Agualusa em Um Estranho em Goa

“Escrevo porque quero saber o fim”. Começo uma história e depois continuo a escrever porque tenho de saber como termina. Foi também por isso que fiz esta viagem. Vim à procura de um personagem. Quero saber como termina a história dele.
(versão Epub, pág. 9)

E eu gosto do que Florbela Espanca escreveu e o cantor português Luís Represas, no Trovante, tão bem interpretou… “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior”. Ouçam…

Até ao próximo post!

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Um estranho em Goa, o livro

Meu último “mergulho” na literatura foi uma viagem exótica com o escritor angolano José Eduardo Agualusa até Goa, através do seu livro Um estranho em Goa. Da leitura extraí alguns trechos que me tocaram, e que passo a apresentar em alguns posts, que serão acompanhados de uma música.

” Alma parece-me uma palavra muito grande. Já toda a gente abusou dela, poetas medíocres, filósofos, guerreiros, conspiradores, mas ainda assim continua enorme. “
(pág 8, versão Epub)

A palavra “alma” continua enorme e alegre na voz da cantora brasileira Zélia Duncan…

Até ao próximo post!

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Clarice Lispector XLII

Sentir-se útil
Houve uma fase que Clarice meditava sobre a sua inutilidade quando recebeu uma carta que citava a beleza das contribuições literárias da escritora na vida desta pessoa. Para Clarice, a palavra “beleza” soava como enfeite. Ela também não gostou da expressão “contribuições literárias”, porque ela andava numa fase que a palavra “literatura” eriçava o pelo. Clarice agradeceu a carta escrita por uma senhora, pois a fez se sentir útil.

Insônia infeliz e feliz
Duas horas da noite, olhos bem abertos, acende a luz da cabeceira, lúcida. Insônia. Clarice gostaria de ter encontrado alguém que sofresse de insônia para poder telefonar. Sai da cama, toma um café, sente solidão. As horas parecem não passar. Não queria tomar uma pílula para dormir. Temia o vício. Ninguém perdoaria o vício. Nenhum ruído, só o das ondas do mar. Um momento vazio e rico. Sente-se feliz por nada, por tudo.




“Guimarães Rosa então me disse uma coisa que jamais esquecerei, feliz me senti na hora: disse que me lia, “não para a literatura, mas para a vida”. Citou de cor frases e frases minhas e eu não reconheci nenhuma.
Jornal do Brasil, 1968.

Charlatões
Sinto em mim a charlatã me espreitando. Não é verdade, sua honestidade básica a enjoava.
Estudou Direito, enganava a si mesma e aos outros. Mais a ela que aos outros, no entanto foi sincera. Estudou porque tinha o desejo de reformar as penitenciárias do Brasil. 
O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Disseram-lhe que um crítico escreveu que ela e Guimarães Rosa eram dois embustes, ou seja, o mesmo que charlatões.
Outra coisa que lhe espreitava e a fazia sorrir: o mau gosto. Mau gosto em usar a palavra errada, no vestir, em matéria de escrever, que é certo tipo horrível de bom gosto.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XLI

Continuando a leitura das crônicas da escritora Clarice Lispector para o Jornal do Brasil…

Meu Natal
Quando os filhos de Clarice Lispector eram crianças  não comemoravam o Natal à meia noite, mas sim no almoço do dia seguinte. Eles cresceram, mas o hábito ficou.
A escritora ficava livre na noite de 24, mas logo criou um compromisso para essa noite. Ela passaria parte da noite com uma moça que se tornou amiga. Essa amiga tomava uma pílula que a fazia dormir 48 horas. O período de Natal era muito doloroso para esta amiga que perdeu os pais nesta época festiva. Iam a um restauro, e assim, Clarice livrava a amiga de um possível perigo de vida ao tomar tal pílula.
Cada uma pagava a sua parte no jantar e o presente era a presença de uma para a outra. Em um Natal, a amiga quebrou essa combinação e deu um missal à Clarice que se dizia não religiosa. Nele estava escrito: reze por mim.
Houve um incêndio grave no quarto da escritora, tudo se queimou e ela ficou muito ferida, mas o missal ficou intacto.

O nascimento do prazer (trecho)
“Deve-se deixar-se inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo.”

A perfeição 
Tudo existe com uma precisão absoluta.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão. 
A maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Assim é a verdade.

Não  entender
“Não entendo” é algo vasto, sem fronteiras.
“Entender” é sempre limitado.
O bom é ser inteligente e não entender. Ter loucura sem ser doida. É uma doçura de burrice.

Clarice Lispector XL

Para conhecer a escritora Clarice Lispector seguem sínteses de 4 crônicas da escritora para o Jornal do Brasil.

A tempestade de 28 de Março, domingo

Clarice Lispector relembra um domingo, 28 de Março. Jogo Botafogo e Vasco, no Maracanã. Calor. Praia. Ela rezou por chuva.
Combinou com uma amiga de ir no Açude da Solidão, na Floresta da Tijuca*, mas previu que algo ruim estava para acontecer. Não quis ir à Floresta da Tijuca. Decidiram dar uma volta de carro e ir até ao Leblon visitar a igreja da Lagoa. O céu escureceu. A natureza respondeu a sua reza por chuva com fúria. O carro ficou cercado de água e lama. Com dificuldade chegou em casa. Preocupou-se por seus familiares como um filho que estava no jogo de futebol. Seu telefone não funcionava. Finalmente alguém da família telefonou e estavam todos bem. Voltou a rezar pelo filho, e de repente, sentiu uma grande calma. Disse à amiga que podia ir para a casa dela, pois ia dormir. Deixou mensagem ao filho e foi dormir confiando em Deus.


A prof. Teresa Monteiro, autora do livro O Rio de Clarice, indica 5 lugares na cidade do Rio de Janeiro que Clarice adorava ir:
Jardim Botânico,
Floresta da Tijuca,
Praia do Leme,
Largo do Boticário,
Parque Lage.

Só como processo 

Não apenas uma receita ou processo, a verdade que não tem bem nem mal: “Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver.”

Seguir a força maior

Este é o nosso livre-arbítrio:
Ser livre: Seguir o próprio determinismo.
Prisão: Seguir um destino que não fosse o próprio.

Uma revolta

Clarice Lispector: “Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.


Até ao próximo post!

O Santo e a Porca, o livro

Se você deseja uma leitura leve, rápida e com o complemento de boas gargalhadas, então indico esta peça do brasileiríssimo Ariano Suassuna, O Santo e a Porca (1957).

Algumas páginas iniciais do livro são tomadas pela história de vida do escritor nascido na Paraíba. Só então começa a peça de três atos que foi montada em 1958, no Rio de Janeiro, e contava com nomes que na minha infância eram verdadeiros “monstros” da cultura brasileira: Ziembinski, Cacilda Becker, Cleide Yaconis, entre outros. Eles vestiram a “pele” dos personagens Euricão, Eudoro, Caroba, Pinhão, Dodó, Margarida e Benona, e cujo tema central da peça é a avareza.

“Ai a crise, ai a carestia! Santo Antônio, Santo Antônio!”

Ariano Suassuna deixava claro que O Santo e a Porca é uma imitação nordestina da peça Aulularia (Comédia de Panela) do dramaturgo romano Tito Plauto, que por sua vez inspirou Shakespeare e Molière.

Diante de um ano que foi tão difícil para a humanidade, a leitura do humor regionalista de Suassuna é um doce, que no final mostra-nos uma lição de vida para encarar uma realidade consumista que nos cega para os verdadeiros tesouros da vida.

Até ao próximo post!

O caminho para a felicidade suprema, o livro

Deepak Chopra mostra-nos 7 chaves ou 7 passos para alcançar a felicidade em nossa vida diária, e que também poderiam ser chamadas de chaves para a iluminação.


Primeira chave: Estar consciente do seu corpo.
Segunda chave: Encontre a verdadeira autoestima.
Terceira chave: Desintoxique sua vida.
Quarta chave: Desista de ter razão.
Quinta chave: Foque o presente.
Sexta chave: Veja o mundo em você.
Sétima chave: Viver para a iluminação.


Ele explica-nos muito mais neste livro. Orienta sobre a importância da empatia que é a capacidade de sentir o que o outro está sentindo. A resiliência emocional tão importante na atualidade, que é a capacidade de recuperação depois que algo ruim acontece. Conhecer o seu eu e ter consciência. A única cura para a infelicidade é a iluminação. O amor pode solucionar problemas.

Sua mensagem é importante diante de um mundo em que algumas pessoas para vivenciar a felicidade dependem da infelicidade de outros. Concluída a leitura de mais um livro de auto-ajuda neste ano que mudou as nossas vidas.

Até ao próximo post!

A beleza da severidade

Durante a leitura de Cruze Esta Linha surge um nome familiar e respeitado, possivelmente mais conhecido e valorizado fora de seu país, Sebastião Salgado. O seu talento brinda-nos com uma imagem que fala por si. E é sobre ela, a reflexão do escritor Salman Rushdie:

Há uma foto de Sebastião Salgado que mostra o muro entre os Estados Unidos e o México serpenteando pela crista dos montes, sumindo na distância, até onde o olho pode enxergar, parte Grande Muralha da China, parte Gulag. Há uma espécie de beleza brutal ali, a beleza da severidade. Em intervalos há torres de vigia no muro, e nelas, chamadas de “torres do céu”, há guardas armados. Na foto, vemos a minúscula silhueta de um homem correndo, um imigrante ilegal, perseguido por outros homens em carros. O estranho na foto é que, embora o homem correndo esteja claramente do lado americano, ele está correndo para o muro, e não se afastando dele. Ele foi visto, e tem mais medo dos homens que o perseguem em carros do que da vida pobre que pensava ter deixado para trás. Estava tentando voltar, tentando desfazer seu lance de liberdade. Então a liberdade agora tem de ser protegida, contra aqueles que são pobres demais para merecer seus benefícios, pelos edifícios e procedimentos do totalitarismo.” – Salman Rushdie


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foto retirada do Google

Até ao próximo post !

 

O Último Voo do Flamingo, o livro

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Esse é o terceiro livro de Mia Couto (António Emílio Leite Couto) que leio. Tem sido agradável enveredar pela África que fala português através da escrita desse escritor moçambicano, que usa a palavra “contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos”, um papel que ele diz que também cabe aos escritores.

 

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O Último Vôo do Flamingo
foi uma leitura carregada de fatos estranhos do início ao fim do livro. Começando com a cena de um sexo masculino avultado e avulso encontrado numa estrada, consequência de uma das várias explosões de capacetes azuis da ONU, que Mia Couto desenvolve uma estória que se passa na fictícia Tizangara. Cada capítulo é aberto com um dito ou provérbio africano.

As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão.” (provérbio africano)

Os flamingos, cuja voz orienta os pescadores, são os anunciadores da esperança, que foi raptada pela ganância dos poderosos, e que buscam manter a ordem que lhes mantém patrões. A ordem que é uma doença em Tizangara, mas que parece se encaixar bem na história de Moçambique, ex-colônia portuguesa. 

Foi uma pena de flamingo encontrada pelo escritor enquanto caminhava numa praia de Moçambique que inspirou Mia Couto por 2 anos na construção dessa obra.

O livro acabou por ter uma adaptação para o cinema em 2010.

Até ao próximo post!