Gagarin – o primeiro no espaço, o filme

Interessante produção russa (2013) que assisti pela Netflix onde mostra o cosmonauta soviético Yuri Gagarin desde sua infância até o seu primeiro vôo ao espaço. De uma infância humilde à fama de herói. 

Além da vida de Gagarin, o filme também mostra toda a preparação para a volta sob a Terra que durou 108 min, desde a seleção de candidatos, exercícios, o lançamento da Vostok 1 no Cazaquistão até o seu retorno ao solo do nosso planeta em terras soviéticas.

Um filme que vale a pena ser visto. Também o encontrarás completo no YouTuBe.

Até ao próximo post!

 

 

A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, o livro

junot

 

Durante o lockdown na Bélgica surgiu a ideia de viajar através da literatura. Peguei minha lista de livros lidos e verifiquei a nacionalidade de cada escritor, 27 nacionalidades! Foi assim que cheguei ao livro do dominicano Junot Díaz, a 28a. nacionalidade. Um livro vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção em 2008.

 

livro wao

 

 

Quando você consegue ter um mínimo de felicidade, ela desaparece como se nunca tivesse existido“.
(Pág. 208, versão Epub)

 

 

 

A fantástica vida breve do jovem Oscar Wao, obeso, tímido, incomum e amante de RPG, e que se torna professor de redação criativa, sem conseguir publicar suas obras. O enredo passa-se durante o período de ditadura de Rafael Leónidas Trujillo Molina na República Dominicana. Este seria o criador ou criatura da maldição (fukú).

O fukú abateu-se sobre os ascendentes familiares de Oscar Wao, quando o avô deste recusou entregar sua linda e culta filha mais velha para satisfazer o apetite sexual do ditador. Supõe-se que a maldição tenha vindo da África trazida pelos gritos dos escravizados e Santo Domingo tenha sido o porto de entrada.

Supõe-se que a família Kennedy foi outra que sofreu um fukú, após JF Kennedy ter dado sinal verde para o assassinato do ditador dominicano Trujillo, em 1961.

A vida breve de Oscar Wao entrelaça-se com a história da República Dominicana, um país que, segundo o livro, é exportador de putas, mas também, e infelizmente, um país de dez milhões de Trujillos. Um país ainda preso a rivalidades com o Haiti e Porto Rico.

E assim viajei sem correr riscos até a América Central.

Até ao próximo post!

 

 

Clarice Lispector XXXV

clarContinuando o resumo de crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”. Encontrarás todos os resumos anteriores na categoria “Clarice Lispector” neste blog.


Trechos

  • O mais difícil é não fazer nada. Trabalhar é um atordoamento. Ficar sem fazer nada é a nudez final. Os que não aguentam, vão se divertir.

  • Clarice estava escrevendo de madrugada. Não queria estar só diante do mundo. De algum modo estava acompanhada. E era bom. Estava escrevendo com facilidade e fluência. Desconfiava disso.

  • Recordou de um tempo de refinamento em que pedia ao garçom da casa para servir lavandas com uma pétala de rosa no líquido para os convidados. Um ritual talvez. Uma recordação  de alguém ter lhe contado sobre uma novela com um homem que não  sabia para que serviam as lavandas em taças com água morna e gotas de limão.

  • Ler Clarice é conhecer um humor refinado (?). Ela escreveu sobre a visita de uma embaixatriz que gostava de dar ordens brutas, mas para a escritora nunca fez isso. Confidenciou-lhe que não gostava de certo tipo de pessoa. Clarice ficou surpreendida e ficou calada, pois ela era exatamente esse tipo de pessoa.  A embaixatriz não a conhecia realmente. Noutra oportunidade convidou Clarice para lhe visitar e esta não foi. Era preciso proteger quem lhe ofende e tem sido obrigada a perdoar muito.

  • Escreveu que nunca esquecerá um domingo que estava sozinha e sentiu uma forte dor, viu que a menina que havia dentro de si estava morrendo. Levou dias para cicatrizar, mas passou.

  • Gostava de ir à praia, deixar o sal na pele, pois dizia-lhe o pai que era bom para a saúde. Estava saudável,  mas ela sabia que doença  é algo imprevisível. A morte do pai a deixou perplexa, pois ele encontrava-se em plena maturidade. Clarice disse: “Mas de algum modo as pessoas são eternas. Quem me lê também.”

Até ao próximo post!

Sinfonia da Ciência

Você conhece a Sinfonia da Ciência

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É uma série  de mescla musical e visual (maschup), ou seja, transformações de conteúdos originais, criada pelo compositor e cineasta Melodysheep, que visa espalhar  ciência e filosofia  através de remixes de pensadores científicos proeminentes, como está explicado no website: https://www.symphonyofscience.com/

Escolhi uma dessas composições: The Poetry of Reality (A poesia da realidade). Esta maschup conta com a participação de 12 cientistas e entusiastas de ciências (Michael  Shermer, Jacob Bronowski, Carl Sagan, Neil deGrasse Tydon, Richard Dawkins, Jill Tarter, Lawrence Krauss, Richard Feynman, Brian Greene, Stephen Hawking, Carolyn Porco e PZ Myers. Vale a pena estar atento a letra desta composição.

Encontrarás mais Sinfonia da Ciência  também  no canal do Melodysheep no YouTube.

Até ao próximo post!

A noiva jovem, o livro

bariccoÉ o primeiro livro que leio do italiano Alessandro Baricco. Fiquei impressionada com a forma como escreveu A Noiva Jovem. Fui pesquisar sobre o escritor, e descobri que além de escrever livros, ele também  faz crítica musical e toca piano.

Está explicada a sua relação com a escrita, onde parece conseguir reger uma orquestra que executa a narrativa do livro, e a entrada do próprio autor, que ora está em conversa com a companheira, ora em diálogo com um vizinho de mesa num restaurante, ou mesmo num episódio sobre como aconteceu a perda de um computador.

noivaPode parecer uma leitura confusa, mas a verdade é que num livro onde a quase totalidade das personagens não possuem nome, e por isso são tratados como a noiva, o filho, o pai, a mãe, a filha, o tio, etc. Alessandro  Baricco consegue colocar frases sobre frases, acontecimentos  sobre acontecimentos, e tudo faz sentido como um acorde.

O sexo infeliz é o único desperdício  que nos torna piores.” (versão epub, pág. 78)

O erotismo é uma presença constante no livro sempre embalado pelas personagens femininas, onde um gesto bem executado,  sem pressa, pode ser capaz de atingir o prazer sexual.

O fato é que alguns escrevem livros, outros os leem: sabe deus quem está em melhor posição para entender alguma coisa.” (versão epub, pág. 133). Com certeza, estar na posição de leitor de Alessandro Baricco é uma posição privilegiada na orquestra que é o seu livro.

Até ao próximo post!

Clarice Lispector XXXIV

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Resumos de três crônicas escritas por Clarice Lispector para o Jornal do Brasil.  As crônicas compõem o livro “Aprendendo a Viver”, de Clarice Lispector.

 


Horas para gastar

Clarice Lispector surpreendia-se com o número de horas que se tem para gastar.  “A vida é mais longa do que a fazemos. Cada instante conta.” Já descontadas as horas de sono, de fins de semana,  férias,  feriados, tempo gasto em condução para o trabalho, ela chegou ao número de mil novecentos e trintas horas por ano.

Prazer no trabalho 

“Não gosto das pessoas que se gabam de trabalhar penosamente. Se o seu trabalho fosse assim tão penoso mais valia que fizessem outra coisa. A satisfação que o nosso trabalho nos proporciona é sinal de que soubemos escolhê-lo.”

Um instante fugaz 

Esse instante na vida da escritora foi um encontro sem palavras, apenas um sorriso entre ela e um hippie. Enquanto  ela caminhava por uma rua movimentada, em direção oposta a sua, percebeu um olhar, não pararam. Um encontro muito profundo, como disse. Riram da tolice do mundo. A escritora  nunca mais esqueceu-o, e passou a imaginá-lo com o nome John, um irmão, que tinha a capacidade de êxtase como ela. Deixou-a plena e útil.

Até ao próximo post!

A beleza da severidade

Durante a leitura de Cruze Esta Linha surge um nome familiar e respeitado, possivelmente mais conhecido e valorizado fora de seu país, Sebastião Salgado. O seu talento brinda-nos com uma imagem que fala por si. E é sobre ela, a reflexão do escritor Salman Rushdie:

Há uma foto de Sebastião Salgado que mostra o muro entre os Estados Unidos e o México serpenteando pela crista dos montes, sumindo na distância, até onde o olho pode enxergar, parte Grande Muralha da China, parte Gulag. Há uma espécie de beleza brutal ali, a beleza da severidade. Em intervalos há torres de vigia no muro, e nelas, chamadas de “torres do céu”, há guardas armados. Na foto, vemos a minúscula silhueta de um homem correndo, um imigrante ilegal, perseguido por outros homens em carros. O estranho na foto é que, embora o homem correndo esteja claramente do lado americano, ele está correndo para o muro, e não se afastando dele. Ele foi visto, e tem mais medo dos homens que o perseguem em carros do que da vida pobre que pensava ter deixado para trás. Estava tentando voltar, tentando desfazer seu lance de liberdade. Então a liberdade agora tem de ser protegida, contra aqueles que são pobres demais para merecer seus benefícios, pelos edifícios e procedimentos do totalitarismo.” – Salman Rushdie

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foto retirada do Google

Até ao próximo post !

 

Bonsai, o livro

zambraO primeiro livro do chileno Alejandro Zambra possui poucas páginas, quase a sinopse de um roteiro. E que, realmente, veio a se tornar um filme. Um livro premiado e traduzido para vários idiomas.

Julio e Emilia, dois jovens estudantes, que se conhecem numa noite que era para ser de estudos, começam um relacionamento com diversão, sofrimento, mentira, revelações íntimas, cumplicidades, sexo, e que liam muito juntos, comentavam sobre a leitura antes de trançarem as pernas, por isso há no livro muitas citações de livros e autores.

bonsaiParece uma história de relacionamento amoroso como outras, a diferença é que Zambra deixa logo claro que Emilia morrerá. Mesmo com essa revelação, Zo escritor consegue provar que um livro mesmo sendo curto pode ser capaz de surpreender e cativar o leitor. Sobre o livro se chamar ‘Bonsai‘ deixo em aberto, mas segue a dica retirada de uma das páginas do livro.

Um bonsai nunca é chamado de árvore bonsai. A palavra já inclui o elemento vivo, a árvore deixa de ser um bonsai.” 

P.S.: Segue trailer do filme Bonsái do realizador chileno Christián Jiménez baseado no livro. Uma co-produção entre Portugal, Argentina, Chile e França.

Até ao próximo post!

 

O que é amor

Paul Éluard (1895-1952), poeta francês surrealista, escreveu sobre a liberdade, sobre a guerra, … e sobre o amor.

 Anna Karina recita poema de Paul Éluard no filme Alphaville (1965) de Jean Paul Godard.

E o amor era o mais puro sentimento, apesar de uma vida marcada pela doença, pela infidelidade,  pela traição,  pela depressão, era o amor que brotava da boca do coração de Paul Éluard, capaz de revelar “o que é amor“, publicado no livro “A capital da dor” (1926).

Sua voz, seus olhos,
Suas mãos, seus lábios.
Nosso silêncio, nossas palavras.
A luz que vai embora, a luz que volta.
Um único sorriso entre nós.
Por necessidade de saber,
Vi a noite criar o dia,
Sem que mudássemos de aparência.
Oh, bem-amado de todos,
E bem-amado de um só!
Em silêncio, sua boca prometeu ser feliz.
Cada vez mais longe, diz o ódio.
Cada vez mais perto, diz o amor.
Uma carícia leva-nos da nossa infância
Cada vez que vejo a forma humana
Como um diálogo de amantes.
O coração tem uma única boca.
Tudo por acaso.
Todas as palavras ditas inesperadamente.
Os sentimentos à deriva.
Os homens vagueiam pela cidade.
Um olhar, uma palavra
Porque eu te amo
Tudo está em movimento
Basta avançar, para viver,
Seguir adiante em direção aqueles que você ama.
Fui em sua direção, sem parar na direção da luz
Se você sorrir, é para melhor me envolver
Os raios dos seus braços entreabriram a névoa.

Segue este bela homenagem à Anna Karina, com imagens do filme Vivre Sa Vie (1962), de Jean-Luc Godard, e o amor na belíssima música de HanteQue Reste​-​t​-​il de notre amour ?.

Até ao próximo post!

 

“A pressão no muro irá aumentar”

Durante a leitura de Cruze esta linha, de Salman Rushdie, encontro esse aviso real e iminente…

Como disse o prêmio Nobel professor Amartya Sen, o problema não é a globalização. O problema é uma justa distribuição de recursos em um mundo globalizado. E à medida que aumenta o abismo entre os possuidores e os despossuídos do mundo (e ele aumenta o tempo todo), e à medida que até o suprimento de coisas essenciais, como água potável, se torna mais escasso (e escasseia o tempo todo), a pressão no muro irá aumentar.
Salman Rushdie, em Cruze esta linha

O saudoso pernambucano Chico Science (Francisco de Assis França) e a sua Nação Zumbi, no álbum da Lama ao Caos (1994) cantou: ” A cidade não pára. A cidade só cresce. O de cima sobe. E o de baixo desce”.

Até ao próximo post!