomates numa grande lata bonita. Clarice entrava no mistério da Natureza. Quando acordava ia examinar a planta. Esperar o amadurecer é como na criação artística em que o trabalho inconsciente é vagaroso. Foi com emoção  que viu os tomates num prato da mesa. Eram mais que os seus livros. Só que não teve coragem de comê-los seria um sacrilégio, uma desobediência à lei natural. Um tomateiro é arte pela arte.

Rosas Silvestres

Clarice tinha uma amiga que lhe enviava rosas silvestres. O perfume delas dava-lhe ânimo para respirar e viver. O mistério era que ao envelhecer perfumam ainda mais, e lembram as perfumadas noites de lua de Recife.
Quando mortas, feias, em vez de brancas ficam amarronzadas. Quando mortas têm a alma viva.
Era assim que Clarice queria morrer: perfumando de amor.

Até ao próximo post!

O Homem Que Escutava As Abelhas, o livro

Este é o primeiro livro que leio da escritora inglesa Christy Lefteri. O Apicultor de Alepo (POR) ou O Homem Que Escutava As Abelhas (BRA) narra a história imaginária de Nuri (apicultor) e sua esposa Afra (artista) durante a recente Guerra Civil na Síria. Uma busca que pela sobrevivência que os leva de Alepo para Grécia na tentativa de chegar à Inglaterra.

A escritora sendo filha de refugiados cipriotas durante a invasão turca a Chipre, e também voluntária na ajuda à refugiados que chegavam à Grécia consegue nos conduzir por uma história com beleza apesar de todo o sofrimento à volta.

Foi a experiência vivida por ela no centro de refugiados em Atenas que lhe abriu os olhos, e que a fez perceber que as pessoas queriam lhe contar a história de suas vidas e, principalmente, serem ouvidas. Elas vinham em 2007 em sua maioria da Síria e Afeganistão. Assim, surgiram os seus personagens e as abelhas, sendo estas símbolos de vulnerabilidade, vida e esperança.

Um livro que vale a pena ser lido!

Até ao próximo post!

Clarice Lispector L

Em meu primeiro post do ano de 2022 continuo a trazer a escritora brasileira Clarice Lispector.
Numa série de 6 crônicas, ela conta-nos sobre algumas de suas viagens e planos.

Falando em viagens
Na viagem ao Texas, ela foi participar de oito conferências seguidas de debates. O cônsul brasileiro convidou-a para jantar num restaurante de terceira classe com toalhas quadriculadas de vermelho e preto. Nos Estados Unidos comer carne é caro, o peixe é barato. E o cônsul disse ao garçom para trazer um bife grosso bem sangrento e para ela peixe sendo o restaurante não especialista em peixe. O peixe estava péssimo. 
Ela aproveitou a viagem para comprar muitos brinquedos para o Natal dos filhos.
Foi no Texas que a escritora previu a morte do presidente John Kennedy. Ela disse aos seus familiares qual era a atmosfera omnipotente e sangrenta do Verão no Texas.
Foi lá que conheceu Gregory Rabassa, que traduziu seu livro “A maçã no escuro”. Ele disse-lhe que ela era mais difícil de traduzir do que Guimarães Rosa por causa de sua “sintaxe”. Clarice nunca entendeu porque achava que não tinha sintaxe nenhuma. Clarice esteve também em Argel, Lisboa, Paris e na Polónia.

Estive na Groenlândia…
Em viagem com a amiga Alzira Vargas do Amaral Peixoto à Holanda, que foi batizar o petroleiro Getúlio Vargas, também foram a Paris. E numa viagem de ambas aos Estados Unidos, durante um severo inverno, o avião fez um desvio à meia-noite indo parar na Groenlândia, mas apenas no aeroporto. O frio era imenso. Os groenlandeses eram altos, esguios, loiríssimos.

Já andei de camelo, a esfinge, a dança do ventre
Numa das viagens à Europa, o avião mudou de rota, e a escritora foi inesperadamente passar três dias no Egito. Ela achou as pirâmides menos perigosas de dia. De dia viu o deserto do Saara com suas areias cor de creme. Andou de camelo que achou um bicho estranho que remoía a comida sem parar. Viu a esfinge, mas não  a decifrou, nem a esfinge a ela. Cada uma com seu mistério, disse a escritora.Em Marrocos viu a dança do ventre. A dançarina mexia-se ao dom de “Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”.

Estive em Boloma, África
Aconteceu por desvio de rota e Clarice esteve numa região da Guiné-Bissay chamada Boloma. A escritora viu os portugueses tratarem os nativos a chicote. Estes falavam português de Portugal engraçaďíssimo.

As pontes de Londres
Quando a escritora pensava em Londres, revia as suas pontes emocionantes, algumas sólidas e ameaçadoras. Outras puro esqueleto.

Minha próxima e excitante viagem pelo mundo
Quando Clarice partiu para Londres planejou várias viagens. Ir a Paris para ver de novo a Mona Lisa, comprar perfumes e para reclamar com a Maison Carven por não mais fabricar o seu perfume preferido Vert et Blanc. Ir ao teatro. E a Rive Gauche. Voltaria para Londres e de lá seguiria para a amada Roma, depois Florença. Iria à Grécia. Voltar a ver as pirâmides e a Esfinge. A Esfinge que a intrigou. Ver quem devora quem. Tomar banhos de mar em Biarritz.
Voltar a Toledo e a Córdoba. Ir a Israel. Voltar a Lisboa e Cascais. Em Lisboa encontrar sua amiga e poeta, Natércia Freire.
Voltar a Londres, seus teatros e pubs. De lá dar um pulo na Libéria, em Monróvia. Voltar a Nova Iorque de onde retornará ao Brasil. Voltar ao Rio, mas antes ir à Belém do Pará, cidade que a escritora é grata. Já no Rio, ir a Cabo Frio. Ela não via meio de fazer essa viagem sem dinheiro.
Na verdade, esse plano era tudo uma brincadeira como o 1° de abril.

Agradeço a sua leitura e até ao proximo post!