Clarice Lispector XXXVII

Três resumos de crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”.

A escritora com integrantes da FAB na Itália

Tomando para mim o que era meu

Clarice relembra uma Primavera específica: comeu uma pera, desperdiçou metade. Beberam água na fonte, caminharam calados, insolentes. Ficou horas na borda da piscina. Não tinha piedade na Primavera e tomava para si o que era dela.


Doçura na terra

Descobrir a terra. Isso aconteceu numa viagem à Itália, a doçura da terra italiana. Início da Primavera, março.
A terra que está sob os pés. Estranho sentir-se a viver sobre uma coisa viva. E que retornaremos, avisados sobre isso antes de descobrir. Isso não era triste para ela. Era excitante.
A terra é um material precioso mesmo que haja em abundância. E tudo é feito de terra. Somos imortais.


O milagre das folhas

Nunca aconteceram milagres. Ela ouvia sobre milagres, e bastava para ter esperança.
Milagre, não. Coincidências. Vivia  delas. Mas havia um milagre, o das folhas. 
Andava pela rua e caía uma folha nos cabelos. Ela era a escolhida das folhas. Guardava-a na bolsa como um diamante. Até que um dia encontra-a morta e a deita fora. Não lhe era de interesse ter um fetiche morto como lembrança. Até que um dia, uma folha bateu em seus cílios. Ela achou Deus de uma grande delicadeza.

Até ao próximo post!