A Desumanização, o livro

Mais um livro do Valter Hugo Mãe que li. Uma história triste que se passa num país pouco badalado nas notícias, a Islândia. Entre fiordes surge a história de Halldora que perdeu a sua irmã gémea (Sigridur), e que passou a ser conhecida como a “menos morta”. E a sua irmã gémea é a criança plantada. Durante a leitura vamos conhecer um pouco dos personagens que a cercam.
É um livro diferente dos demais livros deste autor português. Um livro com uma sublime nuvem poética em que o autor nos leva a saborear o belo e a tristeza, em histórias do passado e do presente dos personagens.
Este livro não é apenas uma história poética, é também uma coletânea de cultura islandesa. Há, durante o desenvolvimento desta história, referências à culinária, à música, à literatura, e ainda descrição da paisagem islandesa, que nos deixa curioso por conhecer este país que pouco se fala, que pouco se conhece, além da estupenda música de Björk.
A minha frase escolhida é muito forte, e retrata bem o sentimento da narradora desta história (Halldora):

“… Talvez valesse a pena a morte. Estaria do outro lado, sossegadamente, liberta de tanta incapacidade para ser feliz.”
pág. 101, versão e-book

Tot ziens! 🙂

 

 

O Filho de Mil Homens, o livro

Um reencontro com Valter Hugo Mãe, que abandonou o seu estilo de minúsculas. Um reenconto pela positiva, numa obra marcada pela simplicidade de vidas que vivem numa aldeia portuguesa e numa vila de pescadores, mas que de algum modo sinto que poderia ser em qualquer lugar do mundo. Para mim que já vivi em Portugal, não foi difícil me transportar para o imaginário daquele mundo narrado.
Tudo começa com um homem de 40 anos que quer ter um filho e sai à procura de um filho. Interessante, que recentemente li que o autor trocaria todos os seus romances por um filho. Ter um filho entendi que é deixar mil homens, e somos filhos de mil homens em nossa ascendência.
Ser feliz é a temática do livro, e a felicidade pode estar bem perto de nós, na simplicidade das coisas que nos rodeia, no dia a dia dos nossos sentimentos verdadeiros, porque o que importa é o ser humano, a pessoa. E se vivermos assim, seremos o dobro.
O livro tocou-me muito, e Hugo Mãe é sem dúvida uma página especial na literatura portuguesa. Um novo parto, como certa vez disse o Saramago. Ele descreve tão bem o ambiente, e sua linguagem é comovente. No livro há uma nota de agradecimento que me fez concluir que ele viveu numa aldeia por algum tempo para escrever esse romance.
Algumas passagens fez-me rir, em outras chorar. Foi uma leitura para mim fácil, que devorei em pouco tempo. Senti muito do ser português neste livro. O autor que nasceu em Angola, mas que cresceu em Portugal, sabe tão bem nos apresentar a alma e cultura portuguesa.
Outra ideia que está no livro é que podemos ser felizes numa família que podemos construir durante a vida. Seu personagem principal, o homem de 40 anos, pescador, Crisóstomo, no início era sozinho na companhia de um boneco que era como seu filho, e no fim do livro estava em dobro com uma família, completo.
E Hugo Mãe aborda muitos outros temas como a morte, as crenças populares, o machismo, o preconceito, a solidão, a tristeza. Dentre esses outros temas tocou-me muito o preconceito que sofria o personagem Antonino, que só queria voltar até o abraço de sua mãe. Que deixou de tê-lo por ser a vergonha da mãe, por ser um homem maricas. E como o Camilo, o filho de Crisóstomo, também corei. Fez-me muito refletir sobre os preconceitos que há em nossa sociedade. Quando o que importa mesmo é a pessoa. Cada um de nós é único.
Hugo Mãe coloca um pouco de nós em cada personagem com tanta sabedoria e sensibilidade que nos identificamos com as personagens, e talvez por isso as perdoamos pelos seus erros.
Há tantas frases tocantes neste livro que eu poderia citar, mas escolhi uma que como filha e mãe fez-me pensar e também rir, numa altura do ano que para mim é difícil rir, o outono.

Que raio acontece depois às crianças, que crescem para ser tudo ao contrário do que os pais lhes disseram e tanto lhes sonharam.” p. 218, epub

Neste post vai ser a primeira vez em 2 anos de existência do blog que não coloco uma imagem da capa porque vi que há muitas capas para este livro. Li a versão epub. Fica assim um post simples, apenas com uma imagem do meu outono em terras belgas.

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Outono em Sint-Niklaas, Bélgica

Tot ziens! 🙂