Tradutor de chuvas, o livro

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Finalmente, “encontrei-me” com o escritor moçambicano Mia Couto. Já muito que eu desejava ler um de seus livros, e aconteceu com um livro de poesias, que senti como uma autobiografia, com momentos mágicos de sua infância traduzidos em palavras, que virou o “Tradutor de Chuvas“.

 

Alguns trechos das poesias:

As mãos foram,
assim, o meu segundo ventre.”

Viver sabe quem ainda vai viver”

O homem faz amor
para se sentir bem.
A mulher faz amor
quando se sente bem.”

Sempre que chorares,
nascerás uma outra vez.”

O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.”

 

E assim, foi mais um livro em minha vida. 😉

Até ao próximo post! 😉

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Alice no país das maravilhas, o livro

aliceComecei a participar de um grupo de estudos literários no Facebook, promovido pelo blog Gotas de Epifania. O objetivo é trocar experiências de leitura com base crítica. Para isso, são compartilhadas links e material de referências.

Assim, o primeiro livro definido por este projeto de leitura foi Alice no País das Maravilhas (edição comentada e ilustrada), de Lewis Carroll.

Está enganado quem pensa que é um livro para crianças. É um livro para todas as idades com vários elementos do estudo da matemática, um tanto que disfarçados. A queda de Alice, por exemplo, poderá representar a ideia de limite, que é o intuito de expor o comportamento de uma função nos momentos de aproximação de determinados valores. Essa noção de queda surge em outros livros como passagem para outras realidades (Mágico de Oz).

A leitura do livro vai se desenvolvendo e surgem outras ideias da matemática como função bijetora, quando não há vencedores numa corrida e cada um ganha um prêmio. Carroll distribui nesta sua obra questões de lógica, sua área preferida da matemática. A questão da identidade é outra constante, em que Alice se questiona: “eu era a mesma quando me levantei esta manhã?” Será mais uma questão matemática ?

Lewis Carroll foi inspiração para o gênero nonsense em realizações de Tim Burton, Monty Python. Carroll, na verdade, era Charles Lutwidge Dodgson, um matemático inglês que também escreveu livros de matemática. Carroll era amigo de Henry Liddell, pai de 3 meninas – Alice, Lorina e Edite. A filha Alice foi a fonte de inspiração para a obra mais conhecida de Carroll.

Assim, Alice vai muito mais além do país das maravilhas.

Vem aí, um novo projeto dentro deste grupo. Descobre-o no blog Gotas de Epifania.

Até ao próximo post! 😉

 

O último trem de Hiroshima, o livro

download.jpegEste livro não é nada fácil de ser lido. Há muito sofrimento entre as páginas de uma história que, infelizmente, é verdadeira. Assim, segue o livro sobre tudo que aconteceu nos ataques a Hiroshima e Nagasaki, e em ricos detalhes sobre trinta pessoas que ao terem saído de Hiroshima rumo a Nagasaki acabaram por sofrer as consequências de um duplo ataque, em especial a história de sobrevivência de uma delas, Tsutomu Yamaguchi.

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Tsutomu Yamaguchi, fonte Google

Eu tenho dificuldade em ler livros com personagens de nomes asiáticos. Tenho que estar escrevendo num papel à parte os seus nomes, mas o autor deste livro, Charles Pellegrino,parece que pensou nas pessoas com esta dificuldade, então no final do livro está um apêndice com todos os nomes e uma breve explicação sobre a personagem. Ufa! 🙂

Fala-se nos ataques devastadores de Hiroshima e Nagasaki, onde foram usadas armas nucleares, pela primeira vez contra humanos, mas houve também um sequência de ataques com bombas incendiárias em outras cidades japonesas, bem como em Hiroshima e Nagasaki. Episódios que os senhores da guerra parecem insistir em que tenham sido um prólogo na história da civilização. Em momentos de nossa História parece que uma amnésia perigosa afeta a civilização, e as pessoas começam a esquecer o poder das bombas atômicas, e ao redor do mundo, em muitos idiomas as palavras “nuke them” (joga a bomba neles) são proferidas irresponsavelmente.

No livro conhecemos que o termo “Ground Zero” originou-se com os ataques às cidades, e que em Hiroshima cobria quase um quilômetro. Também com a leitura deste livro vim saber que há negadores da radiação. Bem, não é de se espantar de todo, num mundo que nega a evolução, que afirma que a Terra é plana, ou ainda que o nazismo não é de Direita. Não é verdade?

Yamaguchi, um dos personagens mais citados, era um homem bondoso que via o ódio nos outros e tentava amenizá-lo, via a ignorância e tentava substituí-la pela sabedoria, via o desespero e tentava dar esperança. Nas suas últimas semanas de vida, passou a missão a um pequeno, mas dedicado grupo de cineastas e escritores, para que evitem que aconteça novamente.

A peculiar distinção dada a quem estava no ponto zero foi atribuída a uma viúva de 35 anos e a meia dúzia de monges. A casa da sra. Ayoma estava ligada de um lado a um templo budista. Ela experimentou uma das mortes mais rápidas de toda a história da humanidade. “Antes que algum nervo começasse a perceber a dor, ela e seus nervos deixaram de existir”.  Há registros no livro do que aconteceu a outros seres vivos como a impressão na parede da sombra de uma folha recém caída da videira. As plantas viveriam só mais alguns instantes. Pássaros caíram mortos no chão, com asas e penas queimadas.

Muitos detalhes técnicos sobre a bomba nuclear e os aviões que as lançaram encontram-se no livro. A parte ativa da bomba era muito pequena, ocupava um terço do volume de uma bola de golfe. O volume total de urânio reativo era pouco mais do que duas colheres de chá rasas.  O invólucro da bomba era quente e vivo. Após 3 décimos de segundos, a bomba já não existia, seguiram-se os tremores. E o relógio, em Hiroshima, parou às 8:15hs da manhã.

Muitas cenas horrorosas são descritas, em que mulheres sentadas no exterior estavam pegando fogo e carbonizando antes que seus nervos começassem a transmitir dor, a onda de choque interveio. Em que árvores despedaçavam e voaram em pedaços chamejantes. Em.que as lápides de granito ardiam em uma cor vermelho-cereja. Em que pequeninas mãos dadas de uma criança foram encontradas perto do guidão causticante do seu triciclo. Em que uma professora é atingida pela luz com intensidade  de quatro ou cinco dias de verão, marcando sua pele com a caligrafia de uma criança morta. Em que paredes e outras estruturas verticais preservaram as sombras de pessoas e objetos. Em que avistava-se uma chuva de papéis chamejantes e farrapos de roupas ardentes caía do céu, além de telhados despedaçando-se no ar. Em que uma mulher vestida em preto desapareceu por completo. As peças de roupas pretas muito comuns foram atrativas e transformaram-se em chamas e cinzas, arrancando a pele. Eram tantos corpos que não se podia saber se estavam deitadas de barriga ou de costas.

Há muitas cenas chocantes. A pior para mim foi a de um homem, que passava na rua como um pássaro sem pedir ajuda, não notava que o olhavam, e só emitia o som de um clique ritmado no piso, como se estivesse dançando com sapatos de metal, só que ele não estava com sapatos, nem mesmo pés, era o som das pontas de suas tíbias lascando-se e quebrando-se a cada passo contra o pavimento. Na mitologia japonesa, os fantasmas não tinham pés.

Os depoimentos revelaram que havia um certo clima de intuição antes do lançamento da bomba. Crianças em Hiroshima pareciam não querer ir à escola, como uma premonição sobre o que se passaria. Um estudante da 5a série foi direto e disse: “Hiroshima vai ser totalmente destruída hoje“.

Muitos pais sofriam quando se lembravam dos desejos não realizados de seus filhos. Uma chuva de grandes gotas começava a tingir a pele de negro, proveniente da fuligem na estratosfera de Hiroshima e os produtos de fissão da nuvem. Enquanto, um padre liderava uma trilha de formigas humanas. E por falar nesta cena, descobriu-se mais tarde que o sistema de reparação do DNA de uma mosca são quase 200 vezes mais eficiente que do homem.

Os sobreviventes sofriam com as autoridades que os converteram em fugitivos, e mandavam-os de volta quando eram vistos. E também de moradores de outras cidades com ameaças e violência mortal. Eu penso que tal situação aconteceu porque nas primeiras horas e até dias não se soube exatamente o que havia acontecido. Pensavam que era uma situação de doença rara.

Encontraram uma estátua intacta num lugar onde nada ficou de pé, mas na verdade, essa estátua era um homem nu parado, de pé, com braços e pernas abertos. O homem transformou-se por completo em carvão. Também encontraram no campo um trem cheio de caroços negros que eram passageiros em seus assentos num trem sem janelas e teto. Noutro trem começava a viagem de outro sobrevivente, Kenshi, que levava os ossos de sua mulher, Setsuko à casa dos pais, no último trem de Hiroshima para Nagasaki. Ao chegar em Nagasaki, a bomba arrancou a tampa da tigela de casamento, atirando os ossos para longe. Lamentava-se Kenshi: “toda essa viagem“.

No livro também há todo um relato do ponto de vista do piloto responsável pelo lançamento da bomba. Antes do lançamento foram feitos vários vôos de estudos. Após o lançamento, o próprio piloto perguntava-se: o que fizemos?. Estimativas preliminares chegaram a 100 mil vítimas. Em Nagasaki, o número de vítimas foi maior. Grande parte do equipamento de filmagem e do filme tinha sido danificada.

O presidente norte americano revelou ao mundo horas depois, e apesar disso, e apesar dos panfletos lançados, o silêncio de Tóquio era um deserto, um silencioso desprezo. Foram ainda feito vários bombardeios com 152 aviões B-29 sobre o Japão. No livro é citado como comparação de estrago, a queda de um fragmento solar ao redor de Tunguska, em 30 de junho de 1908. Stalin soube antes da existência da bomba e capturou metade dos cientistas alemães de foguetes.

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Tunguska, fonte Google

O relato sobre o ataque em Nagasaki é citado como uma surpresa, pois em Hiroshima, o ataque foi com céu azul e claro, pois os americanos não atiravam sem ver o chão. O céu em Nagasaki estava com muitas nuvens, mas o piloto conseguiu de último momento um clarão entre nuvens. E a detonação foi 3 vezes pior que em Hiroshima. E apesar de em toda a história do ataque referir-se a Nagasaki, na verdade a bomba foi lançado ao subúrbio de Urakami. Nagasaki não foi o “Ground Zero“. Há quem considerou a cidade uma nova Pompéia. Outros que era a sucursal do inferno na Terra. A seguir, novamente, a mesma chuva de grandes gotas como uvas, e gordurenta, que desintegravam pessoas, e testemunhadas por sobreviventes. Foram 50 mil mortos apenas em Urukami.

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Urukami, fonte Google

Os japoneses demoraram a perceber o que havia acontecido. Tratavam os feridos como portadores da doença X. Alguns tinham vidros dentro dos pulmões. O “cogumelo” da bomba trazia cinzas, pequenos pedaços de madeira e concreto, e até dentes. As pessoas tossiam coágulos de sangue do tamanho de bolas de golfe. Em outros, vermes saiam de suas bocas. Larvas arrastavam-se sobre feridas, e de princípio as retiravam, mas depois verificaram que as larvas comiam as partes podres e as deixaram.

Muito mais há no livro. Uma sobrevivente perguntou se havia uma operação que removesse lembranças. Alguém tinha o sonho de que países com armas nucleares somente poderiam ser governados por mães que ainda estivessem amamentando e defendendo seus bebês. Pois, a bomba atômica rompeu as almas humanas com igual facilidade e indiferença.

E assim, foi mais um livro em minha vida.

Para que não se volte a repitir, deixo o vídeo abaixo :

Até ao próximo post!

A livraria mágica de Paris, o livro

download.jpegO livreiro parisiense Monsieur Perdu vende livros como se fossem remédios para os sofrimentos da alma, para proteger da burrice e de falsas esperanças. E assim, começa o livro que só pelo título conquistou-me. É verdade, que a um certo momento da leitura o livro perde a sua intensidade, voltando a recuperar o ritmo próximo ao fim deste romance.

Em sua farmácia literária recebia seus clientes, e com uma simples conversa era capaz de identificar em sua alma o que lhe faltava. Ele lia o corpo pela postura, por seus movimentos e gestos, o que afetava e oprimia, as predições de amor. Assim combinava os romances certos com as enfermidades. Era o dom de transpercepção.

No entanto, os livros não são capazes de mudar as pessoas más. Não era possível tornar pais, maridos ou amigos melhores. Estes continuariam sendo tiranos, torturadores, odiosos nas pequenas coisas, e covardes com o constrangimento de suas vítimas.

Perdu dizia pérolas aos que lhe cruzavam como: – limpar é meditação com movimento (adorei esta!);  – ninguém ficaria inteligente se não tivesse sido jovem e estúpido em algum momento; – nunca ouça o medo! O medo emburrece.

A sua sabedoria sobre o amor era resultado também de sua própria experiência com um amor que foi o motivo de sua existência. O amor, para ele, é uma morada onde nada deve ser escondido ou “poupado”. Habitar o amor por completo é não se deixar intimidar por nenhum quarto, nem porta. Brigar, acariciar, separar, fazem parte desta habitação. Aliás, Perdu chamava os livros de lares, e também de liberdades. E dizia mais: “Todos os amores. Todos os mortos. Todas as pessoas do nosso tempo. São os rios que formam nosso mar da alma. Quando não queremos nos lembrar deles, esse mar também seca.”

Ao longo da leitura deste livro, outros livros são citados. É a chamada Farmácia Literária de Emergência de Jean Perdu. Comecei a tomar anotações dos títulos dos livros e autor, mas no final do livro encontra-se a lista completa. Também encontrará no fim do livro receitas da região de Provence, em França. E mais ainda, um impressionante roteiro por esta região feito por Perdu e seu amigo escritor Max Jordan com outros amigos que iam conhecendo. Enquanto conduzia sozinho o carro, ouviu que tocaria “Albatross”, de Fleetwood Mac. Uma canção que fazia Jean Perdu pensar no vôo de gaivotas ao pôr do sol, em uma praia distante desse mundo, no estalar da fogueira de madeira tirada dos rios.

Estive a tentar construir este roteiro. Não vou descrevê-lo aqui, pois ficaria um post cansativo. Ficará para uma possível viagem no futuro. Quem sabe? E assim, descreveria-o no blog fazendo menção ao livro. Apesar de que antes de viver na Bélgica já estive nesta região, mas o blog é sobre tudo que me acontece após viver na Bélgica. No entanto, navegando na Internet, acabei por achar um mapa com uma parte do roteiro do livro. Interessante! E interessante também é que toda esse enredo foi construído por uma escritora com origem alemã, Nina George.

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Por fim, o próprio Perdu escreve o seu livro intitulado Grande Enciclopédia dos Pequenos Sentimentos, que é uma obra de consulta para livreiros, amantes e outros farmacêuticos literários.

E, assim foi mais um livro na minha vida. 😉

Até ao próximo post! 😉

 

O milagre da manhã, o livro

downloadUm livro de ajuda escrito por Hal Erold, que pretende nos acordar através do milagre da manhã, porque a vida é curta demais e não há tempo para ser infeliz e medíocre. Segundo ele, é um hábito que muda a vida, em que começará cada dia com disciplina, clareza, desenvolvimento pessoal e do seu estado mental.

O plano de transformação consiste em 30 dias de O Milagre da Manhã, o qual desenvolverá a confiança e sedimentará os hábitos que a pessoa necessita para atrair, criar e sustentar continuamente os níveis de sucesso que deseja e merece em todas as áreas de sua vida.

E por que pela manhã? Pela manhã não se tem todas as desculpas que se acumulam durante o dia: estou cansado, não tenho tempo, etc. E se você quer que sua vida seja diferente, precisa estar disposto a fazer algo diferente, em primeiro lugar.

A vida não deve ser uma luta, e para impedir que isso aconteça, é preciso que saiba o que faz com que o ser humano acabe levando uma vida de mediocridade. Uma das causas é síndrome do espelho retrovisor, onde recriamos o nosso passado continuadamente. Para derrotar a mediocridade, você precisa de um propósito de vida. Pode ser algo simples, até pequeno. O propósito de vida pode ser mudado a qualquer momento.

Segundo o livro, é importante saber que onde você está, é resultado de quem você era, mas para onde você vai depende inteiramente de quem você escolhe ser, a partir deste momento. E sempre que você escolhe fazer a coisa fácil em vez da coisa certa, você está mudando sua identidade, tornando-se aquele que faz o que é fácil, e não o que é certo.

O sucesso está ligado a responsabilidade. A responsabilização é o ato de ser responsável pela ação ou pelo resultado de outra pessoa. Ela traz ordem para nossas vidas e permite progredir, melhorar e obter resultados que de outro modo não obteríamos. Assim, obtenha um parceiro de responsabilização.

O milagre da manhã começa, na verdade, na noite anterior, criando, conscientemente, uma expectativa positiva para a manhã seguinte, estabelecendo suas intenções antes de deitar. A seguir, coloque o seu despertador no outro lado do quarto e escove os dentes. Ao acordar, beba um copo cheio de água e vista suas roupas de ginástica, e vá correr ou caminhar.

As pessoas extraordinárias visualizam não o que é possível, mas o impossível. Elas utilizam afirmações como uma das ferramentas mais eficientes para se tornarem rapidamente a pessoa que precisa ser para conquistar tudo o que deseja na vida.

A programação de exemplo (60 min) do Milagre da Manhã consiste em: silêncio que é a primeira prática para melhorar nossos ruidosos estilos de vida. Em seguida, afirmações, visualização, exercícios, leitura, escrever.

E você está preparado(a) para mudar a sua vida logo de manhã cedo ? 😉

Até ao próximo post! 😉

Uma mente inquieta, o livro

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Não tenho a certeza, mas acho que a sugestão de ler este livro veio do blog da Bia Ribeiro. Vou escrever sobre o livro na visão de alguém que é fora da área de psicologia ou psiquiatria, mas o livro está ao alcance da compreensão de todos, uma leitura que flui facilmente.

O livro relata a experiência de como uma profissional de saúde, que se dedica à pesquisa e ao tratamento do transtorno bipolar, lida com esse mesmo transtorno como paciente. A história de vida de Kay Redfield Jamison.

Na adolescência esteve gravemente deprimida, depois presa sem trégua aos ciclos da doença maníaco-depressiva quando começou sua vida profissional. Tornou-se uma estudiosa das alternâncias do humor. Durante os dez primeiros anos não procurou nenhum tipo de tratamento. Quando iniciou a medicação percebeu que esta não só interrompia os períodos velozes, de vôos altos; mas também ela trazia consigo efeitos colaterais aparentemente intoleráveis. No entanto, a doença deformava o seu estado de humor e os pensamentos.

Ela relata a experiência, após 3 meses de ter se tornado professora universitária, de estar descontroladamente psicótica. Acordou um dia e estava louca. A sua relutância tinha origem numa negação fundamental de que o que ela tinha era uma doença de verdade. Uma reação comum, que segundo ela, surge de uma forma bastante contrária à intuição. E o não buscar ajuda vinha do que lhe tinham ensinado sobre aguentar o tranco, sobre a auto confiança e sobre não atrapalhar os outros com nossos problemas.

A doença maníaco-depressiva é uma doença médica, assim a autora acredita que, com raras exceções, é negligência tratar essa enfermidade sem uso de medicação. No entanto, ela temia que ao tomar a medicação estaria arriscando seu último recurso.

Ela perguntava-se sobre o sentido de seguir em frente, se não podia sentir, se não podia se mexer e se não conseguia se importar. Mesmo assim, sentia-se que ela tinha consciência de que a doença tanto mata quanto dá a vida. E, assim ela contribuiu para dar ênfase ao uso combinado de medicações e psicoterapia, em vez do uso exclusivo de medicações, salientando a importância da informação sobre as doenças e seus tratamentos aos pacientes e suas famílias, bem como ajudar a mudar as atitudes públicas.

Em seu ambiente de trabalho, a maioria dos seus colegas eram do sexo masculino, e mesmo que fossem imparcial e solidários, havia alguns homens cujas opiniões sobre as mulheres eram de um tipo que se precisava ver para crer.

Apesar das dificuldades que a doença lhe trazia, ela não deixou de viver a vida e de amar. Perdeu precocemente um grande amor. Foi quando percebeu que não só a vida, mas também o amor é extremamente complicado, mais do que lhe ensinaram.

No livro, ela descreve sobre a linguagem e expressões utilizadas para descrever a doença mental, e que fere os sentimentos e os direitos dos que sofrem. Por vezes, expressões humorísticas que fazem perpetuar uma falta de amor próprio e uma auto-estigmatização. A lembrança do preconceito e da falta de sensibilidade permanece por muito tempo. Por isso, permitir que esse tipo de linguagem passe sem correção ou sem controle contribui de modo direto e indireto para a discriminação na sociedade em geral.

Não só a linguagem popular para descrever alguém com uma doença mental, mas também a própria confusão quanto ao uso do termo mais popular “transtorno bipolar” em lugar do termo histórico “doença maníaco-depressiva”, vem ao debate. Sendo a palavra “bipolar” revelada como insultuosa de uma forma estranha e intensa, pois obscurece e minimiza a doença. Enquanto, a utilização de “maníaco-depressiva” é capaz de captar a natureza e a seriedade da doença sem encobrir a realidade. Mas “transtorno bipolar” é menos estigmatizante do que “doença maníaco-depressiva”, assim percebi.

Havia o desejo de ser mãe e foi dramático quando um colega disse-lhe que sendo uma doença genética, o melhor era não pôr no mundo mais um maníaco-depressivo. Para ela, não ter os seus próprios filhos é a única tristeza intolerável em sua vida.

A ciência é a esperança. Hoje, através de uma tomografia do cérebro, é possível ver que um cérebro deprimido aparece com cores frias, verde-garrafa, roxo-escuro e azuis profundos, da inatividade cerebral. Com hipomania, o cérebro tem cores brilhantes, laranja, amarelo e vermelho.

O livro não é apenas sobre a doença maníaco-depressiva, também é sobre o amor, que foi apoio, renovação e proteção. A depressão prolongada esgota os relacionamentos através da suspeita, da falta de confiança e de amor próprio, da incapacidade de aproveitar a vida, de caminhar, conversar ou raciocinar normalmente, da exaustão, dos terrores noturnos, dos terrores diurnos. Para a autora, não há nada de bom para dizer da depressão, a não ser que ela dá a experiência de como deve ser a velhice, “ser velho e doente, estar à morte, ter a mente lerda”, pois ela é neutra, oca, cansativa e insuportável.

Um livro sobre uma experiência única de vida. E, assim foi mais um livro lido na minha vida.

Até ao próximo post! 😉

 

Flores raras e banalíssimas, o livro e o filme

downloadO nome do livro atraiu-me antes mesmo de saber o seu enredo. Flores Raras e Banalíssimas. Uma história longa e triste. Uma época política de confronto entre Getúlio Vargas e Carlos Lacerda. Uma época alta para o paisagismo brasileiro. Um livro com muitas fotos da época e dos personagens envolvidos. A história de amor entre Lota de Macedo Soares (paisagista) e Elizabeth Bishop (escritora), vencedora do prêmio Pulitzer, em 1956.

Bishop era uma depressiva crônica e tinha alguma dependência do álcool. Veio para o Brasil e instalou-se numa casa de Lota que estava a ser reformada no Estado do Rio de Janeiro, em Samambaia. Bishop achava curioso alguns nomes brasileiros serem a combinação da metade do nome da mãe e metade do nome do pai, como Rubenalda, Cleidonir. Bem, até hoje esta criatividade é motivo para gargalhadas. Não é mesmo? Ainda bem que os meus pais não tiveram esta ideia com o nome deles.

O livro descreve momentos quentes do confronto político entre Vargas e Lacerda. Bishop encontrou Lacerda ocupado em combater com raiva o presidente Getúlio Vargas através de seu jornal Tribuna da Imprensa. Certa madrugada, Lacerda foi baleado na porta de casa. Quando soube, Lota ligou preocupada para Letícia, mulher de Lacerda.

De repente, a situação se reverteu. Com o suicídio de Vargas, a população indignou-se contra Lacerda, que teve que se esconder. O que não impediu que nas eleições daquele ano, Lacerda tivesse fantástica votação. Bishop escrevia aos seus amigos americanos: “Oh this incredible country!”. Eu também acho o Brasil incrível, não necessariamente de forma positiva, não necessariamente de forma negativa, mas vejo sobretudo o presente repetir o passado, não necessariamente igual.

Um período da política em que no final de setembro de 1963, Carlos Lacerda estava nos Estados Unidos, dizendo ao Los Angeles Times que os militares iam intervir no governo de João Goulart. Um passado que explica algumas coisas do  presente, assim senti.

Lota e Bishop receberam a visita do escritor Aldous Huxley (autor de Admirável Mundo Novo). Bishop foi com ele e uma senhora para Brasília e de lá seguiram para a Amazônia. E o sertanista Cláudio Villas Boas os receberam no posto do serviço de proteção aos índios à beira do Tuatuari. Eles também foram visitar a Novacap para as malocas do Xingú.

Outros nomes que fazem parte da minha vaga lembrança de infância vai surgindo ao longo da leitura do livro. Sou invadida de nostalgia ao ler. Era época dos filmes de Oscarito, da Copa da Suécia. Outros nomes conhecidos surgem na história como a ex-vereadora do Rio, Sandra Cavalcanti, Ademar de Barros, Ibrahim Sued, Burle Marx, Roberto Castello Branco, Cartola, Zé Keti, Nara Leão, Clementina de Jesus, Nelson Rodrigues, Tônia Carrero, palhaço Carequinha, Grande Otelo, Altamiro Carrilho, Maria Clara Machado, etc. A rainha Elizabeth tinha tido um filho. Chateaubriand estava morrendo.

Outras curiosidades desconhecidas, para mim, como saber que o manto de D. Pedro I (D. Pedro IV para Portugal) estava exposto no Museu do Imperador era todo feito de penas de pica pau de peito amarelo. Também, curioso para mim, foi que Sandra Cavalcanti observou que a garrafa de Coca-Cola, naquela época, tinha um lugar certo para se fazer um furo, porque o dono da Coca-Cola apreciava os beija-flores.

Bishop relata um grande pavor quando soube de uma publicação chamada “O Grupo” de Mary McCarthy que parecia descrever em personagens fictícios a vida de Lota e Bishop de forma vulgar. Os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo ainda sendo um tabu nos dias de hoje, imaginem naquela época. Aliás, naquela época também não agradava aos homens, os destaques que as mulheres iam alcançando como o prêmio de gravura da Bienal de Paris (Anna Letycia) e o prêmio da Bienal de Gravura do México (Edith Behring).

O livro também traz uma minuciosa descrição com fotos sobre a construção do Aterro do Flamengo, e outros planos de urbanismo e construção para a cidade do Rio de Janeiro. Essa obra era a vida de Lota, de estatura baixa, deslocava-se até a obra para fiscalizar tudo. Ela chamava um condutor de esgoto que deveria passar pelo Aterro, de “merdô“. E queria desviá-lo para uma praia que seria feita em Botafogo. O Aterro era uma obra de vanguarda. No entanto, o então governador Carlos Lacerda estava mais interessado na construção de hotéis do que na ideia do Aterro. E, Lota dizia-lhe a frase de William Pitt: “Necessidade é a alegação que se dá para toda violação da liberdade humana.” Burle Marx rompeu com Lota de Macedo devido ao Aterro. Curiosidade: ambos não tinham diploma universitário.

Lota e Bishop eram muito diferentes. Bishop recriminava-se por seus desacertos. Lota era segura. Lota tinha como frase preferida: “Não me aporrinhem!” Já Bishop dizia: “O Rio não é uma cidade maravilhosa; é apenas um cenário maravilhoso para uma cidade.” Elas se separaram, e Bishop resolveu aceitar o convite da Universidade de Washington, em Seattle, para dar aulas de composição poética. A Fundação Rockefeller concedeu-lhe uma bolsa de 12 mil dólares para escrever um livro de Crônicas de Viagens no Brasil.

E, no livro há mais o presente imitando o passado quando fala da atuação do DOPS que apreendeu  a cartilha “Viver é Lutar”, aprovada pela CNBB e editada pelo MEC. Ou quando relata a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo, e que foi considerada por militares e setores conservadores da sociedade, uma ameaça comunista. Derrubaram Jango e achavam que a intervenção dos militares faria a economia ser sanada e a corrupção eliminada do governo. Lacerda vai à Europa e aos Estados Unidos explicar a revolução que tinha acontecido. Não sei, mas se a autora desta obra a Carmen Oliveira tivesse a escrito este ano, talvez o livro tivesse mesmo o nome como algo: o presente imita o passado.

O fim do livro é triste, e acaba com o suicídio de Lota de Macedo, nos Estados Unidos, no apartamento de Bishop. Bischop como sua companheira de longos anos recebe a desconfiança da culpa por parte dos amigos brasileiros de Lota. Pergunto-me sempre nos casos de suicídios sobre o por quê de tentarem incriminar os parceiros dos suicidas.

O livro contém muitos mais detalhes sobre a história da política brasileira e das artes naquele período, bem como informações técnicas sobre toda a obra do Aterro, e muitos mais detalhes sobre a vida destas duas marcantes mulheres, amor, traição e suicídio.

E, assim, foi mais um livro lido em minha vida. 🙂


O filme
:
Vi, recentemente, o filme Flores Raras (2013) inspirado neste livro. Ainda bem que li primeiro o livro. O livro é rico em informações. O filme dá uma pincelada na política e nas obras do Aterro do Flamengo. O filme leva quase até a metade só com cenas do relacionamento entre as duas mulheres e uma namorada/amiga da Lota, a Mary. Carlos Lacerda é um personagem desinteressante. Por volta da metade do filme é que o filme sai um pouco da relação entre Lota e Bishop, para mostrar um pouco da realidade política e da obra. O que salva o filme é a boa qualidade de fotografia, os cenários, e a atuação de Glória Pires como Lota, nas cenas sensuais e o seu aparente irrepreensível inglês. Bem como, muitos poemas belos de Elizabeth Bishop, uma das mais importantes poetisas do século XX. Aliás, o filme tem mais diálogos em inglês do que em português. Tecnicamente, penso que foi uma boa produção brasileira. 

Acredito que vale a pena ver o filme. Segue o trailler:

Até ao próximo post do blog O Miau do Leão! 🙂

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