A noiva jovem, o livro

bariccoÉ o primeiro livro que leio do italiano Alessandro Baricco. Fiquei impressionada com a forma como escreveu A Noiva Jovem. Fui pesquisar sobre o escritor, e descobri que além de escrever livros, ele também  faz crítica musical e toca piano.

Está explicada a sua relação com a escrita, onde parece conseguir reger uma orquestra que executa a narrativa do livro, e a entrada do próprio autor, que ora está em conversa com a companheira, ora em diálogo com um vizinho de mesa num restaurante, ou mesmo num episódio sobre como aconteceu a perda de um computador.

noivaPode parecer uma leitura confusa, mas a verdade é que num livro onde a quase totalidade das personagens não possuem nome, e por isso são tratados como a noiva, o filho, o pai, a mãe, a filha, o tio, etc. Alessandro  Baricco consegue colocar frases sobre frases, acontecimentos  sobre acontecimentos, e tudo faz sentido como um acorde.

O sexo infeliz é o único desperdício  que nos torna piores.” (versão epub, pág. 78)

O erotismo é uma presença constante no livro sempre embalado pelas personagens femininas, onde um gesto bem executado,  sem pressa, pode ser capaz de atingir o prazer sexual.

O fato é que alguns escrevem livros, outros os leem: sabe deus quem está em melhor posição para entender alguma coisa.” (versão epub, pág. 133). Com certeza, estar na posição de leitor de Alessandro Baricco é uma posição privilegiada na orquestra que é o seu livro.

Até ao próximo post!

A beleza da severidade

Durante a leitura de Cruze Esta Linha surge um nome familiar e respeitado, possivelmente mais conhecido e valorizado fora de seu país, Sebastião Salgado. O seu talento brinda-nos com uma imagem que fala por si. E é sobre ela, a reflexão do escritor Salman Rushdie:

Há uma foto de Sebastião Salgado que mostra o muro entre os Estados Unidos e o México serpenteando pela crista dos montes, sumindo na distância, até onde o olho pode enxergar, parte Grande Muralha da China, parte Gulag. Há uma espécie de beleza brutal ali, a beleza da severidade. Em intervalos há torres de vigia no muro, e nelas, chamadas de “torres do céu”, há guardas armados. Na foto, vemos a minúscula silhueta de um homem correndo, um imigrante ilegal, perseguido por outros homens em carros. O estranho na foto é que, embora o homem correndo esteja claramente do lado americano, ele está correndo para o muro, e não se afastando dele. Ele foi visto, e tem mais medo dos homens que o perseguem em carros do que da vida pobre que pensava ter deixado para trás. Estava tentando voltar, tentando desfazer seu lance de liberdade. Então a liberdade agora tem de ser protegida, contra aqueles que são pobres demais para merecer seus benefícios, pelos edifícios e procedimentos do totalitarismo.” – Salman Rushdie

Created by ImageGear, AccuSoft Corp.

foto retirada do Google

Até ao próximo post !

 

Bonsai, o livro

zambraO primeiro livro do chileno Alejandro Zambra possui poucas páginas, quase a sinopse de um roteiro. E que, realmente, veio a se tornar um filme. Um livro premiado e traduzido para vários idiomas.

Julio e Emilia, dois jovens estudantes, que se conhecem numa noite que era para ser de estudos, começam um relacionamento com diversão, sofrimento, mentira, revelações íntimas, cumplicidades, sexo, e que liam muito juntos, comentavam sobre a leitura antes de trançarem as pernas, por isso há no livro muitas citações de livros e autores.

bonsaiParece uma história de relacionamento amoroso como outras, a diferença é que Zambra deixa logo claro que Emilia morrerá. Mesmo com essa revelação, Zo escritor consegue provar que um livro mesmo sendo curto pode ser capaz de surpreender e cativar o leitor. Sobre o livro se chamar ‘Bonsai‘ deixo em aberto, mas segue a dica retirada de uma das páginas do livro.

Um bonsai nunca é chamado de árvore bonsai. A palavra já inclui o elemento vivo, a árvore deixa de ser um bonsai.” 

P.S.: Segue trailer do filme Bonsái do realizador chileno Christián Jiménez baseado no livro. Uma co-produção entre Portugal, Argentina, Chile e França.

Até ao próximo post!

 

O que é amor

Paul Éluard (1895-1952), poeta francês surrealista, escreveu sobre a liberdade, sobre a guerra, … e sobre o amor.

 Anna Karina recita poema de Paul Éluard no filme Alphaville (1965) de Jean Paul Godard.

E o amor era o mais puro sentimento, apesar de uma vida marcada pela doença, pela infidelidade,  pela traição,  pela depressão, era o amor que brotava da boca do coração de Paul Éluard, capaz de revelar “o que é amor“, publicado no livro “A capital da dor” (1926).

Sua voz, seus olhos,
Suas mãos, seus lábios.
Nosso silêncio, nossas palavras.
A luz que vai embora, a luz que volta.
Um único sorriso entre nós.
Por necessidade de saber,
Vi a noite criar o dia,
Sem que mudássemos de aparência.
Oh, bem-amado de todos,
E bem-amado de um só!
Em silêncio, sua boca prometeu ser feliz.
Cada vez mais longe, diz o ódio.
Cada vez mais perto, diz o amor.
Uma carícia leva-nos da nossa infância
Cada vez que vejo a forma humana
Como um diálogo de amantes.
O coração tem uma única boca.
Tudo por acaso.
Todas as palavras ditas inesperadamente.
Os sentimentos à deriva.
Os homens vagueiam pela cidade.
Um olhar, uma palavra
Porque eu te amo
Tudo está em movimento
Basta avançar, para viver,
Seguir adiante em direção aqueles que você ama.
Fui em sua direção, sem parar na direção da luz
Se você sorrir, é para melhor me envolver
Os raios dos seus braços entreabriram a névoa.

Segue este bela homenagem à Anna Karina, com imagens do filme Vivre Sa Vie (1962), de Jean-Luc Godard, e o amor na belíssima música de HanteQue Reste​-​t​-​il de notre amour ?.

Até ao próximo post!

 

“A pressão no muro irá aumentar”

Durante a leitura de Cruze esta linha, de Salman Rushdie, encontro esse aviso real e iminente…

Como disse o prêmio Nobel professor Amartya Sen, o problema não é a globalização. O problema é uma justa distribuição de recursos em um mundo globalizado. E à medida que aumenta o abismo entre os possuidores e os despossuídos do mundo (e ele aumenta o tempo todo), e à medida que até o suprimento de coisas essenciais, como água potável, se torna mais escasso (e escasseia o tempo todo), a pressão no muro irá aumentar.
Salman Rushdie, em Cruze esta linha

O saudoso pernambucano Chico Science (Francisco de Assis França) e a sua Nação Zumbi, no álbum da Lama ao Caos (1994) cantou: ” A cidade não pára. A cidade só cresce. O de cima sobe. E o de baixo desce”.

Até ao próximo post!

 

A Fronteira e The Terminal

A fronteira é um chamado para acordar. Na fronteira, não podemos evitar a verdade; as reconfortantes camadas do cotidiano, que nos isolam das realidades mais ásperas do mundo, são removidas e, de olhos arregalados, à luz fluorescente dos salões sem janelas da fronteira, vemos as coisas como são. A fronteira é a prova física do eu dividido da espécie humana, a prova de que a utópica visão aérea de Merlin é uma mentira. Eis a verdade: essa linha, diante da qual temos de parar até nos ser permitido ultrapassar e apresentar nossos documentos para serem examinados por um funcionário que tem o direito de nos perguntar mais ou menos qualquer coisa. Na fronteira, somos despidos de nossa liberdade — esperamos que temporariamente — e entramos no universo do controle. Mesmo a mais livre das sociedades livres não é livre no limite, onde coisas e pessoas saem e outras pessoas e coisas entram, onde apenas as coisas e pessoas certas devem entrar e sair. Aqui, no limite, nos submetemos ao escrutínio, à inspeção, ao julgamento. As pessoas que guardam essas linhas têm de nos dizer quem somos nós. Temos de ser passivos, dóceis. Agir de outra forma é ser suspeito, e na fronteira ser alvo de suspeita é o pior de todos os crimes possíveis.” – Salman Rushdie

Ao ler esse trecho do livro “Cruze esta linha” veio à memória o filme do Steven Spielberg, “The Terminal”, com a excelente interpretação do Tom Hanks. Segue o trailer…

Até ao próximo post!

O Último Voo do Flamingo, o livro

download (1)
Esse é o terceiro livro de Mia Couto (António Emílio Leite Couto) que leio. Tem sido agradável enveredar pela África que fala português através da escrita desse escritor moçambicano, que usa a palavra “contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos”, um papel que ele diz que também cabe aos escritores.

 

download (2)
O Último Vôo do Flamingo
foi uma leitura carregada de fatos estranhos do início ao fim do livro. Começando com a cena de um sexo masculino avultado e avulso encontrado numa estrada, consequência de uma das várias explosões de capacetes azuis da ONU, que Mia Couto desenvolve uma estória que se passa na fictícia Tizangara. Cada capítulo é aberto com um dito ou provérbio africano.

As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão.” (provérbio africano)

Os flamingos, cuja voz orienta os pescadores, são os anunciadores da esperança, que foi raptada pela ganância dos poderosos, e que buscam manter a ordem que lhes mantém patrões. A ordem que é uma doença em Tizangara, mas que parece se encaixar bem na história de Moçambique, ex-colônia portuguesa. 

Foi uma pena de flamingo encontrada pelo escritor enquanto caminhava numa praia de Moçambique que inspirou Mia Couto por 2 anos na construção dessa obra.

O livro acabou por ter uma adaptação para o cinema em 2010.

Até ao próximo post!

Em nome de Deus, Salman Rushdie

Mas eu não sou um homem religioso. Eu não me ajoelhei. Fui dar uma entrevista em uma televisão e disse que eu queria ter escrito um livro mais crítico. Por quê? Porque, quando o líder de um Estado terrorista acaba de anunciar sua intenção de matar você em nome de Deus, você só pode vociferar ou resmungar. Eu não quis resmungar. E porque, quando o assassinato é ordenado em nome de Deus, você começa a ter menos consideração pelo nome de Deus.

    Depois, pensei: se existe um Deus, não acho que ele vá se importar com Os versos satânicos, porque ele não seria um grande deus se se abalasse de seu trono por causa de um livro. Por outro lado, se não existe um deus, ele certamente não se importa. Então o problema não é entre mim e Deus, mas entre mim e aqueles que pensam — como Bob Dylan um dia nos lembrou — que podem fazer o que quiserem porque têm Deus do seu lado.” – Salman Rushdie, pág.222 versão Epub de Cruze Esta Linha.

  • O tradutor italiano de “Os versos satânicos” quase foi morto, o tradutor japonês foi morto.
  • Um esquadrão de ataque assassinou o ex-primeiro-ministro Shapour Bakhtiar em Paris.
  • Outro esquadrão matou um cantor iraniano dissidente na Alemanha. Cortaram-no em pedaços e colocaram em um saco.
  • Um esquadrão de ataque treinado no Irã/Irão assassinou o jornalista secular Ugur Mumçu. 
  • No Egito, assassinos fundamentalistas mataram Farag Fouda, um dos mais importantes pensadores seculares do país.

Só resta ouvir o Prêmio Nobel de Literatura 2017…

Até ao próximo post!

 

 

O Xará, o livro

O leitor deve perceber por conta própria que não poderia ter acontecido de outro modo, e que dar-lhe qualquer outro nome estava totalmente fora de questão.”
Nikolai Gógol, “O Capote”.

jhumpaFoi ao ler “Cruze esta linha”, de Salman Rushdie, que conheci a escritora Jhumpa Lahiri. Ele escreveu que a escritora é muito talentosa, e participou da sensação geral de orgulho por sua conquista ao prêmio Pulitzer por seu primeiro livro de contos “Intérprete dos males” (2000). Jhumpa Lahiri já venceu outros prêmios de literatura e participou da FLIP 2014 (Festa Literária Internacional de Paraty). Logo a curiosidade despertou e fui em busca de uma obra dessa escritora.

 

downloadO primeiro romance que li de Jhumpa Lahiri foi “O xará”. A sua prosa é suave, levando-nos a acompanhar a vida do principal personagem Gógol Ganguli de uma maneira tal que o desejo é de devorar o livro o mais rapidamente possível.

Gógol Ganguli, com seu nome russo e sobrenome indiano, vagueia sobre as duas culturas, a americana e a indiana, sobre tradições e costumes diferentes. O cenário do livro situa-se em Boston, Nova Iorque e Índia.

Os pais de Gógol são indianos, imigrantes em busca de oportunidades nos Estados Unidos. Se conheceram na Índia, através de um casamento arranjado por seus pais. Foi só após o noivado que a mãe de Gógol, Ashima Bhaduri, soube o nome do futuro marido, Ashoke Ganguli. Torna-se Ashima Ganguli. Isso porque na tradição bengali, o nome do marido é algo íntimo.

Para Ashima, ser estrangeira é um sentimento contínuo de indisposição, mas que também desperta. Eu conheço bem esse sentimento. Ashima estranhava que uma criança nasce num lugar onde as pessoas geralmente entram para sofrer ou para morrer. É num hospital americano que inicia a vida de Gógol. Ele entra para o mundo.

A vida de Gógol inicia-se com um obstáculo, entre uma tradição bengali e o protocolo para ser liberado do hospital, uma certidão de nascimento. É preciso um nome. Na tradição de sua família, os nomes são escolhidos pela avó de Ashima. Uma carta enviada de Calcutá constaria um nome para menino e outro para menina, mas a carta nunca chegou ao destino.

Gógol Ganguli recebe esse nome, uma ideia do pai Ashoke em homenagem ao escritor russo Nikolai Gógol, para que possa ser liberado da maternidade do hospital, na verdade era apenas um “nome de criação”, uma solução provisória. Em bengali, esse nome de criação é o “daknam”, que significa o nome pelo qual se é chamado por amigos, parentes e pessoas próximas íntimas. O “nome de criação” é acompanhado de um “nome bom”, um “bhalonam”, que é uma identificação no mundo externo.

Gógol é um deshi (indiano), aliás ele é um ABCD – American-born confused deshis. E ele cresce em dificuldades em aceitar o seu nome de criação que passou a ser utilizado no mundo externo devido ao extravio da carta da avó de Ashima, seguido da doença da avó. Completada a maioridade americana, Gógol troca o nome para “Nikhil” que já tinha sido uma sugestão do pai no passado, quando Gógol entrou para a escola nos Estados Unidos.

Nikhil tem uma conexão com o nome anterior. Era um bom nome bengali que significa “aquele que é inteiro, que abrange tudo”. Gógol descobre, durante a sua trajetória de vida, que os nomes perecem assim como as pessoas, e que famosos também tiveram segundos batismos.

Foi nesse romance que também é um passeio sobre culinária que mergulhei, e gostei imenso da escrita de Nilanjana Sudeshna Lahiri, a Jhumpa Lahiri. Eu que sou “a que vive na floresta’.

Até ao próximo post!

Sobre ser fotografado, Salman Rushdie

… a câmera é uma arma: uma fotografia é um shot [um tiro] e uma sessão de fotos é uma shoot [uma sessão de tiro], e o retrato pode ser portanto o troféu que o caçador leva de sua shikar [caçada] para casa. Uma cabeça empalhada na parede.– Salman Rushdie


A BARCA é um grupo paulista que pesquisa gêneros tradicionais brasileiros, cria arranjos e composições inéditas inspiradas nas manifestações populares. Essa música do grupo ouvi pela primeira vez numa rádio portuguesa há 10 anos atrás.  Fui descobri-los em Portugal! “Tirei um retrato de Cleusa…”.

Até ao próximo post!