Clarice Lispector LV

Aos pedacinhos vamos conhecendo e tentando entender a escritora Clarice Lispector. Ela que se definia como um mistérido para ela mesma. “Simpleslente asim, eu sou eu e você é você. É lindo é vasto.”

Mas há a vida
  “Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”

Um caderno escolar
“Desabrocho em coragem, embora na vida diária continue tímida. Aliás sou tímida em determinados momentos, pois fora destes tenho apenas o recato que também faz parte de mim.”

“Como brasileira seria de estranhar se eu não sentisse e não participasse da vida do meu país. Não escrevo sobre problemas sociais mas eu os vivo intensamente e, já em criança, me abalava inteira com os problemas que via ao vivo.”

Doar a si próprio 
“No amor felizmente a riqueza está na doação mútua. O que não significa que não haja luta: é preciso se doar o direito de receber amor. Mas lutar é bom. Há dificuldades que só por serem dificuldades já esquentam o nosso sangue, que este felizmente pode ser doado.”

Loucura diferente 
“A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato de loucura.”

O “verdadeiro” romance
… “E eu, que já viajei bastante e não quero mais viajar, como é que nunca me ocorreu nem ocorrerá jamais escrever um livro de viagens? Com perdão da palavra, sou um mistério para mim. E, ainda fazendo parte deste mistério, por que leio tão pouco? O que era de se esperar é que eu tivesse verdadeira fome de leituras. Também para ver o que os outros fazem. No entanto só consigo ler coisas que, se possível, caminhem direto ao que querem dizer. Não, positivamente não me entendo.”

Até ao próximo post!

Um passeio por Brugge

Brugge, na Bélgica, é uma cidade com traços medievais. O seu centro histórico é patrimônio da UNESCO. A cidade cresceu devido a manufatura de tecidos na época medieval. Tornou-se assim um dos principais pólos comerciais da Europa graças aos seus canais com ligação ao mar. Inclusive, foi lá que surgiu a primeira bolsa de valores do mundo.

A cidade está localizada na região flamenga da Bélgica. O idioma principal é o holandês. É, sem dúvida, uma das cidades mais bonitas do país. Atualmente, a cidade é conhecida por suas lojas de chocolate e cerveja. E também pelo seu mercado de Natal.

É sempre agradável um passeio nesta cidade. Não é o meu primeiro post sobre ela. Você pesquisar mais no menu do blog.
Vem comigo fazer um curto passeio em fotos, e assistir ao vídeo que fiz com mais imagens!

A cidade com sua arquitetura medieval convida-nos a caminhar por suas ruas sem compromisso de tempo. A medida que nos aproximamos do centro histórico aumenta o número de turistas de todo o mundo.

um antigo hospital

Parar numa de suas esquinas para admirar sua imponente catedral e o toque dos seus sinos.

Suas lojas convidam-nos a entrar, ou simplesmente, admirar suas vitrines. Era semana da Páscoa e esta vitrine mostrava antigas fôrmas metálicas de ovos de Páscoa, fotos e cartões antigos.

Ou a seguinte, que é um trecho de um extenso muro com quase todas as cervejas belgas.

Não deve ser fácil pedalar por suas ruas de paralelepípedos com muitos turistas, mas elas estão por todo o lado e até mesmo na decoração de um estacionamento pago só para elas.

E agora o curto vídeo que fiz com mais imagens de Brugge. Desta vez, deixei o som ambiente para se ter uma melhor realidade. Vem comigo!

Até ao próximo post!

Clarice Lispector LIV

Trechos das crônicas escritas pela escritora brasileira Clarice Lispector para o Jornal do Brasil, que são como ‘dicas’ para a conhecer.

Bichos

Às vezes me arrepio toda ao entrar em contato físico com bichos ou com a simples visão deles. Pareço ter certo medo e horror daquele ser vivo que não é humano e que tem os nossos mesmos instintos, embora mais livres e mais indomáveis. Um animal jamais substitui uma coisa por outra, jamais sublima como nós somos forçados a fazer. E move-se, essa coisa viva! Move-se independente, por força mesmo dessa coisa sem nome que é a Vida.”

Ao correr da máquina 

Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida instintiva e intuitiva, enquanto que a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim. Não a apressarei, viverei até a última gota de fel.

Preguiça 

Num dia de chuva dá muita preguiça. Quase não posso escrever.. Num dia de chuva dá muita preguiça. Quase não posso escrever.”
“Tenho vergonha de ser escritora – não dá pé. Parece demais com coisa mental e não intuitiva.”

O cetro

Mas se nós, que somos os reis da natureza, havemos de ter medo, quem há de não tê-lo?

Agradeço a sua leitura e até ao próximo post!

Passeando em Bruxelas

Confesso que não gosto muito de ir a Bruxelas. Motivos? Maior concentração de pessoas nas ruas, outro idioma dentro do mesmo país,… No entanto, confesso que apresentar Bruxelas a quem não a conhece faz-me ter atenção a detalhes que eu não tinha notado em outras idas, e esqueço que não gosto de ir.

Foi assim que cheguei a esse teto com pinturas dos Smurfs. Criação do belga Peyo, as criaturas azuis trazem alegria ao sair da estação Bruxelas Central para ir à Grand place.

Bruxelas permite interessantes ângulos para fotografia.

O menino pequenino conhecido como Manneken Pis (pis=xixi) continua com sua gracinha. E ainda não foi desta vez que o vi vestido.

No outro extremo está a menina pequenina Jeanneke Pis que recebe moedas que irão no fim do dia contribuir para pesquisas médicas no país.

Saindo da Grand Place pela Rue Charles Buls, encontra-se outra lenda da cidade, a estátua de bronze de Everard t’Serclaes que dizem que se tocá-la trará sorte no amor,  a fortuna ou na fertilidade. Ele liderou a resistência contra a invasão flamenga à cidade. Devido a pandemia a estátua estava isolada para evitar que as pessoas esfreguem suas mãos na estátua.

Caminhando pelas ruas do centro turístico de Bruxelas mais cenas engraçadas são avistadas o Tintim, a gata na bicicleta, os deliciosos waffles que resolveram mudar de forma em uma das lojas próximas ao Manneken Pis.

O dia revelou-se um belo dia ensolarado, mas por vezes nublado, chuvoso e até granizo tivemos. Um típico dia de Abril com todos os seus ingredientes. Ainda visitamos a loja do Harry Potter, passeamos por dentro de uma livraria, e claro, o meu momento de gastronomia. Não escolhi nada típico do país, nem mesmo a cerveja. Estava com saudades de saborear um ramen, e este estava lindo e saboroso.

Espero que tenham gostado de passear comigo, e até ao próximo post!

A biblioteca da meia-noite, o livro

Não me recordo de como cheguei ao livro A biblioteca da meia-noite (The midnight library) de Matt Haig, mas recordo que as palavras que compõem o seu título tiveram um grande poder de atração.

O livro começa com uma citação de Sylvia Plath que diz tudo sobre o que a leitura irá revelar. Um livro que eu não queria que terminasse, um livro com sabor de um bom vinho. Eu achei o livro fantástico.

Não posso ser todas as pessoas que quero e viver todas as vidas que quero. Não posso desenvolver em mim todas as aptidões que quero. E por que eu quero? Quero viver e sentir as nuances, os tons e as variações das experiências físicas e mentais possíveis de minha existência.” Sylvia Plath

A personagem principal é Nora. Ela vive o que muitos de nós vivemos, os arrependimentos. Nora sentia-se como um buraco negro, uma estrela moribunda, colapsando sobre si mesma, apesar de ser admiradora do filósofo Henry David Thoreau, ela dizia que nada nunca acontecia e esse era o problema. E ela pensa que a morte é o remédio. É quando surge a Biblioteca da Meia-Noite que dá título ao livro. A biblioteca é o intervalo entre a vida e a morte, e onde ela é a fonte de seus problemas, mas também a solução, “o livro dos arrependimentos”.

E a meia-noite é quando toda vida nova é oferecida, onde você pode escolher as opções, mas não as consequências. E a única maneira de aprender é vivendo, e não esquecer que somos como a semente de uma árvore. A árvore é a nossa vida. Esta árvore produz ramos, que por sua vez produzirão outros ramos a cada momento. E se você ficar procurando pelo sentido da vida, então não irá vivê-la.

Nora, em uma de suas vidas, conclui que “a gente passa tanto tempo desejando que a vida fosse diferente, se comparando com outras pessoas e com outras versões de nós mesmos, quando, na verdade, a maioria das vidas contém um certo grau de coisas boas e um certo grau de coisas ruins.”

É fácil lamentar as vidas que não estamos vivendo, porque não exige esforço. E o arrependimento é o que nos faz encolher.

Foram três palavras com potencial que Nora aprendeu: EU ESTOU VIVA.

Para mim: UM LIVRO PARA SEMPRE.

Até ao próximo post!

Decisões

Abril chegou com muito frio e neve na Bélgica. Aliás, Abril é conhecido, por estas bandas, por trazer em um mesmo dia um pouco de tudo que um clima reserva. Também em Abril, estou lendo um livro maravilhoso, e espero, em breve, escrever sobre essa leitura. Para já trago a fala de um dos personagens, e em seguida o vídeo da música Everything da cantora canadense Alanis Mororissette.

Cada vida contém muitos milhões de decisões. Algumas grandes, algumas pequenas. Mas cada vez que uma decisão é tomada em detrimento de outra, os resultados são diferentes. Ocorre uma variação irreversível, o que, por sua vez, leva a outras variações…

(A biblioteca da meia-noite, Matt Haig, pág. 270, versão epub) 

Agradeço a leitura e até ao próximo post.

Clarice Lispector LIII

Trago 4 trechos de 4 diferentres crônicas da escritora Clarice Lispector. A escritora escrevia sobre ela mesma. São pistas para entendê-la. Será que conseguimos compreendê-la?

Perdoando Deus

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.”

Morte de uma baleia

“Não, não fui vê-la: detesto a morte. Deus, o que nos prometeis em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos – cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio apocalipse. E a própria morte.”

Nossa truculência

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência.”

Uma experiência

“Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.”

Agradeço a leitura e até ao próximo post.

Lagartixa na Bélgica

Eu já escrevi um post sobre as casas na Bélgica flamenga (aqui). Não é o caso desta casa. O que chama atenção nesta casa é a escultura de uma grande lagartixa. Ainda não encontrei nenhuma real por aqui. Ao vê-la lembrei logo das lagartixas do Nordeste do Brasil. Saudades!

Ainda falando sobre a Bélgica, os efeitos da invasão russa à Ucrânia já se faz sentir aqui. Os preços dos combustíveis a subirem, o preço da energia e gás já tinham subido consideravelmente, e recentemente, a ausência de farinha de trigo, farinhas para o fabrico do pão e uma quantidade limitada de pão nos supermercados são os novos sinais de uma crise que atingirá a todos.

Agradeço sua leitura e até ao próximo post!

Formas de voltar para casa, o livro

Mais um livro em minha vida. Mais uma vez, ler o chileno Alejandro Zambra foi uma confirmação do seu talento como escritor e de sua sensibilidade em nos levar sobre os caminhos tortuosos das relações humanas.

Formas de Voltar Para Casa começa sua história na noite do terremoto em 3 de Março de 1985 no Chile sob a ditadura de Pinochet. São as memórias de um menino na época com 9 anos. Um menino que tinha medo, mas também  lhe agradava o que estava acontecendo com barracas sendo montadas nos jardins dos vizinhos.

Alejandro Zambra escreve com um humor sutil, daqueles que nos faz sorrir como a pureza de uma criança. Pinochet para esse menino era um personalidade da televisão que interrompia a programação nas melhores partes com enfadonhos pronunciamentos. E para esse menino comunista era alguém que lia o jornal e recebia em silêncio a zombaria. Esse menino cresce, torna-se um adolescente, e depois um adulto escritor, em que “ler é cobrir a cara e escrever é mostrá-la.”

A leitura de um livro é sempre um momento de viver outras vidas, de viajar, de conhecer aspectos de outras culturas e tanto mais. Com este livro fiquei a saber que o escritor Alejandro Zambra foi eleito pela revista britânica Granta como um dos 22 melhores jovens escritores hispano-americanos. Esta mesma revista que foi criada por estudantes de Cambridge também existe com o mesmo nome e com publicação  simultânea em Portugal e no Brasil. Penso que vale a pena uma visita ao site desta revista: http://granta.tintadachina.pt/

Agradeço sua leitura, e até ao próximo post!

Clarice Lispector LII

Conhecer a escritora brasileira Clarice Lispector através de suas crônicas…

Um Reino Cheio de Mistério 

Nessa crônica Clarice escreve sobre o dia 21 de Setembro, o Dia da Árvore. Mas, ela considera que importante seria comemorar o dia da planta, ou melhor, da plantação. Plantar é criar na Natureza.
A escritora escreveu sobre quando plantou um pé de milho numa granja, e mais tarde, na Suíça, plantou um pé de tomates numa grande lata bonita. Clarice entrava no mistério da Natureza. Quando acordava ia examinar a planta. Esperar o amadurecer é como na criação artística em que o trabalho inconsciente é vagaroso. Foi com emoção  que viu os tomates num prato da mesa. Eram mais que os seus livros. Só que não teve coragem de comê-los seria um sacrilégio, uma desobediência à lei natural. Um tomateiro é arte pela arte.

Rosas Silvestres

Clarice tinha uma amiga que lhe enviava rosas silvestres. O perfume delas dava-lhe ânimo para respirar e viver. O mistério era que ao envelhecer perfumam ainda mais, e lembram as perfumadas noites de lua de Recife.
Quando mortas, feias, em vez de brancas ficam amarronzadas. Quando mortas têm a alma viva.
Era assim que Clarice queria morrer: perfumando de amor.

Até ao próximo post!