Mulheres, Luís de Camões

Luís de Camões não parece ter gostado das mulheres de Goa. Sobre as portuguesas que encontrou por aqui escreveu ele, em carta a um amigo: “todas caem de maduras, que não há cabo que lhe tenha os pontos, se lhe quiserem lançar pedaço”. Sobre as indianas escreveu pior: “além de serem de ralé (…) respondem-vos numa linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da maior quentura do mundo”. Linguagem meada de ervilhaca? Sabendo-se que a ervilhaca é uma trepadeira de confusos e enredados caules compreende-se melhor o violento veneno desta metáfora. O poeta terminou, afinal, cativado por uma escrava negra,“de rosto singular, olhos sossegados, pretos e cansados”. Uma “Pretidão de Amor”, Bárbara de seu nome, cuja beleza inspirou um dos mais extraordinários poemas escritos em língua portuguesa: “Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não”.
(pág 99, Um Estranho em Goa, José Eduardo Agualusa, versão epub)

Para este post trago a música Believe da banda portuguesa The Black Mamba com imagens do Norte de Moçambique.

Até ao próximo post!

O Último Voo do Flamingo, o livro

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Esse é o terceiro livro de Mia Couto (António Emílio Leite Couto) que leio. Tem sido agradável enveredar pela África que fala português através da escrita desse escritor moçambicano, que usa a palavra “contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos”, um papel que ele diz que também cabe aos escritores.

 

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O Último Vôo do Flamingo
foi uma leitura carregada de fatos estranhos do início ao fim do livro. Começando com a cena de um sexo masculino avultado e avulso encontrado numa estrada, consequência de uma das várias explosões de capacetes azuis da ONU, que Mia Couto desenvolve uma estória que se passa na fictícia Tizangara. Cada capítulo é aberto com um dito ou provérbio africano.

As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão.” (provérbio africano)

Os flamingos, cuja voz orienta os pescadores, são os anunciadores da esperança, que foi raptada pela ganância dos poderosos, e que buscam manter a ordem que lhes mantém patrões. A ordem que é uma doença em Tizangara, mas que parece se encaixar bem na história de Moçambique, ex-colônia portuguesa. 

Foi uma pena de flamingo encontrada pelo escritor enquanto caminhava numa praia de Moçambique que inspirou Mia Couto por 2 anos na construção dessa obra.

O livro acabou por ter uma adaptação para o cinema em 2010.

Até ao próximo post!

Vinte e Zinco, o livro

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Continuando a seguir as pegadas do Mia Couto, e tentando esquecer que já devia ter seguido há muito tempo, mas como dizem: melhor tarde do que nunca.

Desta vez, o romance Vinte e Zinco, que traz a recordação tão significativa do número 25 para aquele que se sente português. 25 é sinônimo de liberdade! 

Os capítulos têm como título as datas que antecedem e precedem a data da Revolução dos Cravos, em território africano, em Moçambique.

Nele conhecemos a atuação da polícia – o PIDE -, a presença feminina (portuguesa e moçambicana), a relação mãe-filho, que ainda é muito forte na educação portuguesa (minha opinião por observações), pequenas rebeldias contra o sistema, a presença da igreja católica, um cego que tudo vê, fantasmas do colonialismo,…

Um livro cuja leitura decorre com facilidade, mas que se sente a presença de metáforas que cairiam bem a uma pesquisa mais aprofundada sobre as suas origens e inspirações. No fim do livro, o autor tem o cuidado de definir algumas palavras da cultura africana. Esta cultura que para nós ainda é um tanto misteriosa.

Seguirei a ler Mia Couto, com certeza.

Seguem alguns trechos:
“A vida é infinita. Mas nada é tão enorme quanto a morte.”

“Não me venha com essas ideias de política. A política é desses incêndios que se acendem na casa do outro e quem arde é a nossa casa.”

“Quem não tem viagem é escolhido pela loucura.”

“Já não carecemos de igreja: o mundo inteiro se converteu numa imensa igreja. De joelhos,arrebanhados até ao sonho, aceitamos a qualquer preço isso a que chamam de redenção.”

“A guerra é vaidosa: se ostenta mesmo nos lugares onde se diz ser a exclusiva moradia da paz.”

“Tudo é terminável, até o futuro.”

 

Até ao próximo post! 😉

Tradutor de chuvas, o livro

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Finalmente, “encontrei-me” com o escritor moçambicano Mia Couto. Já muito que eu desejava ler um de seus livros, e aconteceu com um livro de poesias, que senti como uma autobiografia, com momentos mágicos de sua infância traduzidos em palavras, que virou o “Tradutor de Chuvas“.

 

Alguns trechos das poesias:

As mãos foram,
assim, o meu segundo ventre.”

Viver sabe quem ainda vai viver”

O homem faz amor
para se sentir bem.
A mulher faz amor
quando se sente bem.”

Sempre que chorares,
nascerás uma outra vez.”

O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.”

 

E assim, foi mais um livro em minha vida. 😉

Até ao próximo post! 😉