108 contos e parábolas orientais, o livro

downloadÀs vezes, tenho momentos “zen”. No último dia de 2019 terminei de ler esse livro (108 contos e parábolas orientais, Monja Coen), que conta histórias verdadeiras vivenciadas por praticantes e monásticos na Índia, China e Japão, começa por dizer a sua introdução. Algumas são chamadas de “koan”, que significa proclamação pública.

Aprendi com o livro que os koans tem o objetivo de “libertar o ser das suas próprias amarras, ou seja, o rompimento entre as ideias da realidade e a própria realidade”.

O primeiro que li foi o “MU“. É considerado o primeiro koan, também conhecido como primeira barreira. Seu objetivo é ir além do pensar, tornar-se verdadeiro, indo além de si mesmo. Mostra o questionamento de um jovem monge sobre a natureza divina. O “MU” significa “não”, mas muito maior que uma negação. O oposto é “YU“. E vai muito mais além do significado da palavra, porque a mente humana é limitada para compreender o ilimitado. Aprecie a sua vida! Pois o “grande caminho” está manifesto nas atividades simples da vida diária. Esteja presente e atento às atividades do momento. Reconheça as suas necessidades verdadeiras. E compreender a não permanência, vivendo dignamente, e no momento da morte não haverá medos nem arrependimentos.

Há alguns anos atrás, refleti, olhei à volta, descobri, aceitei o simples e suficiente para viver: Procure seguir as três regras de ouro…

Nunca fazer o mal.
Sempre fazer o bem.
Sempre fazer o bem a todos os seres.

Até ao próximo post! 😉

Clarice Lispector XXII

A essência de quatro crônicas escritas por Clarice Lispector sobre ela mesma.

images (1)– A experiência maior
– O uso do intelecto
– Refúgio
– O sonho

 

A experiência maior

Clarice Lispector: “Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o âmago dos outros: e o âmago dos outros era eu.”


O uso do intelecto

Super atual: O maior esforço de Clarice Lispector foi ser obrigada a ser inteligente. Usar a inteligência para entender a não inteligência. 


Refúgio

Clarice cultivava em si uma imagem: a visão de uma floresta. Uma clareira verde, árvores, borboletas, um leão sentado, e ela também sentada no chão bordando.

A sua visão precisa via os anos passarem, as asas enfeitadas das borboletas e o leão com manchas, e por essas via-se como o animal seria sem as suas manchas. A sua clareira verde tem minérios que são as cores. E a própria Clarice tem manchas azuis e verdes para mostrarem que ela não é azul nem verde. Fora dessa cena ela está perdida.


O sonho

Uma vez Clarice anotou um sonho que teve, mesmo sem entender de sonhos, pois este parecia querer dizer algo. Na verdade foi um pesadelo com uma porta que não sabia o que simbolizava, mas sabia que a “primeira porta de alguém” é algo aterrorizante.
Até ao próximo post! 😉

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Clarice Lispector XXI

Supondo o errado

Clarice Lispector propõe o supor que não é verdade, ou seja: criatura forte, tomar uma resolução e mantê-la, escrever algo que desnude um pouco a alma humana, ter o rosto sério ao espelho, que as pessoas que eu amo sejam felizes, que eu tenha menos defeitos graves do que tenho, que baste uma flor bonita para me deixar iluminada, sorrir em dia que não é de sorrir, entre meus defeitos haja muitas qualidades, que eu nunca minta, imagesque eu possa ser outra pessoa e mude o modo de ser.


Supondo o certo

Clarice Lispector propõe o supor que é verdade, ou seja: que o telefone amde enguiçado em toda a cidade, que eu faça uma ligação e dê sinal de ocupado, que o sinal de desocupado está soando em chamada, que não atendam, ouça uma linha cruzada, por curiosidade ouvir a conversa entre um homem e uma mulher, no final da conversa ouça uma frase límpida “Deus te abençoe”, que se sinta abençoada. Não suponho mais, disse Clarice. Disse apenas, “sim” ao mundo.
Até ao próximo post! 😉

Spinoza em 90 minutos, o livro

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Décadas atrás, eu estudei engenharia civil, mas tinha filosofia como disciplina no currículo. Os meus colegas de turma perguntavam-me como eu poderia gostar de filosofia. Eu colecionava alguns 10/10, e precisava sempre de mais folha para completar a prova. E eu tinha em casa vários livros de filosofia, sociologia, antropologia,… Não havia conversas sobre o assunto em casa, mas eu explorava-os sozinha como uma espécie de hobby. Era fácil passar a gostar e compreender filosofia.

No presente, ainda tenho alguns livros, mas já não os visito como antes. No entanto, depois de uma conversa com meu filho de 17 anos, a chama da filosofia voltou a acender dentro de mim, e com muito orgulho de mãe por ele ser muito bom no assunto, e questionar todos os aspectos da vida. Foi nestas conversas que surgiu Spinoza. Corri para buscar um livro sobre o mesmo e foi esse o resultado…

Spinoza é considerado o filósofo dos filósofos. Nasceu na Holanda, filho de portugueses. Era um homem religioso, judeu, mas que na prática não professava nenhuma fé. E por esse último detalhe, e não só, foi abominado e teve suas obras perseguidas, mesmo numa Holanda à frente do seu tempo no século XVII.

O seu sistema definiu deus como natureza, e era composto de definições, axiomas e demonstrações geométricas, uma inspiração que veio de Descartes. É o Panteísmo: doutrina filosófica em que Deus e o Universo é uma coisa só.

Spinoza também escrevia sobre teoria política, acreditando que o propósito do Estado era proteger o indivíduo, para que este pudesse desenvolver livremente através da razão iluminista. Ele estava muito à frente de seu tempo e atento para a realidade e o mundo moderno. Surgia a liberdade de expressão.

No século XVII, os judeus não eram considerados cidadãos holandeses, e criticar a bíblia era como atacar o cristianismo. Dizer que na bíblia não havia provas de que deus tinha um corpo, de que a alma era imortal, ou que os anjos não existiam, era entrar num grande sarilho. Tentaram ameaçá-lo, silenciá-lo com dinheiro, e mesmo chegou a sofrer um ataque com punhal.

A comunidade judaica de “Amsterdam” excomungou Spinoza, abandonando-o com a finalidade de demonstrar à comunidade cristã que nada tinha a ver com o filósofo. Passou a ser o “maldito”. Seu pai faleceu, e sua irmã aproveitou para tomar toda a parte na herança que cabia à Spinoza. Ele entrou com processo, venceu, mas acabou por dar quase tudo à irmã. Ele só queria vencer com argumentos. Passou uma vida de dificuldades, vivendo na máxima simplicidade, aprendeu um novo ofício, tornando-se fabricante de lentes, mas não parou de escrever a sua filosofia.

Suas obras mais conhecidas são: Princípios da Filosofia (uma série de demonstrações geométricas do pensamento de Descartes), o Curto Tratado sobre Deus, o Homem e o Bem Estar, e Ética (obra póstuma). 

Bem, essa é uma curtíssima explanação sobre o livro Spinoza em 90 minutos de Paul Strathern, que estudou filosofia no Trinity College de Dublin. O livro é uma rápida leitura, como diz o título, para conhecer este filósofo. Outros filósofos também são retratados na coleção 90 minutos, e pretendo continuar a revê-los, agora que a chama acendeu.

Eu deixo mais explicações com o vídeo do professor de filosofia da UERJ, Marcos André Gleizer…

Até ao próximo post! 😉

 

Clarice Lispector XX

images (1).jpegA surpresa

Clarice Lispector olhava-se ao espelho e dizia: sou misteriosa, delicada e forte.

Refletia que não há homem ou mulher que já não se tenha olhado e se surpreendido consigo próprio.

Narcisismo? Ela preferia chamar de alegria de ser. Na figura exterior encontrar a interior. Ou simplesmente dizer: “eu existo”.

 

Até aopróximo post! 😉

O Palácio dos Sonhos, o livro

ismailDepois de ter conhecido a casa do escritor albanês, Ismail Kadaré, em Gjirokastër Albânia, (aqui) comecei a ler um de seus livros, O Palácio dos Sonhos. Uma obra que logo nas primeiras páginas revelou-se fascinante e intrigante. Quem poderia imaginar que os nossos sonhos pudessem ser enviados para análise ? E assim, ter a possibilidade de prever acontecimentos decisivos. É um pouco do que li que passo a revelar aos meus queridos seguidores.

MarkAlem é um albanês da família Quprili, sobrinho do Vizir. Uma família com presenças nas funções do Estado Imperial. E chegou a vez de MarkAlem também ter uma função neste mesmo Império. Ele foi nomeado para trabalhar na importante instituição Palácio dos Sonhos também referenciado como Tabir Sarrail. E cuja relação com a família sempre foi complicada.

Já desde a antiguidade, e registrado em livros, encontram-se os benefícios das análises dos sonhos e o seu papel na antevisão dos destinos dos países e dos que os governam, principalmente quando relacionados a desgraças.

O Palácio dos Sonhos foi criado para recolher, classificar e examinar a totalidade dos sonhos dos cidadãos, sem exceção. Encontrar um sonho revelador era como buscar uma pérola perdida no deserto de areia. Essa instituição não era uma fantasia, mas sim um dos pilares do Estado.

Além disso, ou seja, de encontrar o sonho revelador, havia a dificuldade de temporalizar o sonho antes de sua manifestação real. Não era difícil imaginar a existência de agentes infiltrados no Tabir Sarrail, por isso era uma instituição totalmente fechada ao mundo exterior.

A quantidade de sonhos variavam de uma estação para outra, sendo ao final do ano mais intensos, aumentando o fluxo de pastas para análise dos sonhos. Quando os sonhos chegavam ao Palácio dos Sonhos eram levados para a seleção a fim de serem separados os sonhos de caráter privado, sem a mínima relação com o Estado, e estes eram logo encaminhados para o arquivo. Era rigorosa a instrução de se banir qualquer preconceito ou toda a consideração pessoal da apreciação dos sonhos, era no entanto assim que os empregados procediam na primeira triagem dos materiais.

MarkAlem, personagem central do livro, começou a trabalhar na seleção, mas logo demonstrou o receio de ser enfeitiçado pelo que lia e esquecer o mundo e o gênero humano. Alguns colegas da seção conservavam a cabeça perdida sobre as pastas, e possivelmente deviam apenas fingir que liam, pensava MarkAlem.

Os sonhos eleitos na triagem eram classificados consoante os tipos de assunto em causa: segurança do Império e do Soberano; política interna;  política interna; vida civil; indícios de um eventual sonho-mor; diversos. Era preciso também saber identificar um possível fazedor de sonhos que era severamente punido, bem como o empregado culpado de fazer valer o sonho, que poderia ser da seleção ou da interpretação. Em caso de dúvida era preferível marcar com um grande ponto de interrogação.

O Tabir Sarraial ou Palácio dos Sonhos era, portanto, uma instituição sedutora e terrível, e completamente alheio à vontade dos homens, a mais estatal.

Depois do sonho selecionado, este era levado à interpretação onde o trabalho era infernal. Um trabalho criativo e completamente distante de uma banal interpretação de sonhos. E MarkAlem foi rapidamente transferido para esta área do Palácio dos Sonhos.

Decifrar um sonho contava com o conhecimento entre a relação dos diversos símbolos do que o próprio símbolo: um gato preto com a Lua entre os dentes corria perseguido por uma multidão de pessoas, deixando atrás de si o registro sangrento do astro ferido…

Quando finalmente o Sonho-Mor era escolhido, faziam-se os preparativos para o enviar ao palácio do soberano. E no dia seguinte chegava a notícia se ficara satisfeito ou não. O Sonho-Mor era capaz de verdadeiras mutações no Estado. Também havia a possibilidade deste ser forjado do início ao fim por empregados levados pelo interesse de poderosos grupos rivais.

O arquivo do Palácio dos Sonhos era enorme e repleto de estantes classificadas: sonhos tidos na véspera de grandes matanças; povos assombrados; povos radiosos; eróticos; crises econômicas; desvalorização das moedas; rendas de propriedades; bancos; falências; conspirações; intrigas governamentais; sonhos de cativeiro; período de servidão; grandes delírios.

Tudo desenrolava-se normalmente até que os Quprili são envolvidos na interpretação de um Sonho-Mor com uma ponte.  Os Quprili mudam o nome para Kõprulii para não voltarem a ser identificados com este símbolo e MarkAlem é nomeado chefe da secção do Sonho-Mor

Claro, não contei tudo, para que o leitor do meu blog venha a se interessar por este livro que absorveu-me do início ao fim. 😉

Deixo-vos com o filme da minha visita ao antigo lar do escritor Ismail Kadaré, na Albânia. No presente, ele vive na França.

Até ao próximo post! 😉

Clarice Lispector XIX

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Hoje são 4 crônicas escritas pela escritora Clarice Lispector:
Sem aviso
Eu me arranjaria
Em busca do prazer
A lucidez perigosa

 

Sem aviso

Clarice dizia que não sabia de muita coisa, e que não lhe tinham avisado sobre o ritmo seco da vida, apenas avisaram um pouco que doeria.
Ninguém avisou-a sobre o perigo de mentir, e ela começou a mentir como uma forma de precaução, e nunca mais parou. Até que começou a mentir sobre sua própria mentira, o que significa dizer a verdade.


Eu me arranjaria

Se o mundo não fosse humano, mesmo assim haveria lugar para Clarice que se arranjaria sendo um bicho.


Em busca do prazer

Clarice sofreu a busca por prazer, mas achava melhor o “sofrimento legítimo que o prazer forçado”.


A lucidez perigosa

Clarice sentia uma lucidez vazia. Para explicar o que era isso, comparava a um cálculo matemático perfeito que não se precisava, o vazio.
Essa sua lucidez era capaz de se tornar o inferno humano, um risco.

Até ao próximo post! 😉

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