A beleza da severidade

Durante a leitura de Cruze Esta Linha surge um nome familiar e respeitado, possivelmente mais conhecido e valorizado fora de seu país, Sebastião Salgado. O seu talento brinda-nos com uma imagem que fala por si. E é sobre ela, a reflexão do escritor Salman Rushdie:

Há uma foto de Sebastião Salgado que mostra o muro entre os Estados Unidos e o México serpenteando pela crista dos montes, sumindo na distância, até onde o olho pode enxergar, parte Grande Muralha da China, parte Gulag. Há uma espécie de beleza brutal ali, a beleza da severidade. Em intervalos há torres de vigia no muro, e nelas, chamadas de “torres do céu”, há guardas armados. Na foto, vemos a minúscula silhueta de um homem correndo, um imigrante ilegal, perseguido por outros homens em carros. O estranho na foto é que, embora o homem correndo esteja claramente do lado americano, ele está correndo para o muro, e não se afastando dele. Ele foi visto, e tem mais medo dos homens que o perseguem em carros do que da vida pobre que pensava ter deixado para trás. Estava tentando voltar, tentando desfazer seu lance de liberdade. Então a liberdade agora tem de ser protegida, contra aqueles que são pobres demais para merecer seus benefícios, pelos edifícios e procedimentos do totalitarismo.” – Salman Rushdie

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foto retirada do Google

Até ao próximo post !

 

“A pressão no muro irá aumentar”

Durante a leitura de Cruze esta linha, de Salman Rushdie, encontro esse aviso real e iminente…

Como disse o prêmio Nobel professor Amartya Sen, o problema não é a globalização. O problema é uma justa distribuição de recursos em um mundo globalizado. E à medida que aumenta o abismo entre os possuidores e os despossuídos do mundo (e ele aumenta o tempo todo), e à medida que até o suprimento de coisas essenciais, como água potável, se torna mais escasso (e escasseia o tempo todo), a pressão no muro irá aumentar.
Salman Rushdie, em Cruze esta linha

O saudoso pernambucano Chico Science (Francisco de Assis França) e a sua Nação Zumbi, no álbum da Lama ao Caos (1994) cantou: ” A cidade não pára. A cidade só cresce. O de cima sobe. E o de baixo desce”.

Até ao próximo post!

 

A Fronteira e The Terminal

A fronteira é um chamado para acordar. Na fronteira, não podemos evitar a verdade; as reconfortantes camadas do cotidiano, que nos isolam das realidades mais ásperas do mundo, são removidas e, de olhos arregalados, à luz fluorescente dos salões sem janelas da fronteira, vemos as coisas como são. A fronteira é a prova física do eu dividido da espécie humana, a prova de que a utópica visão aérea de Merlin é uma mentira. Eis a verdade: essa linha, diante da qual temos de parar até nos ser permitido ultrapassar e apresentar nossos documentos para serem examinados por um funcionário que tem o direito de nos perguntar mais ou menos qualquer coisa. Na fronteira, somos despidos de nossa liberdade — esperamos que temporariamente — e entramos no universo do controle. Mesmo a mais livre das sociedades livres não é livre no limite, onde coisas e pessoas saem e outras pessoas e coisas entram, onde apenas as coisas e pessoas certas devem entrar e sair. Aqui, no limite, nos submetemos ao escrutínio, à inspeção, ao julgamento. As pessoas que guardam essas linhas têm de nos dizer quem somos nós. Temos de ser passivos, dóceis. Agir de outra forma é ser suspeito, e na fronteira ser alvo de suspeita é o pior de todos os crimes possíveis.” – Salman Rushdie

Ao ler esse trecho do livro “Cruze esta linha” veio à memória o filme do Steven Spielberg, “The Terminal”, com a excelente interpretação do Tom Hanks. Segue o trailer…

Até ao próximo post!

Em nome de Deus, Salman Rushdie

Mas eu não sou um homem religioso. Eu não me ajoelhei. Fui dar uma entrevista em uma televisão e disse que eu queria ter escrito um livro mais crítico. Por quê? Porque, quando o líder de um Estado terrorista acaba de anunciar sua intenção de matar você em nome de Deus, você só pode vociferar ou resmungar. Eu não quis resmungar. E porque, quando o assassinato é ordenado em nome de Deus, você começa a ter menos consideração pelo nome de Deus.

    Depois, pensei: se existe um Deus, não acho que ele vá se importar com Os versos satânicos, porque ele não seria um grande deus se se abalasse de seu trono por causa de um livro. Por outro lado, se não existe um deus, ele certamente não se importa. Então o problema não é entre mim e Deus, mas entre mim e aqueles que pensam — como Bob Dylan um dia nos lembrou — que podem fazer o que quiserem porque têm Deus do seu lado.” – Salman Rushdie, pág.222 versão Epub de Cruze Esta Linha.

  • O tradutor italiano de “Os versos satânicos” quase foi morto, o tradutor japonês foi morto.
  • Um esquadrão de ataque assassinou o ex-primeiro-ministro Shapour Bakhtiar em Paris.
  • Outro esquadrão matou um cantor iraniano dissidente na Alemanha. Cortaram-no em pedaços e colocaram em um saco.
  • Um esquadrão de ataque treinado no Irã/Irão assassinou o jornalista secular Ugur Mumçu. 
  • No Egito, assassinos fundamentalistas mataram Farag Fouda, um dos mais importantes pensadores seculares do país.

Só resta ouvir o Prêmio Nobel de Literatura 2017…

Até ao próximo post!

 

 

O Xará, o livro

O leitor deve perceber por conta própria que não poderia ter acontecido de outro modo, e que dar-lhe qualquer outro nome estava totalmente fora de questão.”
Nikolai Gógol, “O Capote”.

jhumpaFoi ao ler “Cruze esta linha”, de Salman Rushdie, que conheci a escritora Jhumpa Lahiri. Ele escreveu que a escritora é muito talentosa, e participou da sensação geral de orgulho por sua conquista ao prêmio Pulitzer por seu primeiro livro de contos “Intérprete dos males” (2000). Jhumpa Lahiri já venceu outros prêmios de literatura e participou da FLIP 2014 (Festa Literária Internacional de Paraty). Logo a curiosidade despertou e fui em busca de uma obra dessa escritora.

 

downloadO primeiro romance que li de Jhumpa Lahiri foi “O xará”. A sua prosa é suave, levando-nos a acompanhar a vida do principal personagem Gógol Ganguli de uma maneira tal que o desejo é de devorar o livro o mais rapidamente possível.

Gógol Ganguli, com seu nome russo e sobrenome indiano, vagueia sobre as duas culturas, a americana e a indiana, sobre tradições e costumes diferentes. O cenário do livro situa-se em Boston, Nova Iorque e Índia.

Os pais de Gógol são indianos, imigrantes em busca de oportunidades nos Estados Unidos. Se conheceram na Índia, através de um casamento arranjado por seus pais. Foi só após o noivado que a mãe de Gógol, Ashima Bhaduri, soube o nome do futuro marido, Ashoke Ganguli. Torna-se Ashima Ganguli. Isso porque na tradição bengali, o nome do marido é algo íntimo.

Para Ashima, ser estrangeira é um sentimento contínuo de indisposição, mas que também desperta. Eu conheço bem esse sentimento. Ashima estranhava que uma criança nasce num lugar onde as pessoas geralmente entram para sofrer ou para morrer. É num hospital americano que inicia a vida de Gógol. Ele entra para o mundo.

A vida de Gógol inicia-se com um obstáculo, entre uma tradição bengali e o protocolo para ser liberado do hospital, uma certidão de nascimento. É preciso um nome. Na tradição de sua família, os nomes são escolhidos pela avó de Ashima. Uma carta enviada de Calcutá constaria um nome para menino e outro para menina, mas a carta nunca chegou ao destino.

Gógol Ganguli recebe esse nome, uma ideia do pai Ashoke em homenagem ao escritor russo Nikolai Gógol, para que possa ser liberado da maternidade do hospital, na verdade era apenas um “nome de criação”, uma solução provisória. Em bengali, esse nome de criação é o “daknam”, que significa o nome pelo qual se é chamado por amigos, parentes e pessoas próximas íntimas. O “nome de criação” é acompanhado de um “nome bom”, um “bhalonam”, que é uma identificação no mundo externo.

Gógol é um deshi (indiano), aliás ele é um ABCD – American-born confused deshis. E ele cresce em dificuldades em aceitar o seu nome de criação que passou a ser utilizado no mundo externo devido ao extravio da carta da avó de Ashima, seguido da doença da avó. Completada a maioridade americana, Gógol troca o nome para “Nikhil” que já tinha sido uma sugestão do pai no passado, quando Gógol entrou para a escola nos Estados Unidos.

Nikhil tem uma conexão com o nome anterior. Era um bom nome bengali que significa “aquele que é inteiro, que abrange tudo”. Gógol descobre, durante a sua trajetória de vida, que os nomes perecem assim como as pessoas, e que famosos também tiveram segundos batismos.

Foi nesse romance que também é um passeio sobre culinária que mergulhei, e gostei imenso da escrita de Nilanjana Sudeshna Lahiri, a Jhumpa Lahiri. Eu que sou “a que vive na floresta’.

Até ao próximo post!

Sobre ser fotografado, Salman Rushdie

… a câmera é uma arma: uma fotografia é um shot [um tiro] e uma sessão de fotos é uma shoot [uma sessão de tiro], e o retrato pode ser portanto o troféu que o caçador leva de sua shikar [caçada] para casa. Uma cabeça empalhada na parede.– Salman Rushdie


A BARCA é um grupo paulista que pesquisa gêneros tradicionais brasileiros, cria arranjos e composições inéditas inspiradas nas manifestações populares. Essa música do grupo ouvi pela primeira vez numa rádio portuguesa há 10 anos atrás.  Fui descobri-los em Portugal! “Tirei um retrato de Cleusa…”.

Até ao próximo post!

Desastre, Salman Rushdie

images (1)Ainda no livro Cruze Esta Linha, Salman Rushdie escreve sobre o desastre que resultou na morte da princesa Diana. Revelando aquilo que nos transformamos, um público da vida de celebridades. Mortos por uma foto, o que deixa o significado do acontecimento ainda mais triste.

Vivemos também em uma Era da Fama, em que a intensidade de nosso olhar sobre as celebridades transforma os famosos em bens públicos, transformação essa que muitas vezes se mostra tão poderosa a ponto de destruí-los.”  – Salman Rushdie

Love Unlimited foi um grupo feminino que fazia os vocais de apoio para Barry White e sua orquestra. O tema inesquecível Love’s Thema (1973) fez parte da trilha sonora de filmes e telenovela brasileira. Gravada e regravada em várias versões por várias celebridades da música.
Todo o glamour de Love Unlimited

Até ao próximo post!

Em defesa do romance em Cruze esta Linha

images (1)Salman Rushdie cita uma conferência do professor George Steiner, que foi um crítico literário, sobre a “morte do romance” ou a transformação do leitor. Transformação na forma eletrônica.

Antigamente, dizer “eu não leio romances” era pronunciado como um pedido de desculpas, mas hoje há um certo tom de orgulho.

Milan Kundera, em ‘Testamentos Traídos”, revela a incapacidade da Europa em defender a mais europeia das artes, a arte do romance.

Salman Rushdie chega mesmo a dizer que há romances demais afastando os leitores. Nessa crítica, ele explica sobre o excesso de publicações e publicidade que produzem deficiência da leitura.

E você, caro(a) leitor(a) concorda? 

Arthur Miller em Cruze Esta Linha

images (1)O dramaturgo e escritor Arthur Miller talvez seja mais conhecido por ter sido o primeiro marido de Marilyn Monroe, mas no livro de Salman Rushdie (Cruze esta Linha), ele é lembrado como a primeira voz em defesa do escritor perseguido por uma “fatwa” decretada pelo Aiatolá Khomeini, após a publicação de “Os Versos Satânicos”. 

Rushdie escreve que Miller apesar de ser oriundo de uma família voltada para o lucro, teve de se livrar dessa visão do mundo.

… a verdadeira condição dos homens era o oposto completo do sistema competitivo que eu concluíra ser normal, com todos os ódios e conspirações mútuos. A vida podia ser um abraço camarada, as pessoas se ajudarem umas às outras em vez de procurar maneiras de passar a perna nos outros.” – Arthur Miller

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Arthur Miller
não defendeu apenas o escritor Salman Rushdie, ele era um defensor de todos os escritores que sofriam perseguição no mundo. Uma figura incansável na luta contra a censura.

Temos de reimaginar a liberdade a cada geração, principalmente porque certo número de pessoas sempre tem medo dela.” – Arthur Miller

 

Até ao próximo post! 😉

Cruze Esta Linha, o livro

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Cruze Esta Linha, de Salman Rushdie, é um livro que agrega ensaios e artigos do escritor indiano, que vão do período de 1992 à 2002, e caminha entre assuntos como cinematografia, música, escritora Angela Carter, o romance Beirute Blues, dramaturgo Arthur Miller, Índia, Paquistão, Islão, aborto, etc. O autor que viveu um longo período de fugas e esconderijos devido a uma “fatwa” (decreto religioso) decretada pelo Aiatolá Khomeini, após a publicação de “Os Versos Satânicos”, vive hoje em Nova Iorque e continuando a ser sátiro e irreverente. Ainda bem!

O primeiro conto da vida do escritor foi “Over The Rainbow” (Além do Arco-íris), inspirado em sua primeira influência literária, o filme O Mágico de Oz. E é sobre esta influência literária que Rushdie abre o livro, analisando todo o filme em câmera lenta.

O Mágico de Oz é um filme cuja força motriz é a inadequação dos adultos, mesmo dos adultos bons“, Salman Rushdie.

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Segundo Rushdie, O Mágico de Oz era uma esquisitice no Ocidente, concebido como uma tentativa de fazer uma versão ao vivo de um desenho de Disney. O filme não fez fortuna até ser exibido em televisão, anos depois do seu lançamento, que ocorreu num momento de pouca ajuda para tal, ou seja, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial.

O filme é um exemplo de secularismo. Não existe nenhum traço de religião no Mágico de Oz. Há bruxas más que são temidas, há bruxas boas que são prezadas, mas nenhuma é santificada, escreve Salman Rushdie. E ele ainda diz que apesar de o Mágico de Oz ser algo próximo de um ser todo poderoso, ele não é venerado. É onde está o sucesso do filme, em criar um mundo no qual nada é “mais importante que os amores, os cuidados e as necessidades dos seres humanos”.

imagesRushdie escreve que o nome “Oz” passou para a lenda, quando o seu criador L. Frank Baum, fez surgir esse nome a partir das letras O-Z da gaveta de baixo de seu arquivo. E ainda diz que o filme é uma raridade cinematográfica, que acontece quando o filme melhora o já bom livro.

O autor analisa todo o cenário do livro, o  Estado do Kansas, nos Estados Unidos. E não concorda quando Dorothy diz que “There’s no place like home”, quando o Kansas não é o ideal para um lar, mas reconhece ser o assunto de alguma controvérsia. “O Kansas do filme é um pouco menos radicalmente inóspito que o do livro” (Rushdie).

Foi o filme O Mágico de Oz que tornou Salman Rushdie em escritor, e “Over The Rainbow”, o hino de todos os migrantes do mundo, aqueles que vão buscar que os seus sonhos se cumpram.

Até ao próximo post! 😉

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